“Alguns projectos como a bancada já poderiam ter sido feitos há mais tempo com o dinheiro esbanjado em coisas supérfulas, como o pagamento a jogadores”

Presidente do União Desporto e Recreio de Vila Nova desde 2010, Rui Costa tem uma visão moderna e realista do futebol distrital e da sustentabilidade de uma colectividade da dimensão do Recreio. Sem papas na língua, não poupa críticas a quem governou o UDR antes da vigência da sua direcção, relembrando as verbas excessivas esbanjadas para sustentar o futebol sénior. Desse tempo, afirma, não ficaram nem jogadores, nem património, tão pouco resultados desportivos.

Rui Costa, presidente do Recreio de Vila Nova da Rainha até Junho de 2016

F : Fale-me do projecto da bancada que esta direcção pretende construír no Campo dos Arneiros.
R.C.: A maquete já é pública, e espelha bem a beleza deste projecto. Para além da beleza, há também todo o aproveitamento que pretendemos fazer da zona interior da bancada, nomeadamente com a instalação do posto médico ou a criação de uma loja do clube, para darmos seguimento ao protocolo de colaboração que temos com a marca de equipamentos Macron. Acima de tudo porque necessitamos de uma bancada, essencial para engrandecermos as condições do nosso clube.
F : Os tempos são outros, e o dinheiro hoje é muito mais difícil de arranjar. Como é que o Recreio vai arranjar o valor em que a bancada está orçamentada?
R.C.: Os tempos de facto são outros, e ainda bem que assim é, porque em tempos recentes esbanjou-se muito dinheiro em nada. O projecto que hoje pensamos fazer – a bancada e outras coisas mais – já poderiam estar feitos com o dinheiro que foi esbanjado em nada ou, se preferir, em coisas supérfulas, como pagamentos a jogadores e outras situações do género, com as quais não estou de acordo mas que encontrei neste clube e com as quais tive que conviver quando aqui cheguei e ainda durante o primeiro ano de mandato, não apenas porque as mesmas já estavam definidas antes de eu chegar como também porque eu próprio era um pouco inexperiente nestas coisas. Os meus conhecimentos para arranjar planteis e treinadores eram um pouco limitados nesta zona, e acabei por entrar com a carruagem em andamento.
F : Estamos a falar da sua primeira época como presidente, ou seja, ano desportivo de 2010/2011.
R.C.: Exacto. Eu entrei em meados de Junho de 2010 e nessa altura as coisas já estavam meio definidas. Havia que arranjar uma equipa para continuarmos a participar no Campeonato Distrital da Primeira Divisão. Nesse ano as coisas acabaram até por correr bem e no ano a seguir subimos de divisão, também porque houve um alargamento dos campeonatos e uma reestruturação que levou a que houvesse mais equipas a subir, concretamente cinco. No ano seguinte voltámos a descer, porque também desceram mais equipas, umas seis ou sete. Como sabe, todas as equipas gostam e querem subir, mas há que faze-lo de forma estruturada e pensada. Quando estivemos na Divisão de Honra não hipotecámos o futuro do clube; antes pelo contrário.
F : Estiveram até para não ter futebol sénior nesse ano, pelo que sei. O que aconteceu?
R.C.: Ficou lavrado em acta que não haveria mais futebol no Recreio nos moldes em que até então tinha acontecido, ou seja, com base em pagamentos a jogadores.
F : Nesse contexto, qual é a divisão apropriada para a equipa sénior do Recreio?
R.C.: Não tenho dúvidas de que é a primeira, onde estamos.
F : Essas pessoas que chegam aos clubes e que inflacionam os gastos com jogadores, muitas vezes porque têm capacidade financeira própria para darem largas a essas práticas; essas pessoas fazem bem ou fazem mal aos clubes?
R.C.: Não fazem bem algum, nem no imediato nem a prazo. Eu creio mesmo que o tempo dos mecenas já passou e hoje em dia ninguém dá nada a ninguém. Se alguém investe numa equipa de futebol é porque pretende tirar proveitos dessa situação. E temos os casos dos empresários de futebol, que estão a nascer como cogumelos e que vão afundando clubes aqui à nossa volta. Quem vem com essas ideias mais tarde ou mais cedo o clube vai pagar caro as facturas.
F : Qual foi o cenário que encontrou no Recreio, há cinco épocas?
R.C.: Tínhamos meia dúzia de miúdos a treinarem no pavilhão, e tínhamos uma equipa de futebol 11 na Primeira Divisão Distrital. Não havia qualquer formação na relva. Fiquei com meia dúzia de miúdos porque entrei tarde e já não fui a tempo de conseguir organizar equipas. Deparei-me de imediato com uma multa na Associação de Futebol de Lisboa pelo facto de não termos essa formação, que estava prevista no apoio que foi concedido pela AFL à construção do relvado. Demos desde logo início às captações para encetarmos um projecto na área da formação.
F : Que escalões conseguiu fazer, nesse primeiro ano?
R.C.: Conseguimos organizar uma equipa de iniciados, pois foram os miúdos que apareceram. Não houve hipótese de fazermos mais. Por incrível que pareça foram os miúdos que depois acabaram por vir a trabalhar consigo nos juniores do Aveiras, praticamente todos. Mais tarde avançámos para os outros escalões; tive a colaboração de uma pessoa bastante válida, o Vasco Antão, que connosco iniciou o projecto da formação no Recreio.
F : A formação continua a ser uma bandeira da sua presidência?
R.C.: A formação é a alma deste clube. Na época passada conseguimos ter todos os escalões, desde as escolinhas até aos veteranos, passando pelos infantis, iniciados, juvenis, juniores e seniores. Para uma terra com esta dimensão, é obra.
F : É um feito, sem dúvida. Como consegue, numa terra com menos de mil habitantes?
R.C.: Aí voltamos à questão dos resultados. Eu sempre encarei a formação como tal, e se tiver que escolher entre a formação como acção pedagógica e a componente “resultados”, eu opto claramente pela vertente pedagógica. Esse sempre foi o meu lema. Toda a gente gosta de resultados, os pais gostam de ganhar, mas eu digo sempre aos encarregados de educação nas primeiras reuniões da época, nas quais participo, que o fundamental – passe a expressão – é formar homens. Nós inscrevemos qualquer jogador que aqui apareça, seja em que escalão for, desde que passe nos exames médicos.
F : Os pais entendem essa opção pela vertente pedagógica?
R.C.: Os pais são quem mais areia metem nesta engrenagem, e eu contra mim falo pois também sou pai. Todos os pais querem que os seus filhos ganhem e que sejam os melhores, e eu também sou assim. A verdade é que nem todos os miúdos vão singrar no futebol, como é lógico, mas eles terão de aprender qualquer coisa para a vida: disciplina, regras, o básico do futebol e as regras de higiéne. Depois há um tratamento igual para todos os nossos jogadores, desde os meninos de cinco anos, que são os mais novos que temos, até aos nossos seniores. Bebida igual, lanche igual, seja em casa ou fora.
F : Era diferente quando chegou ao Recreio?
R.C.: Os seniores eram tratados de maneira diferente. Agora são escalões diferentes mas todos tratados por igual.
F : A média de idades do plantel sénior é baixa. Já é o resul-tado da aposta na formação?
R.C.: Temos alguns jogadores de 18 anos no plantel. Já no ano passado tínhamos uma média de idade bastante baixa no plantel sénior. Este ano saíram alguns jogadores da equipa, que foram para o Pró-Nacional ou para o Campeonato Nacional de Seniores, e os que entraram foram três jogadores que vieram dos juniores e jogadores com a idade de sub-23 anos. Optámos desta forma porque são jogadores com os quais é mais fácil trabalhar, pois não têm tantos vícios. Estamos aqui localizados longe de Lisboa e é mais fácil termos um plantel jovem com jogadores maioritariamente da região.
F : Uma opção bem diferente da estratégia assumida antes da sua chegada.
R.C.: Nessa altura vinham jogadores oriundos de todo o distrito, com os consequentes custos que daí advinham. Ainda hoje não temos nem o dinheiro que foi esbanjado, nem os resultados desportivos e, pior ainda, nem tão pouco os jogadores, que poderiam cá ter ficado como treinadores, adjuntos ou directores, mas que nestes casos não ficam, pois são de longe e não têm ligações ao clube.
F : Este ano não vão haver nem juniores nem juvenis. Por que razão?
R.C.: Atendendo à dimensão da terra e à sua localização geográfica, não é fácil levar a cabo todos os escalões, e eu não quero fazer apenas por fazer, a qualquer custo. Atendendo a que essa opção trás encargos, eu prefiro não arriscar nesse sentido. No ano passado tivemos uma equipa de juniores quase com carácter social. Eram miúdos todos de fora, alguns tive mesmo que os moldar em termos comportamentais – era mais eu até do que o próprio treinador – e criaram-nos alguns problemas. Os que se adaptaram estão nos seniores. Os outros foram embora.
F : Onde vai arranjar os 101 mil euros de orçamento anual do Recreio e, já agora, os 20 mil euros necessários para a construção da bancada?
R.C.: É o milagre da multiplicação (sorrisos). Os meus colegas directores chamam-me Tio Patinhas, ou forreta. Encontrei o clube com um bom património, e o clube neste momento é auto-sustentável. Ou seja, é auto-sustentável e não é subsídiodependente. Há quatro anos eu previ que os subsídios iriam acabar e preveni-me de imediato, projectando gastos abaixo dos valores da receita. Se o clube consegue realizar cinco, então só vai conseguir gastar três. Se gastar quatro já não será boa política. Eu tento gerir o clube da mesma forma que faço a gestão do orçamento da minha casa. Quando entrei no clube tive um tesoureiro fabuloso, que me ensinou muitas das coisas que sei hoje. Aprendi muito com ele.
F : A Junta de Freguesia sempre esteve próxima do clube.
R.C.: A Junta sempre ajudou na medida do que podia. Essa proximidade é natural quando se trata de uma terra com esta dimensão, e acontece também com as restantes colectividades da Freguesia. Quando entrei o clube tinha carência ao nível dos transportes, tínhamos uma carrinha a caír de velha, que eu faço questão de manter no património do clube, e mal cheguei fui logo confrontado com uma dívida na Câmara de Azambuja relacionada com a requisição de transportes que não tinham sido pagos. No ano em que acabei com o futebol sénior pago consegui desde logo comprar três carrinhas, que fazem o transporte de todos os escalões do nosso clube.
F : Continua a haver aquela aversão à ideia de que a formação possa subsidiar o futebol sénior. Como é que o Rui Costa vê essa questão?
R.C.: Comigo, a formação não paga o futebol sénior. O futebol sénior é pago pelo próprio clube, porque quer queiramos quer não o desejemos, não há sénior algum que pague a sua inscrição, muito menos mensalidades para jogar futebol. Isso não existe. Mas há água e gás para pagar, há o policiamento, há a organização de jogos, as deslocações. Temos as receitas de bilheteira e de resto o clube tem um orçamento que lhe permite fazer face ao pagamento do futebol sénior sem recorrer às verbas provenientes do futebol de formação. As contas, de resto, são transparentes e qualquer sócio as pode ver quando desejar.
F : Onde é investido o dinheiro da formação?
R.C.: É todo canalizado para a própria formação. Bolas, treinadores, equipamentos, massagista, e naturalmente um contributo para a água, para a luz e para o gás e os lanches.
F : No entanto os séniores continuam a ser a referência para todos os escalões de baixo, malgrado essa aversão a um suposto cenário de financiamento.
R.C.: É sempre o emblema do clube, e todos os miúdos tentam lá chegar. Quando um clube não tem seniores, os miúdos começam a dispersar quando chegam aos juvenis.
F : O Rui não é de Vila Nova. De onde vem esta sua ligação ao Recreio?
R.C.: De um cenário muito simples. Um dia fui ao Campera e encontrei um papelinho que divulgava o futsal que aqui se praticava. O meu filho mais velho veio para cá, eu vinha todos os dias, vinha sempre ver os treinos, estava sempre disponível, e no ano seguinte a direcção caiu – quando acabaram os subsídios avultados da Câmara – e deixou de ser fácil gerir a coisa. Foi quando me endereçaram o convite para as coisas difícieis, porque ninguém me convida para nada que seja fácil.
F : Já ganhou paixão pelo Recreio?
R.C.: Sem dúvida. As pessoas estão bem quando se sentem bem. Eu fui muito bem recebido em Vila Nova, por parte da autarquia, da direcção, até por parte de alguns directores que estavam na anterior direcção.

FONTEA.T.
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