
É possível fazer um balanço, necessariamente resumido, destes quatro mandatos à frente da Freguesia de Salvaterra de Magos?
Sinto-me realizado, e este estado de espírito poderá resumir muito do que sinto. Quando cheguei, esta Junta não tinha actividade nenhuma, limitando-se a uma funcionária a passar atestados. As coisas estavam a precisar de um grande abanão e no meu manifesto eleitoral disse às pessoas que iria dar vida a este organismo. A dimensão da actividade da Freguesia nos dias de hoje comparativamente com aquilo que encontrei em 1993 e depois definitivamente em 1997 são, a meu ver, o melhor de todos os balanços que eu possa fazer destes quatro mandatos.
Você fez, de resto, um percurso muito idêntico ao da presidente da autarquia, sobretudo a partir de 1993, quando então semeou para colher no acto eleitoral de 1997.
Estávamos ambos no mesmo partido, reuníamos para definir estratégias, a presidente num patamar superior porque se tratava da câmara municipal. Mas sei exactamente pelo que a presidente passou: fizeram-lhe muitas desfeitas, mas a população percebeu em 1997 que havia uma grande necessidade de mudança e que Ana Cristina Ribeiro liderava um projecto sério e uma equipa capaz.
Diz-se sempre que o presidente da freguesia que é sede de concelho tem o trabalho facilitado precisamente pela proximidade às estruturas da câmara. É o que se passa em Salvaterra de Magos?
Não é uma realidade. Há seis freguesias em Salvaterra e nós somos a que recebe menos da Câmara através dos protocolos estabelecidos. Recebemos por mês menos de metade do que recebe, por exemplo, a Glória do Ribatejo ou Marinhais. Multiplique-se este diferencial por todos estes anos e veja-se quantos milhares de euros recebemos a menos.
Mas recebe menos por que razão?
Precisamente por ser a junta/sede de concelho. Mas na hora de investir, eu duvido que alguma junta no concelho tenha mais investimento que a Freguesia de Salvaterra de Magos. Noutras freguesias são os trabalhadores da Câmara quem faz os serviços, e aqui em Salvaterra é a Junta que contrata e paga a esses prestadores de serviços, só a título de exemplo.
Aceitou sem contestar esse cenário de redução de verbas para a sua freguesia?
Aceitei de bom grado, porque encontrei formas de dar a volta à situação. Somos a junta que mais projectos comunitários comparticipados tem aproveitado, como é exemplo esta sede de junta onde estamos, e sempre vamos aproveitando esses fundos com a ajuda da câmara no tocante aos projectos, pelo que uma coisa compensa a outra. Antes de nós chegarmos, já o Partido Socialista tinha recebido dinheiros comunitários para fazer a sede da junta, mas obra nem vê-la. Nem um tostão aqui foi gasto. E quando eu fiz a candidatura ao sub-programa recebi a resposta que a junta não podia candidatar-se porque já tinha recebido dinheiro para esse fim…
E o que fez na altura?
Tive que andar por gabinetes e gabinetes governamentais, até que convenci o secretário de estado José Cesário, na altura de um governo PSD, a vir ver com os seus próprios olhos que não havia qualquer obra. Lá o convenci a abrir os cordões à bolsa. A câmara tem dado mais às outras freguesias, por um lado, mas por outro vai compensando a freguesia de Salvaterra com apoio técnico aos projectos.
Qual foi o momento marcante destes 16 anos de presidência contínua?
Houve alguns momentos. Desde logo a construção e inauguração deste edifício/sede da junta, que veio dar dignidade quer ao organismo junta de freguesia quer proporcionar essa mesma dignidade às pessoas que aqui trabalham. Outro momento marcante foi ter sentido que devolvi a junta às pessoas. Hoje há uma grande relação de proximidade da junta com as pessoas, que vêm neste um verdadeiro serviço público, que excede em muito as competências do próprio organismo.
É por essa razão que afirma que os autores da reforma administrativa não têm qualquer sensibilidade para a importância dessa relação de proximidade entre freguesias e fregueses.
Sem dúvida. As freguesias fazem um trabalho de voluntariado por esse país fora que não tem preço. Não tardará muito para que se perceba que as juntas de freguesia fazem muita falta. Sabe quanto é que custa um eleito da assembleia de freguesia por ano? 68 euros. O que é este valor ao pé da importância do trabalho social que cada eleito faz nas freguesias?
Neste momento particular as pessoas procuram ajuda na junta para fazer face às dificuldades?
Não lhe passa pela cabeça a situação que estamos a viver neste momento. Preocupa-me sobretudo gente que… eu não lhes queria chamar envergonhados, mas são pessoas que têm muitas dificuldades em pedir ajuda, porque sempre trabalharam toda a vida, sempre tiveram as suas vidas estruturadas e de um momento para o outro ficam ambos sem emprego, sem dinheiro para pagar o apartamento, o carro, o infantário dos filhos, o que não são luxos, são bens essenciais. Estas pessoas têm muitas dificuldades em compreender como é que caíram numa situação destas, porque têm a consciência de que nada fizeram de mal.
As pessoas ainda têm preconceito de ir à loja social?
Ainda têm problemas com isso, e muitas vezes temos que lhes fazer chegar os avios e os bens essenciais de outras formas, por outros meios. A junta tem ajudado com bens alimentares, mas também com apoio e aconselhamento. Tivemos um protocolo com a DECO, que foi suspenso devido ao corte de verbas por parte do governo, depois de termos sido a primeira junta no país a estabelecer um protocolo do género.
Apelo à sua experiência de autarca e de vida: onde vamos parar com esta situação que estamos a viver, João Nunes?
Não consigo perceber. Com este tipo de política não vamos a lado nenhum, está evidente. Cada vez nos afundamos mais, cada vez os sacrificios são maiores, cada vez as pessoas percebem menos para que são tantos sacrificios, a não ser para salvar os interesses do grande capital. A única forma de invertermos esta situação é mudarmos de política, e nesse aspecto o PS é um partido fundamental na mudança, assim perceba que tem de virar à esquerda para levar a cabo esse desígnio.
A sensação que fica é que as correntes de esquerda têm a ideia de que o dinheiro cai do céu: aumentam salários, aumentam reformas e subsídios, reforçam direitos… com que dinheiro, num país de economia falida?
Eu vejo as coisas de outra forma. Não há dinheiro para um pequeno empresário investir num negócio que crie emprego e produtividade. Mas há dinheiro e dinheiro para dar ao Banif, ao BPN e ao BPP. O que as pessoas de esquerda não conseguem compreender, e talvez as de direita também não consigam, é como é que há dinheiro para injectar nos bancos e não há dinheiro para injectar na economia.
Estes anos de Bloco de Esquerda e de Ana Cristina Ribeiro fizeram bem a Salvaterra de Magos?
Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas. Basta recordar o que era o concelho há dezasseis anos. Não tinhamos nada, não havia infraestruturas, não havia piscinas, não havia pavilhões, mercados municipais, saneamento básico. E não era que não houvesse dinheiro na altura, porque dantes até havia mais dinheiro. A presidente da câmara fez sempre uma governação de proximidade e as pessoas acreditaram.
Qual é o segredo de Ana Ribeiro para ter conquistado tão expressivas maiorias?
Desde logo é uma pessoa extremamente séria, e nisso não há qualquer dúvida. As pessoas perceberam que ela tinha um projecto, que era um projecto que contava com as pessoas, que ouvia as pessoas. É claro que há pessoas que gostam muito da presidente, mas também há quem não goste, o que é próprio de quem toma decisões.
O Bloco tem pessoas que garantam a continuidade do trabalho de Ana Ribeiro?
Tem pessoas capazes de pôr em prática o projecto, mas dificilmente essas pessoas poderão dar-se ao luxo de dispensar o apoio e a experiência da actual presidente. Terão que contar com o legado de Ana Ribeiro, até porque a participação da presidente será essencial para que o Bloco aspire a vencer as eleições em Outubro.
O Bloco tem alguém com protagonismo suficiente aos olhos da população para se assumir como candidato?
O Bloco tem 3 ou 4 pessoas que, apoiadas pela presidente, poderão perfeitamente avançar nesse projecto.
O João Nunes é uma dessas pessoas?
Não discutimos nomes, não há nada. É ainda muito cedo para falarmos desse assunto.
É legítimo que o PS aspire voltar a reconquistar a câmara, na perspectiva de Ana Cristina não voltar a recandidatar-se?
Legítimo é, mas penso que não o vão conseguir. Não têm pessoas com experiência suficiente para governar a câmara num momento tão exigente como este. E ninguém deseja que a câmara volte a ser ingovernável como era há 16 anos.
O que aconteceu à CDU neste concelho? Depois de Ana Cristina, mais nada…
A CDU desceu muito em Salvaterra e com muita pena minha, porque é uma força importante, que apresenta soluções, que reivindica. Mas essa perda de protagonismo não foi apenas neste concelho, foi também a nível nacional.
















