

Se há aspecto de que Pedro Ribeiro jamais se poderá lamentar no exercício da presidência da Câmara do Cartaxo é de falta de emoções relacionada com o cargo. Será raro o dia em que o autarca não se verá a braços com mais um problema para resolver, normalmente relacionado com o assunto do costume: dinheiro, dívidas, penhoras e afins. Desta vez o problema vem dos lados de Vila Chã de Ourique. É que o Novo Banco, herdeiro “do que mais interessa” dos despojos do Espírito Santo, apresenta-se como credor do Estrela Futebol Ouriquense de uma verba a rondar os 450 mil euros. O contrato que deu origem ao empréstimo foi assinado a 31 de Agosto de 2007 pelo antigo presidente da direcção do clube de Vila Chã de Ourique, Carlos Albuquerque. O empréstimo deveria ser pago em 240 meses – ou seja, durante vinte anos, com termo previsto para 2027… – mas o cumprimento das prestações foi sol de pouca dura, já que em 2010 o Estrela suspendeu os pagamentos ao antigo Banco Espírito Santo. E é aqui que começa todo este imenso imbróglio, que o Fundamental fará neste artigo um esforço para lho contar de forma inteligível. Segundo consta, a anterior direcção do Estrela Ouriquense avançou para a realização deste empréstimo a vinte anos porque tinha a garantia da Câmara Municipal de que ao longo das duas décadas seguintes não iriam faltar os subsídios que permitiriam cumprir com o pagamento das mensalidades. Desta forma, Albuquerque considerou estar descansado, porquanto a Câmara haveria de entrar com o dinheiro que pagaria o empréstimo até 2027. O problema – enorme problema, acrescentamos – é que essa garantia não existe por parte da autarquia, pelos menos lavrada e oficializada como tal. O que há, segundo Pedro Ribeiro – actual presidente da Câmara – é uma declaração assinada por Paulo Caldas, anterior presidente da autarquia, sem data, que apenas refere que a Câmara vai continuar a atribuir o subsídio anual ao Estrela Ouriquense. Terá sido com base neste documento, que na prática não responsabiliza a autarquia, que o antigo Espírito Santo veio a emprestar quase meio milhão de euros ao Estrela Ouriquense, facto que levou Pedro Ribeiro a afirmar: “Agora compreendo como o Banco Espírito Santo foi à falência, a emprestar dinheiro desta forma”. Recorde-se que em 2010 a Câmara do Cartaxo acabou com os protocolos que transferiam dinheiro para os clubes, e é precisamente desde essa data que o Estrela deixou de pagar as mensalidades ao antigo BES. Tal como refere Vasco Cunha, vereador eleito pelo PSD na autarquia cartaxeira: “Este contrato com o BES estava ligado aos protocolos que a Câmara Municipal tinha estabelecido com as colectividades”. O problema é que os referidos protocolos, já extintos desde há quase seis anos, não poderiam servir de aval ao empréstimo de uma entidade bancária, segundo afirma Pedro Ribeiro. Vasco Cunha recorda igualmente que 380 mil dos 450 mil euros que foram emprestados destinaram-se a liquidar dívidas ao fisco, e que o Estrela Ouriquense recebeu qualquer coisa como 901 mil euros da Câmara entre 2000 e 2010, aos quais se juntam estes 450 mil emprestados pelo Banco Espírito Santo. Pedro Ribeiro reafirma: “a carta-conforto assinada por Paulo Caldas não tem qualquer valor; nem tão pouco data tem”, acrescenta o autarca, que não vê qualquer forma de a Câmara poder ser responsabilizada por mais este imbróglio. “O que me faz confusão é o facto de Carlos Albuquerque ter sido tão rápido a passar as responsabilidades para a Câmara Municipal”, remata Ribeiro. Já a nova direcção do Estrela Futebol Ouriquense foi claramente apanhada nas malhas de toda esta confusão. Por assim dizer, é quem agora tem o menino nas mãos. Má sorte das colectividades do concelho. Como se não bastasse a confusão do Campo das Pratas.
















