“O Recreio está um pântano e ninguém percebe como aqui chegou em apenas 3 meses”

Rui Costa decidiu procurar o Fundamental para divulgar a realidade do Recreio e defender o seu bom nome. O antigo presidente do Recreio afirma que destruíram em 3 meses o trabalho que o próprio fez em 6 anos. E fala de um Recreio governado de fora para dentro, onde Joaquim Marques põe e dispõe... e deita tudo a perder.

Rui Costa, presidente do Recreio de Vila Nova da Rainha até Junho de 2016

Em que estado se encontra o União Desporto e Recreio de Vila Nova?
O UDR neste momento está um pântano. Ninguém percebe como é que o clube chegou ao estado a que chegou em apenas três meses. Se se tratasse de uma história de miúdos, ainda vai que não vai, mas mesmo assim teriam que ser miúdos mesmo pequeninos. Agora adultos, não se percebe.
Mas porque razão afirma que o UDR está nessa situação? Em que se baseia?
Eu estive para sair da direcção no final de Dezembro, mas por alguma pressão do presidente da Junta de Freguesia de Vila Nova, e mais até a pedido de alguns pais e treinadores, acabei por retroceder. Alegaram que seria a debandada de atletas e pais dos escalões de formação, caso eu saísse em Dezembro. Por essa razão acedi ficar até Junho.
Foi eleito em Outubro de 2014, sendo que os mandatos duram 2 anos. Porque razão quis sair mais cedo, quando faltava tão pouco para o final?
Porque considerei que as coisas não estavam a funcionar bem. É tal e qual como acontece com os treinadores de futebol: quando se sente que estamos a mais, esse é o caminho. Participei essa intenção aos colegas que me eram mais próximos na direcção, e expliquei que já não tinha a motivação necessária para continuar, sendo que esse período coincidiu igualmente com algumas mudanças na minha vida profissional.
Então as razões da sua saída da direcção foram sobretudo de natureza pessoal.
Eu já não tinha motivação para aquele jogo de cintura que é necessário ter nestes cargos. Tinha prometido aos meus filhos, no seguimento de algumas transformações na minha vida pessoal, que levaria a época até ao fim mas que depois sairia.
Mas porque saiu em Junho, e não aguardou até Outubro para cumprir o mandato na íntegra?
Porque considerei que não tinha qualquer lógica estar à frente do clube, definir uma época e depois passar esse projecto a uma direcção já no decorrer da época. Teria de ser a nova direcção a definir o que fazer na nova época. Foi assim que me aconteceu quando entrei no Recreio, em meados de Junho de 2010, e era assim que queria que acontecesse aos meus sucessores.
Como é que ficou a situação do Recreio à data da sua saída, a 11 de Julho?
Apresentei a minha demissão a 23 de Maio e fiquei em funções até a 11 de Julho, para fechar as contas do primeiro semestre de 2016, para que ninguém chegasse e pegasse em contas que não estavam fechadas.
Como é que ficaram as contas a 30 de Junho?
A Assembleia Geral de 11 de Julho fechou as contas do primeiro semestre de 2016 com 20 votos a favor, zero abstenções e zero votos contra. Ou seja, as contas, à data da minha saída do clube, foram aprovadas por unanimidade. O mesmo aconteceu com as contas de 2015, que também foram aprovadas por unanimidade na mesma Assembleia Geral extraordinária.
E como é que estavam as contas nesse dia 30 de Junho? Tinham saldo positivo?
Os relatórios de conta gerência sempre deram positivo durante os meus seis anos de mandato. O saldo era positivo a rondar os 2 mil euros, sem dívidas. Para ser preciso, eram 1458,89 euros de saldo bancário. Não havia quaisquer dívidas nem de água, nem de luz, nem à Associação de Futebol de Lisboa, à qual paguei a 30 de Junho cerca de 104 euros para fechar e acertar contas.
Mas falou em 2 mil euros.
Porque nós pagamos a luz através do sistema “conta certa”. Ou seja, um valor fixo mensal, sendo que a 30 de Junho a EDP faz o acerto, e neste caso o clube tinha a receber cerca de 500 euros, que recebeu, e foi por essa razão que o saldo passou para cerca de 2 mil euros.
Quer então dizer que o seu último dia no clube foi a 11 de Julho deste ano? 
Na Assembleia Geral desse dia foi-me pedido que ficasse durante mais algum tempo, num período de transição, até que o Recreio encontrasse uma direcção disposta a continuar. Eu acedi, na condição de apenas cuidar da gestão corrente. Ou seja, sem tomar decisões, sem tratar de alugueres. Oficialmente saí a 11 de Julho, mas mantive-me mais algum tempo até que o clube encontrasse uma nova direcção.

"Eu nunca me pedi para me fazerem uma estátua, mas uma coisa é certa: nunca envergonhei os meus pais, e nunca hei-de envergonhar os meus filhos. Essa é a educação que tenho"
“Eu nunca me pedi para me fazerem uma estátua, mas uma coisa é certa: nunca envergonhei os meus pais, e nunca hei-de envergonhar os meus filhos. Essa é a educação que tenho”

E essa permanência manteve-se até quando?
A 28 de Julho, uma quinta-feira, realiza-se uma Assembleia Geral com o intuito de decidir em que campeonatos e com que escalões o UDR iria competir nas provas da Associação. O prazo para informar a AFL acabava no dia seguinte, e essa decisão teria que sair daquela Assembleia. Mais uma vez não apareceu direcção, sendo que foi criada uma Comissão Administrativa. Os elementos desta Comissão ficaram de encontrar uma direcção para o clube. Nessa reunião foi-me pedido que a direcção cessante aceitasse fazer as inscrições em prova na Associação de Futebol de Lisboa.
E a direcção cessante aceitou fazê-lo?
Os elementos da direcção cessante aceitaram fazê-lo dado que, se não o fizéssemos, esvaziaríamos por completo o trabalho de uma futura direcção que viesse a tomar conta do clube. Para que serviria uma direcção caso o UDR não tivesse qualquer equipa em competição? E a decisão tinha que ser tomada naquele dia.
Mas essa não era uma decisão demasiado importante para ser tomada por uma direcção cessante?
Tinha a favor o facto do valor das inscrições estar coberto pelo protocolo com a Câmara de Azambuja e não haver encargos com as equipas que se inscrevem na AFL. Ou seja, encargos para o clube, zero. Por essa razão, e para que o clube não parasse, nós assinámos: assinei eu, o senhor Francisco Afonso e o senhor Carlos Borralho. Foi-nos pedido para assinarmos as inscrições dos seniores e dos escalões de formação que tínhamos feito no ano anterior, ou seja, iniciados e juvenis. Ficou decidido nesse dia que a dita Comissão Administrativa teria que confirmar, ou não, a participação do UDR nesses três escalões, para evitar que fosse realizado o sorteio sem que o clube tivesse condições para participar, com todas as consequências que daí advêm. Essa confirmação junto da AFL teria de ser feita até Setembro, pelo que a Comissão Administrativa teria cerca de mês e meio para organizar e decidir sobre este assunto.
Mas o clube não fez qualquer escalão de formação, nem iniciados nem juvenis. Porque razão?
Eu estive ausente do país em Agosto, como sempre faço. Em Setembro, quando regressei, disseram-me que os pais dos miúdos desses escalões tinham resolvido levar os filhos para outros clubes, porque eu já não estava no clube e eles, por essa razão, já não queriam vir para o Recreio. Identificavam-me com o projecto dos últimos anos mas agora, como eu já não estava no clube, não sentiram motivação para lá continuar com os filhos.
Então quando é que foi eleita a direcção, a tal que só esteve em funções durante poucos dias?
Foi na segunda semana de Setembro. O senhor Carlos Nabais era o presidente dessa direcção, transitando da Assembleia Geral. Já estamos a falar de uma direcção eleita, com tomada de posse oficial. Aconselhei a que enviassem a respectiva acta de tomada de posse para as entidades oficiais, tais como bancos, AFL, Câmara Municipal, e por aí fora. Parti do princípio que a Comissão Administrativa tinha tomado bem conta do clube a partir de finais de Julho, pois afinal tratava-se apenas de uma equipa (seniores) em actividade.
E não foi isso que aconteceu?
Não informaram a Associação de Futebol da mudança de direcção, o que teriam de fazer enviando a acta de tomada de posse, pelo que ainda me vieram pedir para assinar as inscrições de jogadores seniores. Eu acedi. Depois foram inscrever jogadores e técnicos à quinta feira, quando o campeonato começava nesse domingo. Claro que as inscrições não foram aceites. Pelos vistos as pessoas viram mal as datas. Os jogadores acabaram por ser inscritos na semana seguinte, mas já com taxas de urgência, que têm que ser pagas pelo clube, porque o protocolo com a autarquia não engloba o pagamento desse género de despesas.

"Quem conhece o senhor presidente da Junta de Freguesia sabe bem como é que ele funciona, e sabe bem em que meandros é que ele se movimenta, muito para lá do aceitável tendo em conta o cargo que ocupa"
“Quem conhece o senhor presidente da Junta de Freguesia sabe bem como é que ele funciona, e sabe bem em que meandros é que ele se movimenta, muito para lá do aceitável tendo em conta o cargo que ocupa”

Mas o Rui Costa não poderia ter recusado assinar essas fichas de inscrição de jogadores?
Eu poderia muito bem recusar, mas iriam logo dizer que eu tinha sido um travão. Teriam dito que eu sai por opção mas bloqueava o clube, e eu não poderia deixar que isso acontecesse. Nunca quis bloquear fosse o que fosse.
Mas esta nova direcção não deveria ter levado a acta de tomada de posse à AFL logo no dia seguinte à sua eleição, para que os novos directores pudessem assinar as fichas de inscrição de jogadores?
Não fizeram o trabalho de casa. E agora têm que estar dependentes dos elementos da anterior direcção. Como dois desses elementos estavam na nova direcção, era da minha assinatura que necessitavam, embora eu não tivesse nada a ver com o clube nessa data.
O presidente da direcção entretanto eleita, Carlos Nabais, apresentou demissão ao fim de poucos dias, alegando não ter capacidade para governar o clube no estado em que se encontra. O que se passou para isto acontecer?
O senhor Carlos Nabais começou a perceber que não era ele quem mandava realmente no clube. Houve alguém que disse que o senhor Nabais era a marioneta nas mãos de algumas pessoas, mas ele, o próprio senhor Nabais, disse que era mesmo o palhaço, tal era a forma como se sentia usado e desrespeitado.
O que se passou para que Carlos Nabais se sentisse dessa forma?
Estava eleito como presidente, mas não conhecia as contas dos últimos dois meses, não tinha acesso às coisas, e era presidente de um clube que era gerido de fora para dentro.
E quem é que está a gerir o clube de fora para dentro? O presidente da Junta de Freguesia, Joaquim Marques?
Também. Quem conhece o senhor presidente da Junta de Freguesia sabe bem como é que ele funciona, e sabe bem em que meandros é que ele se movimenta, muito para lá do aceitável tendo em conta o cargo que ocupa. Ao invés de ser um elemento pacificador, trata-se de um elemento agitador das colectividades da sua freguesia. Não consegue viver com gregos e com troianos e tem que arranjar sempre uma guerra, um problema. É a sua forma de estar, conhecida de todos. Fui logo avisado de que ele me iria acertar, depois de eu sair da direcção: qualquer pessoa que sai, após sair, é cobras e lagartos pelas costas. Para esse senhor, qualquer pessoa passa de bestial a besta num instante.
Porque resolveu contar todos estes acontecimentos?
Eu nunca me pedi para me fazerem uma estátua, mas uma coisa é certa: nunca envergonhei os meus pais, e nunca hei-de envergonhar os meus filhos. Essa é a educação que tenho. Desde o dia em que eu acedi inscrever as equipas que passou a ser um diz-que-disse tremendo. Conversas de café, de rua, de carrinha…
Mas que género de conversas?
Por exemplo dizerem que nenhuma das carrinhas tinha o imposto de selo em dia. Como é possível dizerem isso? Está tudo em dia, os dísticos estão colados nos vidros e estão à vista. Basta ir ver os relatórios de contas.
Mas eu insisto: o Rui Costa não deveria ter sido mais precavido? Se saiu, se se demitiu, então recusava ter intervenção em qualquer acto seguinte da vida do clube e exigia que a Comissão Administrativa informasse a AFL de que tinha tomado conta do clube, entregando naquele organismo a acta de tomada de posse.
Pois, mas o problema é que não foi feita qualquer acta, nem da tomada de posse da Comissão Administrativa a 28 de Julho nem da nova direcção nas primeiras duas semanas de Setembro. Dizem que há uma acta da tomada de posse da direcção presidida pelo senhor Carlos Nabais, mas essa acta nunca foi divulgada. Ou seja, não existem actas de nada. Se eu não colaborasse, o clube parava.

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VIAEntrevista: Nuno Cláudio
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