
Esta é uma história de sobrevivência bem sucedida mas que lança um alerta para uma ameaça que continua por resolver. Nesta última terça-feira, dia 24 de março, foi devolvida à natureza uma águia-de-bonelli na zona da Lezíria Norte, em Vila Franca de Xira, após vários meses de recuperação devido a eletrocussão.
O animal foi recolhido pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em Santo Estevão, Benavente, e esteve em recuperação no Centro de Recuperação de Animais Silvestres (LxCRAS) da Câmara Municipal de Lisboa, numa operação articulada no âmbito do projeto LIFE LxAquila, coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA BirdLife).
A história desta águia, que o projeto LIFE LxAquila acompanha desde o nascimento, reforça a urgência de corrigir apoios elétricos perigosos — uma das principais causas de morte desta espécie ameaçada. “A devolução desta águia à natureza é uma boa notícia, mas muitas outras não têm a mesma sorte. Enquanto existirem apoios elétricos perigosos no território, continuaremos a perder aves ameaçadas para uma causa que é conhecida e evitável”, alerta Rita Ferreira, Técnica Sénior de Conservação na SPEA BirdLife e Coordenadora do projeto LIFE LxAquila.
A águia que agora regressou à natureza é um macho subadulto, nascido em 2023 no Campo de Tiro de Alcochete e equipado com um transmissor GPS no âmbito do projeto LIFE LxAquila. Em agosto de 2025, a equipa do projeto suspeitou que algo lhe teria acontecido, pois o emissor indicava que a águia permanecia imóvel há mais de 24 horas. Quando foi encontrada no terreno, estava pousada num sobreiro, debaixo de uma linha elétrica de média tensão, com uma asa descaída.
A ave foi recolhida por vigilantes da natureza da Reserva Natural do Estuário do Tejo e do Parque Natural da Arrábida (ICNF) e levada para o LxCRAS, onde uma extensa avaliação clínica permitiu confirmar que as lesões eram compatíveis com eletrocussão. Após vários meses de tratamento e recuperação, está agora de volta ao seu habitat natural. A devolução decorreu numa área de dispersão de juvenis na bacia do rio Tejo, escolhida pela abundância de presas e pelas condições favoráveis à sobrevivência da espécie.
“A mortalidade causada pelas inúmeras infraestruturas nas áreas de nidificação e dispersão de águia-de-bonelli continua a ser uma questão preocupante para a sobrevivência da espécie nesta região. Na semana antes do incidente, este macho estava a iniciar um novo casal com uma fêmea que havia perdido o seu companheiro. Nessa mesma área, já tinha ocorrido a morte de um adulto e de um juvenil, o qual, gravemente ferido, acabou por não sobreviver. Por isso, é importante garantir a compatibilização da construção destas infraestruturas nas áreas vitais das grandes rapinas, procurando alternativas viáveis e implementando medidas de minimização eficazes”, sublinha Manuela Nunes, bióloga do ICNF.
Este caso volta a expor a eletrocussão em linhas elétricas como uma das principais ameaças às aves de rapina em geral e à águia-de-bonelli em particular. Na Península Ibérica, mais de metade das mortes conhecidas desta espécie devem-se a eletrocussão, e estudos demonstram que mesmo níveis relativamente baixos de mortalidade podem comprometer a viabilidade das populações.
De realçar que cerca de 100 apoios elétricos já foram corrigidos no âmbito do projeto LIFE LxAquila, pela E-REDES, mas continuam a existir na região e por todo o país estruturas perigosas que representam um risco mortal para grandes aves de rapina. Os parceiros do projeto alertam para a necessidade urgente de identificar e corrigir apoios elétricos perigosos, sobretudo em territórios reprodutores e áreas de dispersão de espécies ameaçadas, dentro e fora de áreas protegidas.
“Em Portugal continua a faltar legislação específica que obrigue a corrigir apoios e linhas comprovadamente perigosas, ao contrário do que já acontece em Espanha. Precisamos de um enquadramento legal que permita agir de forma sistemática para reduzir uma das principais causas de mortalidade de grandes aves de rapina” reforça Rita Ferreira. (Fonte:SPEA).



























