

A construção de células de painéis solares na Quinta da Torre Bela não está a decorrer dentro dos prazos que foram previstos pela NEOEN, a promotora de nacionalidade francesa que ficou com a concessão deste que será um dos dois maiores empreendimentos do género na Europa. A mega obra está a esbarrar na existência de uma espécie de águia protegida por lei. A Águia de Bonelli nidifica na Quinta da Torre Bela e é monitorizada pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.
O projeto de monitorização e de proteção desta espécie protegida é financiado pela União Europeia. A Águia de Bonelli é uma ave de rapina em perigo de extinção e foi classificada em Portugal com o estatuto de conservação “Em Perigo”, sendo seguida pelos técnicos do ICNF, que monitorizam as colónias desta espécie e têm bem identificados os locais de nidificação da Águia de Bonelli. Esta águia é pouco comum mas tem sido bastante estudada no nosso país. Habita normalmente regiões montanhosas e proximidades e a sua silhueta em voo é facilmente confundida com a águia-real, embora tenha as guias mais curtas e a cauda mais longa e mais direita.
E a Quinta da Torre Bela é precisamente um dos locais onde está bem identificada a presença de exemplares desta espécie de águia em vias de extinção. Esta colónia da Águia de Bonelli é seguida por um transmissor GSM (do Inglês Global System for Mobile Communications, conhecido sistema 2G de comunicações móveis), colocado nos exemplares desta ave de rapina, o que permite aos investigadores acompanhar todo o percurso de vida de alguns exemplares da águia que procura escapar à extinção.
É graças a este sistema de monitorização financiado pela União Europeia que agora se sabe que existem alguns exemplares da Águia de Bonelli a nidificar na Torre Bela, precisamente no local onde estão a decorrer as obras de construção daquele que será um dos maiores parques de painéis solares da Europa. A Águia de Bonelli é muito fiel aos seus locais de ocorrência, mas os especialistas que seguem esta espécie consideram que a mesma pode ser surpreendentemente difícil de encontrar.
Não tem sido o caso dos exemplares que nidificam na Torre Bela e que podem ser avistados com alguma facilidade na zona por observadores minimamente treinados para o efeito. A obra dos painéis na Torre Bela está a ser levada a cabo no terreno pela ACISA, empresa espanhola que foi subcontratada pela francesa NEOEN, mas os homens que estão no terreno enfrentam diariamente desafios que estão a ser difíceis de ultrapassar. A Águia de Bonelli observa, ameaçada, as dificuldades no terreno…
A chuva que caiu nas últimas semanas transformou o terreno da Torre Bela em alguns casos num lamaçal tremendo. As linhas de água vão sendo descobertas a um ritmo desconcertante e colocam em causa a estabilidade da própria obra, tornando para já impossível de cumprir os prazos inicialmente estabelecidos para o evoluir do parque de painéis solares.
Já o saudoso Gonçalo Ribeiro Telles, considerado o Mestre da Paisagem, alertava para, e citamos, “a necessidade de humanizar terrenos, de salvaguardar as linhas de água, as brisas, e aumentar a biodiversidade”. Na Torre Bela os técnicos que trabalham no terreno deparam-se com linhas de água em abundância que, de acordo com o que o Fundamental apurou, colocam em risco a execução da obra e o próprio funcionamento dos painéis.
“A água não conhece obstáculos e acabará por vencer”, afirmou em vida Gonçalo Ribeiro Telles, que para além de professor e arquiteto paisagista foi um homem de uma enorme sabedoria, de um carácter coerente e de um pensamento estruturado. Na Torre Bela os homens que trabalham no terreno estão a ser obrigados a construir bases para painéis solares em cima de linhas de água. Não será necessário ser sábio como o Mestre Telles para perceber que alguns aspetos deste projeto têm tudo para não dar certo.
E como se não bastassem as persistentes linhas de água que reclamam ao Homem o que justamente consideram seu por direito, também a rara Águia de Bonelli insiste em nidificar onde os humanos devastaram património natural para edificar painéis solares. Os sinais de GPS não deixam dúvidas sobre a presença deste animal em vias de extinção, protegido por Lei, e que por curiosidade é figura maior do símbolo do Portimonense, clube de futebol que milita na Liga Portuguesa.
A obra não avança ao ritmo desejado e os atrasos são impossíveis de evitar perante tantos obstáculos. E a pergunta inevitável fica no ar: quem é que aprovou e como foi possível aprovar uma intervenção com estas características e adversidades na Quinta da Torre Bela? Quem é que se borrifou para a existência de linhas de água em catadupa e de uma espécie em vias de extinção cuja proteção é financiada pela União Europeia?
“Com a nova sede as minhas promessas na Cruz Vermelha foram todas cumpridas” (José Torres em entrevista)
Torres é o Presidente da Direção do Núcleo da Cruz Vermelha de Aveiras de Cima. A inauguração da nova e tão desejada sede desta corporação aconteceu no último domingo e foi o pretexto para esta agradável entrevista. Torres não tem dúvidas de que cumpriu todas as promessas que fez à chegada à corporação em 2016.
























