
A última semana ficou marcada em Aveiras de Cima pela partida aos 82 anos do músico Manuel Valério. Permitam-me que escreva este artigo na primeira pessoa, porquanto será mais fácil transmitir aos milhares de leitores do Fundamental o propósito desta noticia, que pretende também homenagear uma pessoa pela qual o jornalista sempre sentiu admiração, ainda que se tratasse de um conterrâneo de quem não foi muito próximo.
Manuel Fernandes Valério tínha celebrado 82 anos a 10 de fevereiro, escassos dias antes de falecer. Foi eterno namorado e marido de Ester Gaspar, com quem teve dois filhos, Edgar e Ana Lúcia Valério, minha amiga de infância. Manuel Valério fundou o Grupo Dramático Cultural e neste foi intérprete de teatro no Cinema de Aveiras de Cima, tendo igualmente sido da sua “pena criativa” que saiu a ideia para a formação do conjunto musical GDC, marcante em Aveiras nas décadas de 70 e 80.
A neta Mariana Valério Brissos é filha de Ana Lúcia e espelhou até à exaustão o amor e a admiração que sentia pelo avô num trabalho completo e detalhado apresentado no âmbito da disciplina de psicologia em 2021 na Escola Secundária Eça de Queirós. Também ela filha do músico Paulo Brissos, a jovem Mariana relembra sobre o avô: “A música foi a parte mais importante da sua vida, que o meu avô sempre dizia ser o maior instrumento de desenvolvimento cerebral”.
De resto, Manuel Valério nasceu com a música à sua volta. “Foi desde muito cedo influenciado”, acrescenta Mariana, complementando: “Tinha cerca de 4/5 anos pela altura em que os ensaios da banda filarmónica eram perto de sua casa; então ia com o pai, o meu bisavô, ouvir os músicos até o sono chegar. Conta também que antes de entrar na filarmónica adorava ver a banda a tocar, pois tocava com muita frequência na rua. Enquanto via e ouvia a banda agarrava num bocado de cana e fingia que também estava a tocar, emitindo sons e cantando as canções”.
Estava no sangue do então jovem Manuel Valério. O seu pai chegou a tocar bandolim, clarinete e saxofone barítono na Banda Filarmónica de Aveiras de Cima. Manuel seguiu os passos do pai e enquanto trabalhava numa oficina, ainda jovem, foi por vontade própria estudar música na mesma banda. Desistiu da primeira vez mas voltou com a ajuda do pai, que por ser músico conseguiu que o filho voltasse a entrar no grupo. Aos 12 anos começou a tocar saxofone, tendo sido a primeira pessoa em Aveiras de Cima a tocar na filarmónica com um instrumento sua propriedade.
Depois viria a entrar na Banda Filarmónica de Vila Franca de Xira e foi requisitado para um conjunto que se estava a formar na altura, chamado “Rogélio Soares e seu Conjunto”. Nessa altura tocava na banda de Aveiras e na de Vila Franca de Xira, enquanto fora da música trabalhava como ferrador. Conta que nos 3 anos em que andou na banda de Vila Franca de Xira chegou a regressar à meia noite a pé da estação de comboios de Azambuja para a sua casa em Aveiras de Cima com o saxofone às costas. “Eram cerca de 10 quilómetros a pé, dezenas de dias seguidos”. A tal vontade de fazer com que a força mostrasse o caminho.
Em alguns desses momentos Manuel Valério esperava conseguir boleia de dois trabalhadores que vinham de Alverca e que faziam horas extra. “Mas quando vinha a pé, como era de noite, tinha imenso medo de cair num buraco que existia na estrada; era-lhe dito que se chamava o buraco dos ladrões”, conta Mariana sobre o avô. Mais tarde percebeu que, na verdade, quem se encontrava no buraco não eram ladrões mas sim mendigos que viviam de esmolas.
Em 1972 formou um grupo musical no Cartaxo, chamado Grupo 72. Posteriormente formou, juntamente com colegas, outro grupo chamado Gabuçará, cujo nome guineense remete para o violinista da banda que esteve na guerra colonial da Guiné. Na Alemanha fez também parte de uma banda, juntamente com os seus colegas alemães trabalhadores da fábrica. Em 1983 formou a banda da Maçussa que dirigiu durante 20 anos, quando então percorreu 4 bandas: a de Santarém, durante 2 anos; a de Aveiras de Cima, durante 4 anos; a da Ereira e a da Maçussa, que sustentava todas as outras bandas.
“Ter força de vontade não chega; é preciso a vontade de fazer a força”, disse um dia Manuel Valério para o pai de um aluno seu. Edgar Valério demonstrou em 2021 todo o amor e admiração pelo pai: “É uma pessoa muito responsável que levou com muito profissionalismo tudo o que fez ao longo da sua vida dedicada à música e à arte; preenchia sempre o seu tempo a tentar ensinar outros, muitos que hoje são profissionais qualificados graças a ele. É uma pessoa que trabalhou muito para atingir o patamar que atingiu, muito revoltado com o sistema devido às desigualdades existentes. Também me recordo quando foi para a Alemanha: quando de cá saiu não sabia uma palavra de alemão, mas quando voltou já falava fluentemente, o que mostra o seu elevado grau de inteligência”.
Na mesma altura Ana Lúcia Valério juntou-se ao irmão Edgar na admiração e no amor evidenciados pelo progenitor: “Falar do meu pai é falar de uma pessoa inteligente, justa, integra, educada, prestável, lutadora, coerente com os seus princípios e valores. Muito exigente com ele próprio e com os que estão em seu redor, e que sempre lutou pelos seus ideais. Também uma pessoa insatisfeita e revoltada com as desigualdades sociais e injustiças. Tem uma mente aberta e adora conviver com os mais jovens, aprender e explorar”.
Ana Lúcia complementou acerca do pai Manuel Valério: “Deu um contributo notável no âmbito cultural nos concelhos de Azambuja e Santarém na medida em que colaborou e apoiou várias coletividades. É uma das pessoas que me passou uma grande parte dos valores que tenho e que tento passar para a minha filha todos os dias, e que me continua a guiar. Uma das muitas lembranças que tenho é que o meu pai andava sempre com o saxofone na mala do carro e onde havia festa parava para se integrar e tocar com quem estivesse no palco”.



























