Aveiras: o grito de revolta de uma família vítima da Covid e abandonada pelo sistema de saúde

Este é o relato impressionante de Carla Duarte, a matriarca de uma família de Aveiras de Cima que nas últimas semanas viu a sua vida virada do avesso devido à Covid-19. Carla tem 45 anos e está infetada, tal como a mãe, de 73 anos. Vamos contar-lhe toda a história pela voz da própria Carla Duarte.

Este é o relato impressionante de Carla Duarte, a matriarca de uma família de Aveiras de Cima que nas últimas semanas viu a sua vida virada do avesso devido à Covid-19. Carla tem 45 anos e está infetada, tal como a mãe, de 73 anos. Ambas são pessoas de risco porque padecem de outras doenças que podem potenciar os malefícios do coronavírus. Vamos contar-lhe toda a história pela voz da própria Carla Duarte.

Estou desesperada com toda esta situação e resolvi pedir ajuda para ver se alguém nos vale“, desabafou Carla logo no inicio da conversa. A mãe, dona Maria dos Remédios, fez o teste no dia 9 de Outubro, uma sexta-feira. Só na segunda-feira seguinte soube que tinha testado positivo. Carla fez o teste na terça-feira seguinte e também acusou positivo. Desde então estão isoladas em casa mas nunca foram contactadas por qualquer médico ou responsável da área da saúde.

Enquanto nos conta a sua história Carla Duarte apresenta claras dificuldades para respirar. A respiração ofegante é audível através do telefone. Logo no dia 12 agentes da GNR contactaram Carla Duarte e a sua mãe e indicaram a ambas a necessidade de cumprir à risca o isolamento. Desde então que esta família não teve qualquer acompanhamento. Foram deixadas à sua sorte em casa. De acordo com Carla Duarte, tem valido a solidariedade dos vizinhos, incansáveis na ajuda a esta família.

Quando falo muito fico logo assim, cansada e com extrema dificuldade em respirar; isto é do Covid“, alerta-nos Carla, para que não estranhássemos a sua respiração ofegante. A Carla é mãe de duas meninas que frequentam a escola de Aveiras de Cima e que também foram testadas nos últimos dias. Acusaram negativo, mas na próxima segunda-feira está previsto que ambas regressem à escola, sendo que neste caso Carla Duarte não sabe o que fazer atendendo ao quadro clínico que tem na sua própria casa.

Carla Duarte afirma que a mãe contraiu Covid-19 no Hospital de Vila Franca a 30 de Setembro e a própria Carla, que acompanhou Maria dos Remédios nesse dia, está igualmente convicta de que também terá sido infetada nesse ambiente hospitalar. “A minha mãe esteve 14 horas na parte do hospital destinada a doentes de Covid; estava a passar mal, com falta de ar, e eu nunca a consegui tirar de lá de dentro“, relembra, ainda a reviver essas horas de pânico que passou na unidade hospitalar.

Carla Duarte reforça a ideia de que a mãe e ela própria contraíram a doença no hospital, e justifica a sua convicção: “Tanto eu como a minha mãe somos doentes de risco e até esse dia não tivemos contacto com ninguém, tínhamos muito cuidado precisamente por sermos de risco“. “Isto vai acontecer a muito mais gente no hospital porque, tenham as pessoas o que tiverem, o guichet é comum, a sala de espera é comum e a sala de triagem é comum e só a partir daqui é que somos distribuídos para a sala destinada a doentes Covid-19. Até lá somos todos infetados“, reforça Carla Duarte, depois da experiência que viveu em ambiente hospitalar.

A dona Maria dos Remédios esteve dois dias no hospital e Carla recorda esses momentos como se ainda os estivesse a viver: “A minha mãe esteve muito mal, horas a fio sem ter uma cama, sem ter uma maca, dois dias inteiros com falta de ar e a sofrer. Parece que vivi uma história surreal“, lamenta Carla, que volta a frisar que nem ela nem a progenitora alguma vez foram contactados por responsáveis de saúde ao longo deste dias.

Carla acrescenta a este impressionante relato: “Tive febre alta durante dez dias mas nunca quis dar parte fraca perante o meu marido e as minhas filhas. Tinha febre, um ardor imenso nos olhos, um peso na cabeça e dores horrorosas em todo o corpo, doíam-me todas as articulações e quase nem conseguia meter os pés no chão”, recorda Carla sobre os piores dias que viveu no contexto desta doença. Mesmo assim esta mulher de fibra nunca deixou de cuidar da família.

Carla Duarte refere que ela e a própria mãe ficaram dias a fio isoladas das filhas, do marido e do próprio pai, um senhor de 80 anos. “Durante estes dias mantivemos este isolamento mas eu tinha sempre de fazer a comida para todos, porque de outra forma como é que tínhamos comida em casa? Quando acabava de cozinhar tirava a tampa e as colheres nas quais tinha mexido, tirava comida para mim e para a minha mãe e as minhas filhas, meu pai e marido comiam em separado“. Uma descrição impressionante que diz bem da forma como a Covid-19 pode alterar profundamente a vida de uma família.

Carla acrescenta: “Vivemos em permanente sobressalto e sem apoio de absolutamente ninguém das entidades oficiais. Só os nossos vizinhos têm sido incansáveis“. Carla conta inclusive que durante todos estes dias de isolamento tanto ela como a própria mãe se automedicaram, pois não tiveram acompanhamento médico: “Tomava Benuron e Ibuprofeno de 4 em 4 horas para conseguir levantar os olhos, mas a febre nunca baixou dos 37,5 graus durante mais de uma semana“.

Carla Duarte acrescenta que desde há 3 dias que envia emails, e citamos, “para todo o lado, para pedir ajuda“. Estas pessoas nunca foram contactadas e por essa razão não têm quaisquer testes marcados, pelo que nem sequer sabem se ainda estão positivas. As filhas vão regressar à escola na segunda-feira neste cenário de incerteza. “Como é que vou mandar as minhas filhas para a escola nesta situação?“, questiona a mãe, em desespero.

E esta é a vida de Carla Duarte e da sua família, completamente virada do avesso pela Covid-19 e pela clara falta de acompanhamento da saúde. Onze dias depois de ter testado positivo, e doze dias após a mãe ter testado igualmente positivo, Carla e Maria dos Remédios não fazem sequer ideia se continuam positivas, porque não têm qualquer novo teste agendado. A família Duarte vive em sobressalto, completamente subjugada à doença que está a mudar o Mundo. E vítima de um sistema que dá mostras de estar a rebentar pelas costuras.

VIAAlexandre Silva
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