Aveiras de Cima: João Pedro Gato compilou expressões típicas de um punhado de gerações

A colectânea já tem um bom par de anos mas é sempre delicioso recordar um conjunto de expressões bem típicas da cultura de séculos de Aveiras de Cima. Um excelente trabalho de João Pedro Gato.

João Pedro Gato, o autor desta compilação de expressões e coloquialismos bem típicos de Aveiras de Cima

A colectânea já tem um bom par de anos mas é sempre delicioso recordar um conjunto de expressões bem típicas da cultura de séculos de Aveiras de Cima.

Algumas são comuns a outras paragens, mas outras apresentam-se exclusivas de uma comunidade bem enraizada nos ascendentes que a suportam desde meados da portugalidade.

Ala moça que se faz tarde, que mesmo com o cú encostado à parede há que aparelhar este escrito que muitos, sem o perceberem, o julgarão pior que o bode do Manel Alcides. Como um bom jornal é como a cadela do Bexiga, quem não gostar deste artigo só tem é barro naquele nariz.

Os nossos parabéns ao João Pedro Gato pelo excelente trabalho de colectânea deste património imaterial de Aveiras. Se alguma vez ouvir uma destas expressões, fique a saber que provavelmente está a ter contacto com… o sotaque de Aveiras.

as expressões típicas e os coloquialismos de Aveiras

Ala moça que se faz tarde – vamos embora.

Andar com o cú encostado à parede – ter falta de genica, não gostar de trabalhar.

Andaste a enxofrar – diz-se quando alguém tem problemas de vista ou não reparou bem em alguma coisa.

Aparelhar-se – Compor a roupa (ex.: “aparelha-te, home!” = compõe-te)

Azulinho como o céu de Vale do Paraíso – (é uma expressão que ouvia à minha avó) Diz-se quando alguém valoriza excessivamente alguma coisa ou atributo aparentemente banal, caindo no ridículo. Segundo consta, em Aveiras achava-se que as pessoas de Vale do Paraíso gostavam tanto da sua terra que caíam no ridículo de dizer que lá até o céu era mais azul do que nos outros lugares.

Báu-báu – Aquele que, vindo de fora, se apresentava aperaltado e conquistador, galã (olha aquele é báu-báu).

Bebe água (auga) e deita-te – Não digas disparates, não me chateies mais.

(parece o) Bode do Manel Alcides – diz-se de alguém que é muito feio.

Bucha – lanche, merenda, farnel.

(está a) burra nas couves – Há problema. Usa-se especialmente em conversas, quando alguém discorda do que o outro diz e teima na sua versão.

(levar uma) Cachaporra – levar porrada. Cachaporra é um cacete. É uma palavra caída em desuso na Lingua Portuguesa, mas em Aveiras utiliza-se a expressão completa.

(ser como a) Cadela do Bexiga – ser intrometido.

Calhô – Andar na rua, fora de casa, a passear ou na paródia. Segundo alguns, é uma expressão usada por um espanhol que passou por Aveiras de Cima, e que comentava que as pessoas andavam todas en la calle. Segundo outros, vem de andar onde calha, ou andar ao calhas, sem destino certo.

Calhoeiro – Quem anda no calhô.

Chamar o Lourenço – Chamar o vento. utiliza-se quando se está a vindimar e faz muito calor.

Cheira bufas – alguém que anda sempre atrás dos outros.

Corpo à Manel Alfeu (ter o) – Estar mole, sem vontade de trabalhar ou de desempenhar qualquer tarefa.

Cigana – uma garrafa de cerveja cheia de vinho.

Chegou a vergonha a casa da ‘Zabel da Sofia – Sinónimo de hipocrisia. Diz-se quando alguém manifesta um escrúpulo excessivo e eventualmente hipócrita em relação a determinado assunto.

Chegou a honra a casa da Sofia Landala – idem.

Dar de Corpo – ir à casa de banho.

Deixei o cão em casa e ele agora aparece-me aqui – forma óbvia de insulto.

Descorçoado – triste, desiludido.

Desquadrilhado – Abatido, com dores no corpo.

Embonecrada – mulher excessivamente produzida, bem vestida e maquilhada.

Enxofrado – triste, acabrunhado.

Esgrouviado – alucinado.

És como o maltês de bronze, ganha dez e gasta onze – aplica-se a uma pessoa esbanjadora.

(andar de) Fralda para fora – andar com a camisa fora das calças.

Garganeiro – Egoista.

Giribaldo – Instrumento de madeira semelhante a uma colher de pau com a parte côncava perpendicular ao cabo, utilizado para mexer a açorda.

Ilhargas – costas.

Ir à Casa do Povo esperar uma “assistência” – Ir à Casa do Povo significava ir ao Posto de Saúde, que funcionava no mesmo edifício da Casa do Povo, no Largo da República. Mesmo quando passou a ser dotado de instalações próprias, era assim que o Posto de Saúde era tratado. Esperar uma “assistência” não era mais do que esperar uma desistência, ou seja, esperar ir na vez de alguém que tivesse desisitido da consulta que tinha marcado.

Lapada – bofetada.

Limpar a sala porque vai haver baile – Tirar macacos do nariz.

Matar o bicho – Beber um copo de vinho ou bagaço de manhã.

Moina (andar na) – O mesmo que andar no calhô.

Não ter calhestro – não ter jeito.

O home tá doide

«O melhor é fazer como o Matias no alto do pinhal» – por vezes é melhor ficar calado e falar quando ninguém ouve.

Parga – uma grande quantidade (deturpação de “praga”).

(estar a) Pender – estar com sono.

Pujeitos (pelos jeitos) – Talvez, provavelmente. O mesmo que “traumente”.

Pintanú – despido.

Põe-te com dono – vai-te embora.

Quadrilheiro (Códrilheiro) – O mesmo que bisbilhoteiro ou regateiro. Tem origem provavelmente em quadrilha, enquanto grupo de pessoas dedicadas a malfeitorias, neste caso a comentarem a vida dos outros.

Quando se capa não se assobia – Não se faz duas coisas ao mesmo tempo.

(não estar) Orplaneiro – Não estar de bom humor, bem disposto.

Qué isso atão?

De queixos à banda – torto.

Só tem é barro naquele nariz – designa uma pessoa que é muito convencido, que afecta superioridade.

Tanoa – o mesmo que tareia, porrada; provavelmente deriva da tanoaria, o ofício de construir e reparar barris de vinho, em que as aduelas têm de ser marteladas nos cascos até que a madeira fique apertada e selada, impedindo a ocorrência de fugas. A expressão habitual é “Levas uma tanoa” ou “Ai c’a tanoa que tu levas”.

Taramanhos – compostura, propósito, juízo. “Não tens taramanhos” = não tens jeito.

Trambelhos – o mesmo que taramanhos.

Tempero – juízo. “Não ter tempero nenhum” = não ter juízo.

Traumente – É uma contracção da palavra “naturalmente”, mas usa-se no sentido de “provavelmente”. “Achas que vai chover?” “Traumente” = é provável.

Vai apanhar pés de burro atrás do teu pai – forma de dizer “não me chateies”, aproveitando para insultar o progenitor.

Varrer de esquerda – Andar bêbedo.

Xícara – Pinhas usadas para atear o fogo.


VIAAlexandre Silva
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