António Barros Cardoso, árvore de folha perene (Opinião de Luísa Almeida Ferreira)

O meu amigo António Barros Cardoso, que também é Padre, um dia será objecto de um tratado sociológico. Dirão coisas boas, coisas más… Pelo meio, nas entrelinhas, dirão coisas verdadeiramente excepcionais! Eu, especialmente, direi que o Homem não é uma ilha… Que a visão e prática de vida do meu Amigo não fez mais que dignificar o ser humano: ensinou-lhe solidariedade, respeito pela vida, amor ao próximo (Opinião de Luísa Almeida Ferreira)

“O meu amigo António Barros Cardoso, que também é Padre, um dia será objecto de um tratado sociológico. Dirão coisas boas, coisas más… Pelo meio, nas entrelinhas, dirão coisas verdadeiramente excepcionais! Eu, especialmente, direi que o Homem não é uma ilha… Que a visão e prática de vida do meu Amigo não fez mais que dignificar o ser humano: ensinou-lhe solidariedade, respeito pela vida, amor ao próximo.”

Continua a ser para mim um enigma a forma como o ser humano escolhe, ao longo da vida, as pessoas que irão definir e implementar em si esse conceito/ sentimento de amizade…
Tenho um amigo precioso, que me diz frequentemente que não posso ter uma visão maniqueísta das coisas: o bem ou o mal, o gosta-se ou desgosta-se, o ama-se ou odeia-se.

Tem razão… A verdade é que às vezes é difícil explicar as entrelinhas, e fica mais fácil acenar a cabeça a visões dualistas, guardar para nós esse tal mistério sublime sobre os outros, que
desde sempre estão na essência de quem somos. Esses outros são como árvores de folha persistente, troncos largos, ramos gigantes, que mesmo quando fustigadas por terríveis intempéries, não morrem; mas, se morrerem, morrem de pé.

E tenho outro amigo precioso, assim feito árvore gigante, sujeito sempre ao escrutínio dos dois opostos… Chama-se António Barros Cardoso. Tem muitos mais anos do que eu. Era um homem feito quando eu nasci, baptizou-me. Mas a diferença de idades e posteriormente a distância geográfica nunca nos afastou nem abalou esse mistério: ele faz parte da minha essência. É como diz a minha amiga Graça «(…)desde que nasci, que me lembro de si(…)»

Zanguei-me algumas vezes com ele, em especial na adolescência, quando é típico dessa fase questionar e inventar pequenas revoluções. E na memória surgem tantos sorrisos doces, eternamente agradecidos… Lembro de uma vez em que eu teria 15 ou 16 anos e uma amiga de escola, que vivia numa outra freguesia perto de Aveiras, por motivos familiares
fugiu de casa dos pais. E eu, mesmo zangada com o meu amigo António, fui pedir-lhe ajuda para irmos ambos procura-la. Pelo caminho disse-lhe que estava zangada com ele, porque era um ditador!

Sei as palavras exactas da resposta: «Luísa, um dia irás compreender que algumas vezes, para construir/semear, é necessário ser temporariamente ditador, só até a construção ter alicerces; só até as plantas crescerem e sobreviverem.» Como compreendo hoje! As minhas revoluções foram acontecendo, fui crescendo, mas as árvores do meu amigo António nunca deixaram de me proteger, nem as pontes que ele construiu para mim quebraram: levaram-me sempre mais longe, mostraram-me horizontes.

E ainda hoje conversamos, ainda discordamos, ainda confidenciamos, ainda debatemos ideias. Às vezes, também choramos juntos… Há uns tempos atrás visitei-o. Estava um pouco triste, céptico. Confidenciou nesse dia que receava que os seus sonhos/obras perdessem o sentido… O progresso, a burocratização, a ausência do espírito cristão… Eu fiquei outra vez zangadíssima com ele!

E dei-lhe uma lição sobre como um Jardim Infantil, na década de 70 numa aldeia rural, valorizou o papel da mulher e mãe na sociedade. Dei-lhe outra lição sobre reuniões com jovens casais, na mesma aldeia e na mesma década, e o papel delas na prevenção da violência doméstica. Mais uma lição, sobre colónias de férias, e de como esses momentos
promoviam e protegiam os direitos das crianças numa década em que o conceito e o intuito não existiam. E falei-lhe dos teatros, da consciência critica que ensinou. E falei-lhe dos encontros de jovens, do debate, troca de ideias. Dos livros e discos que nos emprestou.

E falei-lhe da pedagogia da solidariedade, cultivada na identidade que foi ajudando a criar na
comunidade! E falei-lhe dos mais frágeis, dos idosos. E falei-lhe dos que vacilaram e caíram, e de como ele, contra tudo e todos, os amparou. E zangada, mesmo zangada a sério, disse-lhe que não lhe admitia pôr em causa árvores imortais, pontes inquebráveis! António Barros Cardoso, não lhe permito que se deixe influenciar e tenha uma visão maniqueísta de si próprio! Não o autorizo! Sabe porquê?

Poderia dar-lhe dezenas de argumentos. Dou-lhe dois: Há uns tempos por razões profissionais, visitei um presidiário no EPL de Lisboa. 70 anos, quase todos passados na prisão. E falámos da pena mais longa que teve, no Vale dos Judeus, alta segurança. Eu disse-lhe que conhecia, que tinha nascido perto, na Vila de Aveiras de Cima… O senhor fez uma festa: «Então a senhora deve conhecer um Padre que organizava pelo Natal umas peças de Teatro! Era a maior dor de cabeça do director da prisão! Levar jovens para um sítio daqueles, montar cenários, era complicado!”

“Mas o tal Padre era teimoso, levava a dele avante. E nós gostávamos tanto, sentíamo-nos mais gente! A senhora, conhece-o?! Será que ainda é teimoso…? Como nós esperávamos ansiosos pelo Natal!» Outro argumento: As burocracias institucionais não entendem a razão do coração. As normas/leis têm que ser cumpridas… E também há uns tempos atrás, porque sabiam que eu era de Aveiras, me pediram ajuda, para perceberem o Padre, que dirigia A Casa Mãe. É que o tal Sr. Padre tinha alguma dificuldade em entender/aceitar os procedimentos relacionados com as formalidades e legalidades das famílias de acolhimento.

E também não percebia que os meninos/meninas que já tinham saído da Casa Mãe para os Lares de Infância e Juventude não podiam viver com a mesma frequência e intensidade as Colónias de Férias, os laços afectivos criados… Tinham que ser autónomos! Tentei explicar as diferenças. A raiz da Casa Mãe… A impossibilidade do desapego, em oposição às regras e normas jurídicas…

Tarefa impossível. Por fim, já quase a desistir, sugeri que a única forma de talvez perceberem seria que se deslocassem à Casa Mãe. E assim fizeram. Visita surpresa. Uns dias depois telefonaram-me: «Luísa, entendemos porque desistiu de nos explicar. Fique descansada, não implicamos mais com o seu Padre teimoso… De facto, há leis e regras que
sucumbem na razão do coração. A Casa Mãe tem procedimentos formais explicados no Código Penal do Coração!»

O meu amigo António Barros Cardoso, que também é Padre, um dia será objecto de um tratado sociológico. Dirão coisas boas, coisas más… Pelo meio, nas entrelinhas, dirão coisas verdadeiramente excepcionais! Eu, especialmente, direi que o Homem não é uma ilha… Que a visão e prática de vida do meu Amigo não fez mais que dignificar o ser humano: ensinou-lhe solidariedade, respeito pela vida, amor ao próximo.

Eu, especialmente, direi que as minhas dúvidas em relação a alguns dogmas católicos nunca me afastaram dos valores belos e humanistas do cristianismo, porque tenho um amigo que se chama António Barros Cardoso, um presente de Jesus Cristo, para me iluminar os caminhos, enquanto eu for gente. Eu, especialmente, direi umas palavras que vi algures escritas por um poeta: «Desperta ò Deus, um homem num lugar qualquer deste mundo, e
permite que olhando-o, eu te possa ver a ti.»

VIALuísa Almeida Ferreira
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