Alenquer: povo aperta com eleitos e dezenas viram pela televisão e aplaudiram no átrio da câmara

Público a intervir no salão de reuniões e dezenas de alenquerenses no átrio da Câmara a assistir via circuito interno de televisão e a aplaudir de forma sonora. Foi assim a assembleia municipal de Alenquer desta noite. Uma sessão histórica que bateu recordes de participação do povo.

Carlos Ferreira durante a sua intervenção no decorrer da Assembleia Municipal. O percursor do movimento Alenquer Água Justa falou entre as 21.55 e as 22,10 horas.

Assembleia Municipal de Alenquer agitada: o povo aderiu ao apelo do movimento Alenquer Água Justa e encheu o edifício dos Paços do Concelho com o objectivo de sensibilizar os eleitos para os problemas relacionados com a privatização que dura desde 2003. Este movimento existe desde Maio e tem ganho expressão com a adesão massiva de descontentes com o serviço da Águas de Alenquer, a empresa que detém a concessão.

Desde há várias semanas que estava prevista esta adesão massiva de alenquerenses à Assembleia Municipal prevista para esta noite. A maior parte das largas dezenas de munícipes que acorreu foi obrigada a ficar no átrio de entrada do edifício devido à inexistência de condições. Ainda por cima o período antes da ordem do dia estendeu-se até às 21 horas e 50 minutos. Ou seja, quase duas horas após o inicio da sessão foi quando o povo finalmente teve voz. Alguns não aguentaram a espera e acabaram por debandar.

Finalmente a voz ao povo. Eram quase dez da noite quando Fernando Silva anunciou o período destinado à intervenção dos munícipes presentes, “num total de 20 minutos”, fez questão de frisar o presidente interino da Assembleia Municipal. João Paulo Mendes foi o primeiro munícipe a intervir. Engenheiro de profissão, antigo emigrante, habitante do Carregado. Trouxe uma amostra de água da torneira com aspecto medonho. Falou em electrodomésticos degradados, em doenças relacionadas com a má qualidade da água. E comparou Portugal com o estrangeiro: o nosso país está cada vez pior, afirmou.

Carlos Ferreira foi o munícipe que se seguiu. Sendo um dos percursores do movimento de cidadãos que reclama contra a falta de qualidade do serviço, Ferreira lembrou que Alenquer tem uma das facturas mais elevadas do país e pediu à assembleia que o contrato da concessão fosse revisto. Lembrou a petição do Movimento, que já atingiu cerca de 5 mil assinaturas. Carlos Ferreira voltou a pedir ao órgão deliberativo a marcação de uma reunião exclusiva para debater o tema “concessão da água”.

Ferreira aproveitou o tempo que lhe coube para questionar diversos aspectos do contrato de concessão, frisando sempre que o mesmo é altamente prejudicial aos interesses dos cidadãos de Alenquer. E criticou Pedro Folgado pelo facto de ter afirmado, na entrevista que concedeu ao Fundamental Canal, que o movimento Alenquer Água Justa tem um cariz populista. “Populista foi afirmar quando se candidatou que pugnaria por baixar o valor da tarifa e que todos os cenários estariam em cima da mesa, mesmo o da reversão” A esta hora (22,15 horas) Pedro Folgado ainda não teve oportunidade de responder a Carlos Ferreira.

Carlos Areal regressou à Assembleia Municipal, desta vez na qualidade de munícipe. O agora “apenas” cidadão carregadense relembrou a problemática do custo da factura na vertente do saneamento, para frisar que o valor imputado aos consumidores engloba… as águas pluviais. Ou seja, quanto mais chove mais pagam os alenquerenses, como se o valor do serviço já não fosse suficientemente elevado.

Durante as intervenções do público assistimos a um cenário muito pouco comum, para não dizer inédito, no edifício dos Paços do Concelho: enquanto alguns munícipes intervêm no período aberto ao público em pleno salão de reuniões, lá fora no átrio do edifício muitas dezenas de pessoas assistem à assembleia via circuito de televisão. Os aplausos são sonoros e ouvem-se com estrondo em todo o edifício.

José Manuel Catarino foi o cidadão que se seguiu. O antigo autarca caiu bem em cima do presidente interino da Assembleia Municipal por causa dos lugares restritos a três dezenas de munícipes no edifício dos Paços do Concelho. “Sabiam há várias semanas que iriam vir muitas pessoas, mas não tiveram interesse em marcar a reunião para outro local. Estão sempre a reclamar que o povo não tem interesse pela política, mas depois não criam condições para as pessoas terem voz”, frisou Catarino, bem ao seu estilo. No final do discurso ouviu-se um fortíssimo aplauso vindo do átrio.

Entretanto alguns dos munícipes que assistem à reunião a partir do átrio acabaram por ir embora, já que durante quase duas horas tiveram de assistir em pé à sessão da assembleia. As cadeiras acabaram por chegar tarde e muita gente desmobilizou por não aguentar estar de pé durante longo período. Fica no ar a ideia clara de que uma assembleia municipal exclusivamente destinada a debater esta temática e realizada num palco adequado terá certamente… um impacto estrondoso. Um teste à classe política alenquerense, sem dúvida alguma.


VIANuno Cláudio
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