“A palavra misericórdia significa um coração debruçado sobre a fragilidade. É a password da minha vida”

O prior António Cardoso é parte importante da história de Aveiras de Cima. Com uma obra social inigualável, António Cardoso celebrou a 10 de Dezembro cinquenta anos de sacerdócio, quarenta e oito dos quais passados em Aveiras. Nasceu em Lisboa mas a sua família tem origem nas Beiras, concretamente em São Pedro do Sul. "O meu ADN é beirão", afirma. (Nota: peço desculpa aos nossos leitores pela recorrência da expressão "senhor Prior" durante esta entrevista, mas para um ex-menino de Aveiras de Cima não faz sentido o diálogo com António Cardoso se não acontecer nesse registo de respeito e admiração). Entrevista de Nuno Cláudio

F : Que significado tem para o senhor prior estes 50 anos de sacerdócio que ontem (10 de Dezembro) foram assinalados?
P.A.C.: Para mim são uma referência, uma vida com a marca do amor e da bênção. Deus é uma constante surpresa para mim. Esta é uma missão de semeador de vida. Por vezes somos apenas semeadores de cearas que não vemos e de ceifas que não vamos fazer, mas noutras ocasiões Deus surpreende-nos, dando-nos a alegria de vermos a ceara e de até colhermos alguns frutos. Mas, querido amigo Nuno, tenho tido sempre esta exigência para comigo: não é fazer para que; é fazer por que. O mais bonito da vida é sermos semeadores do bem e de Deus no coração dos outros. O Santo Padre Bento XVI disse, aquando da sua visita a Portugal: “Tornai as vossas vidas em lugares de beleza”. No fundo, esse é o propósito.
F : De onde veio essa vocação que o orientou numa vida dedicada à fé?
P.A.C.: Tive a felicidade de ter uma família sagrada. O meu pai e a minha mãe eram pessoas de fé, e deram-me uma educação cristã. Fiz a instrução primária e depois fui para o liceu Passos Manuel, e tive a graça de ter um prior, o Padre Abel Varzim, que no tempo era Deputado na Assembleia Nacional, por sinal com muitos problemas devido à situação de então, já que era um homem com uma grande sensibilidade social. Foi o prior Abel Varzim que despertou no meu sonho de rapazito um ideal bonito, o de que valia a pena ter uma vida que fosse em benefício de outros, como percebi naquele padre tão bom e tão dedicado.
F : Que comunidade encontrou em 1967, quando chegou a Aveiras de Cima?
P.A.C.:
Uma comunidade já abençoada pela presença do Padre Manuel Antunes, meu antecessor, mas naturalmente muito no inicio. Antes do Padre Manuel Antunes, que esteve cá seis anos, não havia prior em Aveiras, e portanto havia toda uma ausência de evangelização, que começou com o Padre Manuel Antunes e continuou comigo. Era uma comunidade originante e a começar. Tinha sobretudo carências espirituais, humanas, mas também carências materiais. Foi por essa razão que eu comecei a pensar em criar um Centro Social e Paroquial, que foi constituído com estatutos logo no ano seguinte, em 1968. Começou com um pequenino jardim infantil, depois com o centro de dia, mais tarde com o jardim grande.
F : O senhor Prior consegue aliar duas qualidades invulgares, no meu ponto de vista: uma espiritualidade assinalável, a par de uma capacidade de realização material fora do comum. De onde lhe vem essa força para apresentar projectos, para conseguir apoios governamentais e para obter realizações assinaláveis, como são as obras que tem feito na paróquia?
P.A.C.
: Não duvido que essa força vem de Deus, a quem eu de facto me consagrei e de quem eu sinto permanentemente essa luz, essa força, essa benção. Depois, Nuno, quando nós realmente acreditamos nas coisas, a nossa verdade comunica-se. Lembro-me de uma vez ter ouvido de um responsável governamental: “Senhor padre, tenho aqui muitas propostas de trabalho, mas quando chega uma proposta vinda de um padre, então aquilo é mesmo a sério”. Eu achei graça a essa reacção, nunca mais me esqueci dela. Sinto a gratidão das pessoas, na medida em que o trabalho feito contribui para a felicidade de alguém. A força do bem é multiplicadora. Eu faço frequentemente referência ao milagre da multiplicação dos pães, pois sinto que é a minha matriz de vida. Os Apóstolos estavam com Jesus, há três dias que uma multidão seguia o Senhor, numa zona deserta e sem ter que comer. Havia alguém que tinha cinco pães, o que manifestamente não chegava para todas as pessoas que O seguiam. Mas o Senhor multiplicou os pães. Este momento do Envangelho é o momento indicativo da vida de quem aposta o seu caminho com Deus: o homem põe, e Deus multiplica. Nunca temos o que é necessário, mas se colocarmos nas mãos de Deus, Ele multiplica.
F : Estarão os homens dispertos para esse caminho?
P.A.C.:
Ninguém é insensível ao bem. Pelo contrário, o homem é um faminto pelo bem e anseia por ele. E quando, porventura, o bem se coloca perante o homem, este responde e corresponde.
F : Considera que as pessoas estão cada vez mais afastadas dos valores espirituais e em consequência cada vez mais entregues e dependentes do materialismo?
P.A.C.
: Sim, dou conta de que a perda de valores é um facto. Só que as pessoas afastam-se dos valores, mas têm saudades deles. Há como que uma sensação de falta de algo…
F : Um vazio?
P.A.C.:
Um vazio. Muito bonita, essa palavra. Por essa razão, sempre que aparece um sinal, sempre que as pessoas vêem que há liberdade, que há vida, imediatamente correspondem.
F : O Papa Francisco corresponde a esse sinal?
P.A.C.:
Sem dúvida nenhuma. Fico muito contente por citares este querido Papa, pois aí está um caso claríssimo em como o Mundo respondeu a um homem que é um sinal e uma referência dos valores dos quais o homem se afastou mas dos quais sente a necessidade de voltar a aproximar-se.
F : Que qualidades mais aprecia no Papa Francisco?
P.A.C.:
Quando um dia perguntaram a este Santo Padre qual era a definição que fazia de si próprio, ele disse três coisas: sou um pecador, um pouco astuto e bastante ingénuo. Eu acho isto de uma dimensão linda, linda. Desde logo a humildade: é um pecador. É um ser humano, sujeito a ser limitado. Depois, afirma que tem visão das coisas, que não é parvo. E finalmente, afirma ser ingénuo, uma pessoa que confia, um homem com o coração aberto, com os olhos cheios de luz. Por essa razão, não há ninguém que lhe fique indiferente. Há dias ouvi uma referência, a de que havia três pessoas poderosos no Mundo: o Putin, o Obama e o Papa Francisco. Mas o Papa tem um poder diferente, que não se confunde com os poderes tradicionais do Mundo.
F : Estes três anos de papado de Francisco têm aproximado mais as pessoas da Igreja e da fé?
P.A.C.
: Sem dúvida nenhuma. Ele fala a verdade, e até denuncia erros no Vaticano, na Curia Romana. A verdade os libertará, é uma expressão do nosso Senhor Jesus Cristo. Só temos que ter coragem de nos libertarmos da mentira em busca da verdade. Há hoje uma maior consciência da missão da Igreja. O Papa tem uma frase muito feliz: prefere uma Igreja acidentada por sair à rua do que uma Igreja fechada, com medo. Uma Igreja de portas abertas. Disse também outra frase muito bonita: a Igreja é como um hospital de campanha após um combate; está sempre disponível para tratar dos feridos que a vida gera.
F : Como olha para estas pessoas que em nome de um deus levam a cabo ataques terroristas, matando pessoas inocentes?
P.A.C.:
Quem o faz não pode citar o nome de Deus. Cita o nome de Deus, mas falsamente. O Deus verdadeiro é misericordioso, e o próprio Islamismo apregoa que Alá é um Deus de paz e de bem. Por essa razão, todos aqueles que invocam um deus para fazer a guerra estão a atraiçoar Deus.
F : O que poderá levar os homens a chegarem a este ponto, senhor Prior?
P.A.C.:
Há situações tremendas de injustiça, de destruição da dignidade das pessoas. Muitos destes jovens terroristas vêm de franjas da população marginalizada, que por vezes criam neles situações de ruptura e de desespero e que os leva a seguir estes caminhos. Eu acredito que ninguém nasce mau, e no coração do homem há sempre algo de bom. O grande Padre Américo dizia uma coisa interessantíssima: não há rapazes maus; a vida é que os torna maus. Há anos eu visitava com frequência estas prisões aqui à volta e ouvia reclusos a dizer: o meu pai nunca me deu um beijo; antes, batia-me com um cinto. O que vai ser quando for homem uma criança que tem uma imagem destas do próprio pai? Por esta razão, muitos destes desgraçados que entram em situações de terrorismo e de crime nunca tiveram oportunidade de ter quem lhes desse amor. Por esta razão é que o Papa Francisco fala muito da ternura do Envangelho, que os cristãos devem ter permanentemente na sua vida uma linguagem afectuosa, fraterna. Nós, os cristãos, devemos ser misericordiosos, e essa é a mensagem do Papa Francisco. A palavra misericórdia é uma palavra derivada do latim, composta por duas palavras: miser e cordis. Cordis significa coração. Miser significa fragilidade. Ou seja, um coração debruçado sobre a fragilidade. Devemos olhar para estes irmãos a quem a vida atraiçoou e abandonou com a mesma atitude, ou seja, com os nossos corações debruçados sobre as suas fragilidades. Esta, de facto, é… olha, Nuno, esta, no fundo, é a password da minha vida. Pelo menos peço a Deus que seja.
F : Sentiu esse afecto ontem, aquando das comemorações do Jubileu da sua vida de sacerdócio?
P.A.C.:
Ontem, nesta celebração, tive a sensação do milagre da multiplicação da alegria e da vivência da amizade. É que nem sempre as pessoas têm oportunidade de demonstrar a sua amizade, mas ontem tiveram a alegria de demonstrar serem amigos, numa envolvencia que representa o verdadeiro caminho do homem.
F : Estavam presentes bastantes padres. Colegas do senhor Prior?
P.A.C.:
Foram os padres aqui de mais próximo, os que têm uma maior proximidade comigo, os que fazem parte da Vigararia de Vila Franca de Xira e Azambuja, onde sou Vigário, como sabes. Não seria possível convidar todos aqueles que eu gostaria de ter convidado.
F : Que sentimento desperta no senhor Prior situações como as que são noticiadas, relacionadas com o abandono de idosos em lares, ou mesmo em camas de hospitais, onde familiares chegam a dar contactos e moradas erradas para não serem chamados a levar os seus ascendentes para casa?
P.A.C.:
O Papa Francisco tem uma expressão muito interessante para definir situações como essa: uma sociedade descartavel. Esta sociedade deixou-se apanhar por um consumismo que se define por esse princípio: quando serve, muito bem. Mas quando já não serve, vai fora. E por essa razão estes nossos irmãos que caem nessas situações são os tais irmãos descartáveis. É nessa altura que tem que acontecer o Envangelho. Procuramos actuar quando temos conhecimento dessas situações, e de outras semelhantes. Graças a Deus que vamos tendo capacidade para intervir numa ou noutra situação desse género, aqui com o nosso lar, mas é sempre uma situação chocante.
F : Peço-lhe que defina cada uma das suas realizações. Começo pela Colónia de Férias.
P.A.C.:
É a obra de todas as obras. Foi a partir da Colónia de Férias que foram acontecendo todas as outras obras que se seguiram. É uma autêntica experiência do que é o mais puro da vida. Ninguém dos que lá vão é obrigado a dar algo de concreto, e todos partilham o que podem dar, seja muito ou pouco. São Paulo disse: vivei de tal maneira que aos que têm mais não lhes sobre, para que aos que têm menos não lhes falte.
F : Precisamente o contrário do Mundo que temos hoje.
P.A.C.:
Exactamente. Por isso é que a Colónia de Férias é um oásis. Claro que depois quem vai à Colónia regressa à vida normal e percebe que aquilo que lá experimentou não está a acontecer cá fora. Mas sabem que é possível de acontecer, e por isso ficam com essa ideia nos seus corações. Foi possível de acontecer também quando fizemos o Jardim Infantil, quando fizemos o Lar, quando fizemos a casa Mãe. É possível que aconteça quando nos deixamos apanhar por esta ousadia de um amor maior que é a marca da Colónia de Férias. Tenho tido a felicidade de ouvir muita gente dizer-me, ao longo destes anos: “Senhor Prior, a Colónia de Férias marcou para sempre a minha vida, pelos valores que lá encontrei”. E tenho pais que ainda hoje me dizem que à noite cantam a oração de final de dia na Colónia.
F : Centro de Dia.
P.A.C.:
Foi consequência da Colónia de Férias. Pensámos em fazer uma colónia de férias para os nossos velhinhos, tal como tinham os meninos. Foi o que fizemos durante vários anos, começámos em 1975 e daí para cá nunca mais parámos. Chegámos a fazer colónia de férias para idosos com turnos de oitenta idosos. Então as pessoas perguntavam-nos: mas porque hão-de ser só dez dias? Porque não o ano inteiro? Foi assim que surgiu o Centro de Dia, para lhes proporcionar aquele convívio bonito que tinham tido na praia, mas agora de segunda a sexta.
F : Jardim Infantil.
P.A.C.:
Foi um pensar não apenas nos meninos mas também nos pais, que vão para o trabalho e precisavam de alguém que lhes ficasse com os filhos. Hoje, cada vez mais a base familiar não tem a capacidade de ter avós disponíveis para os netos, e por vezes os filhos estão espalhados por vários sítios. Hoje o Jardim tem todas as valências, o berçário, a cresce, o pré-escolar e também o ATL, e temos a alegria de ter uma equipa muito, mas mesmo muito boa de educadoras, que nos garante uma preparação para a vida muito capaz para as nossas crianças. Dizem os nossos psicólogos que a história de um adulto para a vida é definida por aquilo que serão os seus primeiros seis anos. Por essa razão, procuramos que os seis primeiros anos da vida das nossas crianças fiquem marcados pelos valores, pela alegria, pelo carinho e pelo encanto. Criar crianças equilibradas e proporcionar-lhes a descoberta de Deus nos seus corações.
F : Lar de Idosos, esta magnífica obra que assinalou vinte anos de existência em Julho. O senhor Prior disse, há vinte anos, na inauguração do Lar: “a partir de hoje, que ninguém tenha medo de ser velho em Aveiras”.
P.A.C.:
Uma palavra bonita, “magnífica”. A sua beleza física não passa despercebida. Há dias veio aqui um senhor que queria inscrever o seu pai no Lar. Passou aqui à porta, seguiu em frente e ali ao pé da bomba de gasolina, junto à Ponte da Milhariça, perguntou onde era o Lar. E disseram-lhe: “mas o senhor acabou de passar por ele, é aquele edifício ali, rodeado de muros e com umas árvores à frente”. E essa pessoa respondeu: “mas aquilo não é o hotel da terra?”. Vieram contar-me, e achei muito bonito. É uma casa muito bonita. As entidades oficiais foram muito sensíveis à descoberta que fizeram daquele que era o nosso propósito, a nossa forma de estar e a realidade da nossa comunidade. Este Lar pratica os valores que há pouco partilhei: quem tem a mais, que não lhe sobre, para que não falte a quem tem a menos. Não há uma mensalidade oficial; pelo contrário, é definida pela disponibilidade das pessoas. Lembro-me de um caso de uma senhora, a Adelaide Isílda. Uma senhora que em tempos foi capataz (capatázia, como se dizia) do Batoréu. Um dia visitei essa senhora, e estávamos em Novembro, um inverno muito frio. Ela morava aqui no Alto do Moinho. E a casinha dela era térrea, com uma divisão feita por uma cortina de chita, uma cama encostada a uma parede de adubo, telha vã, e cá fora um fogareiro a petróleo onde fazia a sua comidínha. Disse-lhe: “Ó tia Adelaide, a senhora não pode estar aqui, isto está muito frio, não tem condições para passar aqui este inverno. A senhora vai para o Lar”. E ela respondeu: “Mas eu não tenho possibilidades de ir para o Lar”. E eu retorqui: “Por isso mesmo é que vai”. E aqui morreu com cento e tal anos. Relembraste uma frase que eu disse há vinte anos, e que mantenho, por estar perfeitamente actual.
F : Casa Mãe, ou Casa do Pombal
P.A.C.:
Um dia, na Colónia, uma menina agarrou-se aos pés de uma mesa a chorar, e a dizer que não queria vir embora. Estávamos no dia da partida, o autocarro estava à espera e aquilo mexeu muito connosco, custou-nos muito. Era como tirar uma criança dos braços do pai e da mãe, que eram os monitores e as senhoras da cozinha. Esta ideia de que a Colónia era uma segunda mãe levou-nos a pensar, a mim e a um grupo de amigos: e se nós fizéssemos uma colónia durante todo o ano? E foi assim que surgiu a Casa Mãe. Foi a minha irmã, juntamente com o seu marido, entretanto já falecidos, que deram origem a que se pudesse realizar o sonho da Casa Mãe. Eles não tinham filhos, adoeceram, ficaram gravemente dependentes e eu disse-lhes para virem para o Lar de Aveiras. E eles vieram, e aqui faleceram. Quando o meu cunhado se deu conta que iria para Deus, disse-me que a sua vivenda do Estoril ficaria para a obra da Casa Mãe, pois ele sabia que eu tinha esse sonho. E assim aconteceu: com o acordo da minha outra irmã, eu vendi a vivenda do Estoril e com esse dinheiro comprei a quintazínha do Pombal, e com o auxílio do Estado fizemos a Casa Mãe. Curiosamente, o meu cunhado chamava-se Pombinho. Daí a casa do Pombal, pois aquele casal, que não tinha filhos físicos, acabou por ter filhos do coração.
F : Sente-se devidamente reconhecido e agradecido por quem tem protagonizado o poder político local?
P.A.C.:
Eu não preciso, querido amigo. Só quero que Deus esteja contente comigo, e que aqueles que me conhecem possam dizer: ainda bem que conheci este amigo.

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