

Não está a ser fácil para os responsáveis pela Junta de Freguesia do Carregado enfrentar o drama social que vai crescendo nesta vila do concelho de Alenquer. Os serviços sociais da freguesia enfrentam diariamente inúmeros pedidos de ajuda, muitas vezes direccionados à própria alimentação, necessidade básica a que as pessoas também já não conseguem fazer face. Mas o que mais preocupa os responsáveis da freguesia são mesmo as ameaças de suicídio que quase a um ritmo diário aparecem na Junta. Pedro Afonso, eleito como membro da nova equipa governativa que resultou das últimas autárquicas, teve alguma dificuldade para se adaptar a esta nova realidade social. Afonso integra a equipa liderada por José Manuel Mendes e está na freguesia a meio tempo, lidando directamente com os dramas sociais que o Carregado vai enfrentando. Para Pedro Afonso a adaptação não foi fácil, até porque é oriundo de Penafirme da Mata, aldeia da freguesia de Olhalvo, onde as pessoas ainda vão tendo um bocadinho de terra para cultivar e um quintal onde criam animais que depois servem de suporte alimentar. Mesmo durante os anos em que esteve em Alenquer Afonso confessa que não viu nada que sequer se aproximasse da realidade carregadense. Desde outubro que este recém-eleito membro da Junta passa boa parte do tempo na freguesia do Carregado, que agora também integra a extinta freguesia de Cadafais, e garante que teve alguma dificuldade em adaptar-se a esta nova realidade. Todos os dias aparecem na Junta pessoas em situação limite no tocante às imensas dificuldades em que vivem. Alguns chegam a pedir apenas 5 euros para poderem deslocar-se a Lisboa a fim de tratar de qualquer assunto, mas há quem se dirija à sede da freguesia tão somente para pedir comida. “As pessoas vêm pedir nem que seja uma sandes, porque têm fome e pura e simplesmente não têm dinheiro para comer”, confessa Afonso, visivelmente incomodado com drama social que se vive nesta sua agora freguesia de adopção. Mas o que mais incomoda este responsável da Junta são mesmo as ameaças de suicídio. Pessoas que aparecem na sede da freguesia convictas de que o melhor será mesmo colocarem um ponto final na sua existência, como forma de resolverem todos os problemas. Nestes casos, torna-se uma experiência traumáquica acudir a estas pessoas, mas Pedro Afonso garante que evitar tal desfecho vale mais do que a maior parte das coisas de que se lembra.
Drama à porta de casa. Há dias o próprio autor deste texto parqueava o carro à porta de casa quando foi abordado por um conhecido vizinho. O homem já rondava a rua e o carro de Nuno Cláudio (NC) desde há dias, com um olhar desesperado e um aspecto pouco recomendável, mas o director do Fundamental não suspeitou do motivo daquela súbita proximidade. Até ao dia em que o homem se encheu de coragem e abordou NC, pedindo-lhe algum dinheiro para comer, pois, garantiu, não comia nada há dias por não ter possibilidades. “Nesse dia foi difícil para mim concentrar-me no trabalho ou no treino; perdi a fome para jantar e mal consegui dormir”, confessa Nuno Cláudio. Este género de drama é comum no Carregado, onde as pessoas vivem claramente abaixo do limiar da pobreza. Basta dar uma volta nocturna pela urbanização da Barrada para constatarmos muitos apartamentos iluminados por velas ou coutos, o que indicia que o fornecimento de electricidade está cortado. Não será difícil imaginar que o mesmo se passará com os fornecimentos de água e gás. Em muitos casos é possível constatar que as casas praticamente não têm recheio e que as pessoas vivem no meio de paredes e de mais coisa nenhuma. À Junta de Freguesia do Carregado também chegam pedidos de apoio para a compra de medicamentos. Em muitos casos são medicamentos essenciais para o tratamento de doenças, mas as pessoas não conseguem ter dinheiro para os adquirir. Em alguns desses cenários os doentes são crianças em idade escolar.
Carregado outrora pujante, hoje amorfo. Ainda há poucos anos o Carregado era uma localidade pujante, atractiva para portugueses de outras paragens e até para imigrantes vindos um pouco de todo o lado. As ruas fervilhavam de gente, cafés e comércio viviam com alguma folga e supermercados e restaurantes registavam movimento praticamente diário e contínuo. Havia muita oferta de empregos, tanto nas empresas da zona industrial envolvente à freguesia como também no próprio comércio local, que era dinamizado em permanência por novas lojas, dando corpo a uma iniciativa privada que vivia dias de pujança. Mas em pouco tempo a inversão do cenário foi catastrófica. As empresas começaram a cair que nem tordos; as fábricas fecharam quase a um ritmo diário e em consequência o comércio e a restauração ressentiu-se de imediato. Até o Campera Outlet, outrora um foco de emprego, transformou-se num espaço que claramente definha a cada dia que passa. Imigrantes vindos de toda a parte empreenderam então a debandada. Sobretudo brasileiros e imigrantes do leste da europa ou regressaram às origens ou mudaram de poiso, e a verdade é que esta ausência teve impacto no movimento associado à economia local. Muitos portugueses que entretanto tinham chegado ao Carregado voltaram às suas terras de origem, deixando, por exemplo, na urbanização da Barrada um sem número de apartamentos por habitar, que se juntaram a uma já de si assustadora quantidade de prédios inteiros por vender. Torna-se dramático assistir a uma cada vez mais crescente quantidade de pessoas que visivelmente não têm ocupação e que vão deambulando pelas esquinas e pelos cafés. Ao mesmo tempo, na periferia do Carregado multiplicam-se as instalações abandonadas e até vandalizadas. Muitas delas foram até há bem pouco tempo unidades fabris pujantes, nas quais muitas famílias inteiras laboravam e delas retiravam forma de sustentar um modo de vida que, pelos vistos, acabou mesmo. Joaquim Martins















