
O que o motiva a ser candidato pela terceira vez à presidência da Câmara do Cartaxo?
Houve uma reestruturação do grupo de trabalho da CDU. Eu não estava com vontade de continuar por uma questão de excesso de trabalho e cansaço pessoal, e também devido a algumas modificações da minha vida particular, mas perante um grupo de trabalho bastante interessante e com uma visão diferente das coisas entendi que não devia recusar a recandidatura. Por outro lado sinto que há um capital pessoal que foi adquirido ao longo destes anos e que seria uma pena perder-se, a par de uma insistência que pretendemos fazer na implementação de propostas que nos parecem ter cabimento na perspectiva do interesse das populações.
Já se sente mais político, não deixando de ser o professor Mário Reis?
A minha concepção de político parece-me que é diferente daquilo que se vê e é considerado normal. Sou um político na medida em que participo nas decisões governativas do concelho, mas não sou um político enquanto pessoa que joga com essas decisões em favor deste grupo ou daquela pessoa, desta situação ou daquela instituição. Sinto-me muito mais à-vontade no trabalho autárquico porque tenho um domínio significativo dos diversos dossiers que constituem a governação local, a par de um conhecimento mais amplo da legislação e de todas as questões de ordem financeira. Este capital, associado ao facto de continuar a entender que um político é o governador de um espaço, significa um acréscimo das minhas capacidades para servir esta causa, com muita honra e muita seriedade.
Desde 2005 a esta data os cartaxeiros passaram a ouvir falar com muita frequência de milhões de dívidas e de falência financeira do município.
Em primeiro lugar não se conseguiu seleccionar, de forma muito clara, as despesas fundamentais das despesas acessórias. Por outro lado o poder constituído trabalhou sempre mais para resolver questões de ordem pessoal em detrimento de questões de natureza comunitária e colectiva. Houve uma vaidade pessoal no sentido de fazer uma grande obra, quase uma obra de estado, ou de deixar uma marca aqui ou acolá, mais do que pensar o concelho de uma forma mais fria, calculista e sustentadamente desenvolvido.
É capaz de indicar uma ou mais obras que não faria no concelho, se dependesse de si, por considerar as mesmas desadequadas à realidade financeira do Cartaxo?
Desde logo o Parque Central, havendo inclusive propostas por parte da CDU para fazer a obra com um preço muito mais baixo e, claro, sem toda esta tonelagem de betão. Duvidamos muito também da obra que foi iniciada no Casal Branco e que está pura e simplesmente parada, não se sabendo que elefante branco vai sair dali. São obras onde se poderia ter poupado muito dinheiro, se tivessem sido pensadas de outra forma logo à partida.
Mas serão essas obras as responsáveis por boa parte do dinheiro que, diz-se, a câmara deve?
Esse dinheiro é parte significativa dessa dívida. Claro que não é por causa do Parque Central e do Casal Branco que se devem 52 milhões de euros. Mas é por causa de toda uma série de procedimentos que se foram tendo. Ainda há pouco, na reunião de câmara, vimos o caso de uma dívida que foi contraída com uma empresa que faz projectos, na casa dos 72 mil euros, mais IVA, quando a câmara tem um técnico superior especializado na elaboração de projectos. Claro que estes são contributos para que no final se chegue a essa avultadíssima verba.
Mas afinal onde é que se gastou 52 milhões de euros? Esta é uma questão que os cartaxeiros colocam com frequência, dado que boa parte das obras de vulto foram comparticipadas numa percentagem generosa a fundo perdido.
45 milhões estão perfeitamente escalonados, e essa identificação é pública: foram dinheiros que se distribuíram pelas associações locais, obras nas suas sedes de forma bastante desequilibrada, dinheiro que se distribuiu por instituições e aquisição de bens e materiais que é duvidoso se serviram para alguma coisa. Dou o exemplo da despesa imensa que se fez na câmara, até ser possível, em fotocópias. As fotocopiadoras estiveram sempre ao serviço não se sabe muito bem de quem, a produzir fotocópias que não correspondiam ao nível da exigência do município. Depois há toda uma série de serviços requisitados externamente que ficariam muito mais em conta se fossem prestados pelos funcionários da própria autarquia, nomeadamente assessorias. O Revisor Oficial de Contas custa a este município 50 mil euros por ano, e eu não sei se não seria de fazer uma proposta à ordem dos ROC’s e esperar que nos fosse dado um outro tipo de orçamento, necessariamente mais baixo. São apenas exemplos de uma eira cheia de pequenos grãos que acabam por resultar nestes valores em dívida.
Mas de quem é a responsabilidade de contratar um serviço de 72 mil euros mais IVA, quando existe na câmara pessoal especializado para garantir esse serviço?
A responsabilidade cabe sempre ao presidente da câmara, evidentemente.
Identifica aqui falta de capacidade de liderança?
A este nível eu não lhe chamaria falta de capacidade de liderança; prefiro chamar-lhe falta de cuidado. Falta de pensar que a coisa pública é preciosa. É minha, é sua, é de quem toma a decisão mas também é daquele senhor que vai ali na rua e que não tem culpa nenhuma disto e depois vai ter que pagar.
O professor é favorável à responsabilização das pessoas que gerem desta forma o dinheiro público?
Sou favorável à responsabilização e à criminalização destas pessoas. Deveria haver um tribunal de política, que analisasse as promessas enganosas, os engodos que são enviados para a população no sentido de captar os votos. Trata-se de um delapidar do património de todos, que praticamente se assemelha a um “furto”.
O que é que mudou na Câmara do Cartaxo com a saída de Paulo Caldas e a assunção da presidência por Paulo Varanda?
Mudou o estilo e a maneira de estar do presidente, mas de resto ficou tudo na mesma. E este “tudo” mais não é do que aquilo a que dou importância: a clareza dos procedimentos. Continua a haver um grande défice ao nível da clareza dos processos, sendo que a grande diferença é que Paulo Caldas começa na política muito novo, e sabe muito bem o que deveria fazer em cada situação, ao passo que Varanda cai aqui do céu aos trambolhões sem saber o que politicamente há-de fazer.
Como é que comenta o facto de Paulo Varanda ter recentemente assumido em reunião de câmara responsabilidade solidária com tudo o que foi feito na governação da autarquia desde há 35 anos e agora, que é candidato opositor, venha cair em cima da má governação que trouxe o município a este patamar?
A isso eu chamo falta de lealdade. Eu não funciono assim, e entendo que, se a pessoa não concorda com o que se está a passar no partido que a elegeu, então vai embora. No dia em que a CDU me coloque alguma oposição à minha liberdade de actuação, me constranja ou critique publicamente, então eu vou logo embora. É uma questão de lealdade, de personalidade e de saber estar nas coisas.
Como é que os cartaxeiros vêem esta situação de divisão do PS, a candidatura de Ribeiro e de Varanda, o partido dividido?
O que oiço é que isto não é muito bem visto. As pessoas criticam todas estas manobras, a despesa que se faz com outdoors, que enfeitam aí todas essas rotundas. As pessoas acham que tudo isto é muito mau, mas daí até ao voto em quem não faz estas coisas vai uma distância bastante significativa.
A sua e a candidatura do PSD poderão beneficiar desta aparente divisão que existe causada pelas duas candidaturas do bloco socialista?
Estou convencidíssimo que sim. Pegando na estatística de uma forma muito gelada, os votos do partido socialista vão ser divididos entre o PS e o Movimento Independente. Pegando no método de Hondt, vai haver aqui um benefício claro, sobretudo para o PSD, se virmos as coisas de uma forma rectilínea. É evidente que o prejuízo destes acontecimentos vai todo para o Cartaxo, porque quando as pessoas podiam estar concentradas na resolução de problemas estão mais concentradas é em resolver o seu problema, ou o problema do seu grupo, ou focados na estratégia para alcançar o poder ou a vitória eleitoral.
Vasco Cunha afirmou, em entrevista ao Fundamental, que havia duas candidaturas que nada tinham a ver com o estado a que chegou o Cartaxo: a do PSD e a da CDU. O professor vê essa afirmação como um piscar de olho tendo em vista um entendimento pós-eleitoral, no caso do PSD vencer sem maioria absoluta?
Eu tenho visto muitos piscares de olhos para a minha candidatura, porque neste cenário estatístico quem vai desequilibrar a balança será a CDU. Mas eu ligo pouco a isso. Acho simpático da parte dos outros candidatos: o próprio Pedro Ribeiro tem conversado comigo muitas vezes, o Paulo Varanda nem tanto porque os nossos caminhos do dia-a-dia não são muito coincidentes. Mas eu não levo isso muito a sério…
Porquê?
Porque no caso do cenário pós eleitoral ser esse, o da CDU ficar numa posição de desempate, a minha orientação não vai mudar. Eu espero que toda a gente esteja perfeitamente convencida e elucidada disso.
O que quer dizer concretamente? Não vai aceitar nenhum convite para se coligar com um vencedor?
Não vou aceitar nenhum convite de ninguém. Todos os projectos que a CDU entender que são dignos de avançar no concelho, nós cá estaremos para apoiar, e todos os que não sejam dignos, nós cá estaremos para recusar. Colaboraremos com todas as iniciativas que sejam orientadas para o desenvolvimento real da comunidade e não alinharemos com as restantes. Estaremos sempre na câmara nesta perspectiva, pelo menos enquanto o Mário Reis merecer a confiança do grupo de trabalho da CDU.
Então está fora de questão que o professor venha a ser vereador a tempo inteiro, no âmbito de uma coligação da CDU com um eventual vencedor sem maioria absoluta.
Olhe, perante uma proposta dessas – e registe isto, por favor, exactamente como eu estou a dizer – em conversa com um candidato de outra lista, que faz o favor de ser meu amigo, a minha mulher, que estava na conversa, disse-me que nunca mais dormia comigo se eu aceitasse vir trabalhar a tempo inteiro para a câmara. E eu, francamente, quero continuar a dormir com a minha mulher. Não há qualquer hipótese. O Mário Júlio nunca há-de afirmar-se aqui por ser o fiel da balança; antes, se tiver que se afirmar será por ter sempre em primeiro lugar o desenvolvimento da sociedade. Tudo o resto para mim não existe, não faz parte da minha preocupação.
Então agora, depois da publicação desta entrevista, lá se vai acabar o namoro…
Se alguém pensava ser possível namorar-me, andava distraído ou não me conhece bem. A minha lealdade a estes princípios é muito antiga e dela não prescindo. Não me vejo sentado à volta daquela mesa de reuniões a pôr a mão no ar só porque tenho um compromisso com esta ou aquela força política.

















