

O que te motivou a pegar na liderança da Comissão Política de Alenquer do PSD, atendendo a que o partido está a viver momentos difíceis tanto a nível local como nacional?
A motivação tem a ver com as pessoas do meu concelho, com o meu próprio concelho, Alenquer. Tem sido o móbil destes praticamente vinte anos de política activa. É uma luta incessante para que tenhamos um concelho melhor, com mais qualidade de vida. É verdade que o PSD não passa um bom momento, tanto a nível nacional como local, mas em Alenquer o partido já passou por momentos bem piores. Por exemplo, em 1997 tínhamos apenas um vereador, que se passou para acessor do presidente da câmara, e nessa altura o partido tinha apenas 16 por cento da votação. Na altura eu fiquei absolutamente sozinho com o Vítor Ronca. Foram tempos difíceis, mas nem nessa altura baixámos os braços.
Não será esse passado que tem impedido o PSD de chegar um pouco mais longe?
Não creio. No meu caso as pessoas conhecem-me, sabem bem qual foi o partido que sempre representei. Ainda no mandato passado tive possibilidade de ter assumido pelouros com uma remuneração na câmara e com todas as regalias que um vereador pode ter, pois para isso fui convidado, e recusei. Desde 2001, com a candidatura do professor Nandim de Carvalho, as coisas estabilizaram no PSD de Alenquer.
Mesmo assim tem sido um partido com uma presença intermitente.
Estou de acordo, e isso tem que terminar. E contra mim próprio falo. Não podemos ser um partido que aparece seis meses antes das eleições…
Foi o que aconteceu nas últimas três eleições?
Muito menos do que era costume. As coisas começaram a ser preparadas com maior antecedência, mas mesmo assim poderemos fazer melhor. Não digo que tenhamos a postura que o líder da concelhia do PS, Nuno Inácio, anunciou na tomada de posse, afirmando que para o Partido Socialista a campanha eleitoral autárquica começava naquele momento. O que teremos que fazer é estar próximo das pessoas, porque o tempo das campanhas há-de chegar na altura própria. Mesmo estando na oposição, o PSD tem obrigação de lutar para tentar resolver os problemas das pessoas.
Então não é uma boa estratégia anunciar que já se está em campanha para as próximas autárquicas?
Não, de maneira nenhuma. Deve anunciar-se é que vamos arregaçar as mangas e que vamos para o terreno lutar pelo nosso concelho. Mas essa é uma estratégia do PS, na qual não me quero meter. Eu quero o PSD próximo das pessoas, e se tiver que ir contra medidas do nosso próprio governo para defender os direitos e os interesses das pessoas, cá estaremos para tomar tais posições.
Há quem defenda que Nuno Coelho já se candidatou fora de tempo em 2013, que o tempo ideal de saída teria sido precisamente nestas eleições.
Isto é como no futebol: depois do jogo ter acabado é fácil dizer qual foi o resultado. O Nuno Coelho é um militante que deu muito ao partido e ao concelho. Quando em 2009 ficámos a dois por cento de ganhar a câmara eu era presidente da concelhia e fui dos que esteve de acordo com a continuidade do Nuno, que tinha vindo de um excelente resultado e mostrava vontade de dar continuidade a esse projecto. Temos vários exemplos no país de casos idênticos que acabaram em vitória eleitoral, como Braga, em que o PSD vence a câmara à terceira tentativa com o mesmo candidato.
O que terá faltado a Nuno Coelho para vencer em 2013?
A conjuntura nacional não foi favorável, e admito algum desgaste associado ao facto do Nuno Coelho concorrer pela terceira vez. Temos um concelho muito socialista, o que é outra desvantagem na perspectiva do PSD.
Mas ao olharmos para este concelho justifica-se esta paixão louca pelo PS por parte do eleitorado?
Eu sou do alto concelho e conheço bem esta terra… realmente, não se justifica. Basta olhar para o estado do concelho, para as oportunidades que têm passado ao lado quando comparado com concelhos vizinhos.
O actual executivo será capaz de romper com esse marasmo e dar um novo rumo a Alenquer?
Quando olho para o actual executivo detecto de imediato uma característica que me parece lamentável: têm a arrogância clara e evidente de quem confunde maioria absoluta com poder absoluto, e não ouvem mais ninguém. Estamos à beira de entrar no novo quadro comunitário, e seria importante que todas as forças políticas se sentassem à mesa e chegassem a um consenso sobre os projectos estruturantes que podem vir a interessar ao concelho. Não gostaria que Alenquer caísse no mesmo erro que cometeu no passado: rotundas que custaram centenas de milhares de euros ou variantes que vão custar 7 milhões de euros e que não interessam a ninguém.
Mas o actual presidente dá sinais de não querer sequer ouvir alguém?
Até agora é a pura da verdade. Quando na câmara se estava a discutir o regulamento para o orçamento participativo, em que a autarquia vai disponibilizar 300 mil euros por ano que podem financiar 5 a 6 obras que poderão custar entre 50 a 60 mil euros cada, os nossos vereadores concordaram e propuseram que as mesmas obras fossem pagas o mais tardar até ao final do ano seguinte ao termo dessas mesmas obras. Não é nada do outro mundo. Mas a maioria recusou.
Então quer dizer que esta gente pretende continuar a fazer obras e a pagar… a perder de vista?
É esse o entendimento que fazemos. Está em acta e é público: a maioria recusou pagar as obras até ao final do ano seguinte à conclusão das mesmas.
Mas esse não será um péssimo sinal para quem vai fazer as obras, já saber de antemão que vai receber o dinheiro a perder de vista?
Eu acho que se trata de um péssimo sinal vindo deste executivo, e é bom que as pessoas comecem a perceber que as coisas não estão melhores. Bem pelo contrário. Até agora não vi nada de novo.
O que está então a faltar a Pedro Folgado?
É uma boa pergunta. Falta começar a cumprir com aquilo que prometeu às pessoas.
Diziam que Pedro Folgado não tinha experiência política para governar uma câmara. É o que está a fazer a diferença, na tua opinião?
Nem sempre um bom técnico dá um bom político. A história está recheada de excelentes técnicos que foram péssimos políticos. Nestes primeiros seis meses já deveriam ter dado um sinal de que estavam ali para serem diferentes. Não ouvem ninguém, não dão ouvidos às propostas da oposição, e isso leva-me a ficar seriamente de pé atrás com este executivo. Ainda recentemente foram debatidas em público as contas de 2013, das quais este executivo tem a responsabilidade no periodo correspondente aos últimos 3 meses, e não houve ninguém deste executivo disponível para estar nesse debate. Fogem ao debate. Estamos a dias do 25 de abril, e é previsível que nessa altura muita gente venha encher a boca com os valores de abril, mas para mim o que é verdadeiramente importante é praticar os valores de abril no dia-a-dia, e isso não tem acontecido em Alenquer.
Estamos na presença de um presidente prepotente, que não tem cultura de diálogo?
O executivo na sua globalidade não tem claramente essa cultura de diálogo. Uma das primeiras medidas que esta maioria tomou foi acabar com as reuniões de câmara que haviam uma por mês, sobre temas específicos, fora do horário laboral, para que as pessoas pudessem participar. Está aqui o exemplo do caminho que estes senhores seguem.
Todos contam, então, mas é para ficarem bem calados.
Exacto, é isso mesmo.
A experiência no executivo do Carregado ajuda o Pedro Afonso a ter outra visão sobre os problemas específicos do concelho?
Ajuda mesmo muito. O facto de eu ser do alto concelho, ter passado muito tempo em Alenquer e agora estar no Carregado deu-me uma outra visão completamente diferente sobre os problemas específicos desta freguesia. Eu defendo que todos os políticos que queiram ter responsabilidades autárquicas neste concelho deveriam fazer um estágio obrigatório no Carregado. É uma experiência enriquecedora. Tenho aprendido muito com as pessoas do Carregado, porque nós convivemos todos os dias com situações limite. Para quem vive no alto concelho, onde toda a gente tem o seu pedaço de terra e encontra sempre forma de se desenrascar, quando chegamos a uma zona urbana como o Carregado vemos problemas sociais brutais, lidamos com pessoas que não têm nada e que chegam absolutamente desesperadas. Por vezes querem apenas uma sandes para comer, mais nada. Dou muito mais valor à minha vida desde que estou na Junta do Carregado, pois vejo que por vezes nos queixamos dos nossos problemas mas a verdade é que lidamos com pessoas que têm problemas muito, mas muito mais graves que os nossos. Várias pessoas já apareceram a dizer-me que se iriam suicidar.
O que é que vocês fazem nesses casos?
Tentamos ajudar. Ajudar uma pessoa nestas circunstâncias para mim vale mais do que muitas coisas. Lidamos com a realidade nua, pura e dura. São situações limite todos os dias. De tal modo que no inicio tive alguma dificuldade em lidar com esta realidade.















