
Ficaste surpreendido com a reeleição por números a rondar os 77 porcento?
Nós tentámos constituir uma lista homogénea, com pessoas que levassem sobretudo a juventude a considerar que esta coisa do poder nas autarquias não é apenas para as pessoas que ultrapassam os 50 anos. As pessoas perceberam que tínhamos um projecto de mudança, com pessoas que pensavam de maneira diferente, dando ao nosso projecto uma maior abrangência. Temos pessoas com 23 anos de idade nestas listas, o que releva bem o espírito de renovação do projecto. E tenho o hábito de convocar todas as pessoas que integraram as listas para as reuniões preparativas das Assembleias de Freguesia, para que toda a gente saiba o que se está a passar na gestão da freguesia.
Essa percentagem é tão mais surpreendente se tivermos em conta o nome de um dos adversários políticos nesta eleição: José Manuel Pratas. O que terá acontecido para que as pessoas de Aveiras tivessem pura e simplesmente descartado o antigo vereador e presidente da junta?
As pessoas acabaram por castigar sobretudo o Partido Socialista por uma série de erros cometidos no passado, também aqui na freguesia. Algumas pessoas habitualmente eleitoras do PS votaram seguramente na CDU…
Certamente que muitas, a julgar pelos números da votação.
Seguramente que muitas. As pessoas não quiseram voltar ao passado e não deram esse voto de confiança ao José Manuel Pratas. Felizmente para a CDU que foi aquele o candidato que o PS apresentou. Aliás, o mesmo se passou em relação ao candidato da Coligação Pelo Futuro da Nossa Terra. A diferença é que nós formámos uma lista claramente para governar, ao passo que os outros formaram listas para concorrer. Há claramente uma diferença.
O que é que mudou na relação da Câmara com a Junta de Freguesia de Aveiras de Cima depois da eleição de Luís de Sousa?
Nós sempre tentámos ter uma boa relação com a Câmara, mesmo com o anterior presidente, porque não faz sentido estarmos em guerra com aquele que no fundo é o nosso patrão, com quem temos que negociar uma série de coisas. A relação com Luís de Sousa é mais fácil porque ele diz “sim” a tudo. Vamos é ver se depois faz alguma coisa, mas pelo menos diz “sim” a tudo.
E qual tem sido a relação entre o que promete o presidente e o que verdadeiramente faz?
Nestes seis meses tem sido “nim”. Nós sentimos que as dificuldades são enormes para a Câmara, porque esta vereação, enfim… é uma vereação. Eles não estão a gerir; antes, vão empurrando situações. Na minha opinião, temos a câmara mais fraquinha do pós 25 de Abril, em termos de pessoas com capacidade para gerir o município. Vendo bem, se calhar são os vereadores da oposição aqueles que têm mais capacidade para gerir. O presidente não gosta de estar mal com ninguém e diz que sim a toda a gente; O Silvino Lúcio é um tractor que leva tudo à frente, tem aquele hábito de desestabilizar, e o Amaral é o rapaz das festas. Foi o que fez durante anos em Azambuja, foi promover festas. Mas em termos de capacidade para gerir um concelho e até atendendo às dificuldades que estamos a passar, Azambuja merecia claramente mais.
Continuas a não compreender as motivações do vereador Herculano Valada? Ou passados estes seis meses já estás mais conformado com a decisão do elemento que fugiu da CDU?
O PS nunca falou nem com a CDU nem tão pouco com o cabeça de lista da CDU. O Herculano não ficou bem nesta fotografia. Mas agora temos que olhar em frente. Ele não pode estar em reuniões com os presidentes de junta a dizer que fazia desta e daquela maneira quando era presidente de Manique. Ou seja, ele tem que ter a capacidade de perceber que agora é vereador de um concelho e tem que olhar para as questões com outra abrangência.
Mas para o António Torrão deve ter sido um balde de água fria a decisão do Herculano…
Sem dúvida, sobretudo depois de ter sido eu uma das principais pessoas a insistir dentro da CDU para que ele fosse em segundo lugar nas listas, ele que colaborava com a nossa organização há 25 anos…
Terá Herculano ficado desiludido por não ir em primeiro lugar na lista para a Câmara?
Eu fui dos que entendi que estava na hora do cabeça de lista ser de Aveiras de Cima.
Caso Herculano Valada tivesse sido o candidato à Câmara: teria aceite na mesma o convite do PS para o acordo?
Teria aceite seguramente, porque o que esteve em causa foi o dinheiro. Ele diz que tinha uma reformazita e então abdicou da reforma para se dedicar a receber dois mil e tal euros… Foi uma motivação claramente financeira. Ele nunca foi uma pessoa muito participativa nas acções da CDU.

E esses sinais não foram suficientemente claros para que a CDU não lhe confiasse uma posição de tanto destaque nas listas como a de secundar David Mendes?
De eleição para eleição há uma dificuldade cada vez maior em escolher quadros. Nem a escolha do cabeça de lista foi consensual. Eu próprio não sou um apoiante a cem por cento da escolha de David Mendes, que é uma pessoa elitista. Entendo que um bom candidato tem que ter a capacidade de descer do cadeirão, tem que se envolver, tem que comer sardinhas e beber vinho, tem que se envolver e escutar o povo. Tem que saber manter o nível, mas num registo mais próximo do povo.
Então quem seria nessa perspectiva o candidato ideal?
Falámos em alguns nomes mas não conseguimos chegar a um candidato. Há pessoas que não se querem envolver, o que é natural, porque têm empregos, e estamos a falar de um partido que não tem perspectivas de ir para o poder central. Aqui não se oferece nada a não ser garantias de trabalho. É por essa razão que eu quero envolver as pessoas que estão incluídas neste projecto ao longo destes quatro anos.
Outro dia Luís de Sousa afirmou que a Câmara tinha… 30 euros em conta. Isto não é, no mínimo, triste?
Mais do que triste. Eu nem consigo classificar essa situação, que para mim é uma coisa tão baixa, mas tão baixa. Eu jamais diria num jornal que a minha tesouraria só tinha 30 euros, estivesse eu a dirigir um município, que se calhar nem tenho capacidade para tal. Mesmo que apenas tivesse essa quantia, eu não diria tal coisa. Não tem cabimento nenhum. É como um vereador dizer que teve que andar a apalpar os bolsos para arranjar umas moedas para pagar não sei o quê. É sinal de um desnorte total, é show-off político. Nem um gerente de uma mercearia diria tal coisa.
Fica bem a um presidente de câmara aprovar uma homenagem a si próprio, meses depois de ter chegado ao cargo?
Nem tão pouco se ausentou aquando dessa votação em reunião de câmara. Nem tão pouco teve a grandeza de sair da sala e deixar para que outros tomassem essa decisão por ele. Lá está: se nem tem 30 euros, talvez se poupar na medalhinha que quer atribuir a si próprio arranje esses 30 euros.
Como é que o presidente da junta vê a situação do investimento de cerca de 500 mil euros da autarquia no relvado sintético do Aveiras de Cima Sport Clube, num terreno que pertence a um privado e que está dado em testamento a uma organização que nada tem a ver com a colectividade?
Ponto prévio: as mentalidades estão a mudar e já restam muito poucos desses dinossauros antigos que outrora dirigiam as colectividades. Está na hora das mesmas começarem a pensar em fazer um trabalho de estreita colaboração entre si, de começarem a interligar-se e trocarem aquilo que têm. Em relação ao Aveiras: o Aveiras Sport Clube é uma peça fundamental na freguesia, o desporto ao ar livre é das coisas mais bonitas que se pode ver, insubstituível até. A preocupação em relação ao clube mantém-se, e não é apenas uma preocupação da freguesia. É extensível ao município, porque sem campo não há actividade desportiva e o clube acaba. Há cerca de meio milhão de euros investidos, que não foram nem da responsabilidade do clube nem tão pouco da Junta de Freguesia, mas que foram investidos num terreno particular. Deve ser caso único até no país, fazer um investimento público desta grandeza no terreno de um particular.
Ainda por cima investe-se num relvado sem cuidar de investir nas estruturas complementares, como se apenas o relvado fosse suficiente para pôr o clube a funcionar. Falo da iluminação do campo ou do estado dos balneários, que estavam decrépitos. Estes equipamentos complementares não deveriam ter vindo com o “pacote-relvado”?
Relvar o campo por si só não resolvia o problema. As infraestruturas como os balneários ou uma iluminação decente eram de facto essenciais. O que é que me interessa ter um campo relvado muito bonito se depois não tenho lá mais nada? Como é que treino sem luz? Onde é que os jogadores e técnicos tomam banho no fim dos treinos e dos jogos? Tudo isso deveria ter sido pensado atempadamente. Foi investir sem pensar no retorno. A cultura não gera lucros; antes, as colectividades executam aquilo que caberia ao poder central fazer, mas para isso é essencial que seja dadas às colectividades condições para cumprirem com esse papel.
A Ávinho tem condições para se afirmar como o grande certame de Aveiras e do Concelho?
A Ávinho tem que introduzir outras vertentes se quiser continuar a afirmar-se como um certame de referência. Um conjunto de adegas a dar vinho já não chega, já não é tão cativante como foi no início. Tem que haver mais riqueza no certame, porque se é verdade que há pessoas que vêm para beber também não deixa de ser verdade que há pessoas que querem ver mais alguma coisa.
A quem é que cabe esse papel dinamizador?
Até à data a organização tem cabido ao município, que é o mentor do projecto. Mas é necessário que esse mentor tenha em conta que as outras entidades também possam ter boas ideias, e que merecem ser aproveitadas. Temos que ser capazes de valorizar o certame de forma a termos competência para atrair aqui outro tipo de pessoas. Eu estou sempre a apelar à câmara que ouça as pessoas, sobretudo as mais velhas.
A professora Isabel Franco afirmou que a Ávinho eram bebedeiras e mais nada. É essa a ideia que passa em relação ao certame?
Não acredito. Bebedeiras há em todo o lado, e tu que és de Aveiras sabes que essa é uma vertente cultural muito marcante da nossa terra, a ligação ao vinho e à vinha. As nossas raízes são indissociáveis do vinho. Onde há vinho há bebedeiras, e muitas das pessoas não estão preparadas para o impacto de beber sem controlo. Vejo também muitos jovens com mochilas às costas e lá dentro levam autênticos cocktails explosivos, com muitas misturas. São bombas relógio. O abafado é doce mas tem 25 graus. As senhoras, nas primeiras edições, bebiam abafado porque era doce, mas aquilo tem 25 graus e elas… caiam logo. Eu vivi no meio da Ávinho durante estes 9 anos e não concordo com essa ideia. Num universo de quatro ou cinco mil pessoas, meia dúzia de bebedeiras não podem ser a imagem de marca de um certame. Fundamental é enriquecer o certame, e para isso é preciso ouvir as pessoas e os contributos que podem dar. Tem que se ir atrás dos produtores do concelho, tem que se mostrar vontade e persistência para os trazer para a Ávinho. Não basta apenas mandar uma carta, um email ou uma mensagem no facebook, estas coisas conseguem-se é com contacto pessoal, com insistência e com presença.

















