“Pedro Ribeiro é o pior presidente de Câmara que o Cartaxo teve desde que há eleições livres”

José Gameiro: o deputado municipal cartaxeiro do MPC no seu estílo inconfundível, sem papas na língua e usando as palavras em toda a plenitude do seu significado.

Gameiro não tem dúvidas: Ribeiro é mesmo o pior presidente de sempre da Câmara do Cartaxo...

F : O que é que mudou na Câmara do Cartaxo com a chegada da equipa liderada por Pedro Ribeiro?
J.G.: Já tenho conversado consigo por diversas vezes e sabe que eu digo exactamente aquilo que penso, e que não o faço de uma determinada forma por estar agora numa posição de opositor. Eu penso que este é o pior mandato desde que há eleições livres no Cartaxo. Este é o pior presidente de Câmara que o Cartaxo teve desde que há eleições livres.
F : Porquê?
J.G.: Houve os que iniciaram obras infraestruturais, como Renato Campos, porque na altura não havia o mínimo essencial para que as pessoas tivessem alguma qualidade de vida; houve continuidade dessa política com Conde Rodrigues. Depois veio Paulo Caldas, que foi o presidente de Câmara que efectivamente conseguiu mais obra. Foi um visionário para o futuro do Cartaxo, foi ambicioso e tentou colocar o Cartaxo em patamares elevados. É evidente que deixou dívida, mas as obras de grande vulto que existem no Cartaxo tiveram um mentor, que foi Paulo Caldas. Paulo Varanda esteve dois anos em final de ciclo, mas surgiu-lhe um bebé nas mãos e ele, em boa verdade, não era o pai daquela criança. Mas demonstrou competência, vigor e firmeza.
F : E Pedro Ribeiro?
J.G.: Pedro Ribeiro é presidente de Câmara por capricho. Na cabeça de Pedro Ribeiro havia uma ambição: ele tinha forçosamente que ser presidente da Câmara. Porque sim. Por capricho. Nem que passado uma semana deixasse de o ser. Queria ter um título na sua vida, o de ser presidente de Câmara. Mas eu verifico que quem é mais presidente até é o vice-presidente Fernando Amorim. Só por capricho é que ele fez tudo isto.
F : Bom, está claramente a dizer que Pedro Ribeiro não tem capacidade para desempenhar o cargo de presidente.
J.G.: Estou. É o presidente “nim”, porque não tem poder de decisão, não tem capacidade de negociação com as instituições. Este caso da Cartágua é flagrante, uma nítida incompetência de Pedro Ribeiro para dialogar com as instituições. As negociações arrastam-se há demasiado tempo e ele não consegue resolver nada. Já se fala que o assunto vai ser tratado a nivel de justiça. Se bem se recorda numa entrevista que lhe concedi, eu disse que Pedro Ribeiro é um excelente número dois. É um bom estratega. Mas ele na frente, como lider, não tem competência.
F : O que achou do processo de escolha do candidato para as últimas autárquicas que envolveu Pedro Ribeiro e Paulo Varanda?
J.G.: No Partido Socialista as coisas sempre funcionaram assim: normalmente continua como candidato quem é presidente de Câmara e reune condições para continuar a sê-lo. Este caso no Cartaxo foi atípico a nível nacional: tínhamos um presidente de Câmara eleito nas listas do Partido Socialista, mas eis que surge Pedro Ribeiro e, aqui d’el Rey, tenho que ser presidente de Câmara. Foi por capricho. Mas capacidade, não tem.
F : Paulo Varanda foi escorraçado de ser candidato?
J.G.: Paulo Varanda foi enganado pelos caciqueiros políticos. Prometeram-lhe mundos e fundos e depois não cumpriram. Por ingenuidade, ele não estava preparado para os caciqueiros políticos. Apanhou este bebé nos braços e por ingenuidade foi enganado por várias pessoas.
F : Durante muitos anos habituei-me a vê-lo protagonizar intervenções acaloradas em defesa do seu Partido Socialista, pelo qual estava eleito. Como é que tem sido este ano e picos na Assembleia Municipal na condição de eleito pelo MPC, portanto em oposição ao Partido Socialista?
J.G.: Eu fi-lo com dois sentimentos distintos. O primeiro, com tristeza. Gostaria de dar o meu melhor pelo partido que sempre defendi e do qual sou militante. Tentaram expulsar-me, mas não conseguiram. Continuo a ser militante. Sempre interferi no sentido de melhorar o funcionamento da própria Assembleia Municipal, pois houve uma altura em que aquela Assembleia era uma rebaldaria total. Neste momento funciona muito melhor.
F : Está a falar do tempo do doutor António Góis.
J.G.: Exacto. Recorda-se que na altura eu disse que ele tinha competência para tudo menos para dirigir assembleias. Insurgi-me contra o cabeça de lista do meu próprio partido porque queria que aquela Assembleia funcionasse melhor. Profissionalmente o doutor Góis é muito bom, mas não deveria ter-se metido na política, porque estas coisas não são para quem quer, são para quem tem algum conhecimento do assunto.
F : O doutor Góis na política foi uma invenção de Paulo Caldas.
J.G.: Foi uma invenção de Paulo Caldas, exacto.
F : Falou de dois sentimentos ao ser candidato pelo Movimento Pelo Cartaxo. Qual foi o outro?
J.G.: Foi um sentimento de esperança, ao reunir uma equipa que uma vez mais procurasse salvaguardar os interesses dos cartaxeiros em detrimento das politiquices.
F : Os cartaxeiros sempre confiaram no PS desde que há eleições livres no Cartaxo, mas agora foram confrontadas com uma divisão interna. Que lhe diz a sua sensibilidade sobre esta questão?
J.G.: Com Paulo Varanda como cabeça de lista o PS iria ter o maior resultado de sempre. E os números confirmam-no. Se Paulo Varanda tivesse sido o candidato, o que seria o normal e natural dado que já era o presidente, era isso que iria acontecer. Aquilo que o PS fez foi uma traição a um indivíduo que apanhou ali aquele bebé nos braços, e ao fim de dois anos, quando o bebé deixou de usar fraldas e começou a andar, tiraram-lhe o bebé. Foi uma traição a Paulo Varanda.
F : Conde Rodrigues está por detrás dessa manobra de destituição de Varanda?
J.G.: Conde Rodrigues sempre foi o mentor de Pedro Ribeiro, mas creio que não teve intervenção directa nessa decisão. Possivelmente aconselhou Pedro Ribeiro, mas julgo que não teve influência directa dentro do partido. Não faz parte da sua maneira de ser.
F : Disse que Paulo Caldas foi um visionário e que foi o presidente que mais obra fez no Cartaxo. Mas os números da dívida são exagerados e têm colocado em causa o normal funcionamento da Câmara.
J.G.: A dívida não é sustentável porque também não fazem nada para isso. Repare no exemplo do Centro Cultural, que foi uma obra de Paulo Caldas: receita do Centro Cultural para a Câmara é zero. Só serve para algumas instituições lá fazerem alguns trabalhos. É só por dizer que aquela casa está aberta. Estádio Municipal: vêem-se efectivamente lá crianças a praticar desporto, mas quanto é que isso reverte de receita para a Câmara? Zero. Despesa, e mais nada. Piscinas municipais: este ano fechadas. Receita para a Câmara: zero. O próprio parque de estacionamento tão polémico: Pedro Ribeiro foi um dos que lutou para que o parque tivesse gestão municipal, mas a gestão municipal lá está: despesa e energia tudo pago pela Câmara, para um parque que serve de garagem e está sempre cheio, noite e dia. Receita: zero. Muitos dos que lá metem os carros foram contra a construção do parque.
F : Mas porque é que a Câmara não avança para a exploração do parque?
J.G.: Pedro Ribeiro diz que não havia regulamento. Continua a desculpar-se daquilo que não consegue fazer com o mandato anterior.
F : Pelo que me está a dizer depreendo que considera justificáveis e compreensíveis os valores de dívida que a Câmara atingiu no tempo de Paulo Caldas
J.G.: Mas é claro que sim. Todas essas obras foram feitas com auxílio comunitário. O valor efectivo dessas infraestruturas é muito superior ao valor que o município teve que pagar, porque tiveram fundos perdidos de 65, de 80 e mesmo de 85 por cento. O Centro Cultural custou à Câmara quatro ou cinco vezes menos que o seu valor real. Agora até serviu de penhora.
F : Mas não o incomoda as notícias frequentes que envolvem o Cartaxo, as dívidas da Câmara, o excesso de endividamento, a necessidade de se socorrer do FAM para poder pagar salários?
J.G.: Se continuarmos a falar insistentemente de tudo isto e se não encontrarmos forma de aumentar a receita e diminuir os custos, então essa dívida cada vez será maior.
F : Como é que se aumenta a receita numa Câmara com estas características?
J.G.: Como eu estava a responder numa das questões anteriores: explorar as infraestruturas que existem. Isso significa muito dinheiro ao fim do ano. Inicialmente o Centro Cultural tinha um regulamento e eu manifestei-me contra os avultados preços que estavam a levar aos espectáculos e aos ensaios. Mas também passar de elevado em demasia para zero é errado. As piscinas não têm receitas; servem para clubes e instituições que, esses sim, têm receitas à custa dos bens municipais. A Feira dos Santos é outro caso: uma nulidade completa. Noutros tempos uma fonte de receita para a Câmara, este ano foi um descalabro autêntico. A Nersant explorou o parque de exposições e no recinto da feira estavam lá meia dúzia de vendedores que nem sei se a maior parte deles pagaram alguma coisa à Câmara.
F : Como é que explica a fraca afluência de visitantes e mesmo de comerciantes à edição deste ano da Feira?
J.G.: Não quiseram assumir aquilo que já estava previsto desde o tempo de Paulo Varanda: deslocar a Feira para junto da Praça de Toiros. Pedro Ribeiro fez uma reunião recolhendo opiniões da população – ele gosta muito de fazer reuniões – mas depois não liga àquilo que as pessoas dizem. Quase todas as pessoas disseram que seria muito melhor que a Feira fosse ali no Parque Central, junto à Praça de Toiros, mas pronto, continuou a ser lá em cima. Foi um fiasco total. Na próxima Assembleia vou pedir exactamente as receitas da Feira, mas devem ser completamente diminutas. Nem deve ter dado para pagar aos funcionários da Câmara que lá estiveram a montar as estruturas para a Expo-Cartaxo. São os funcionários da Câmara que montam a estrutura e é a Nersant que recebe as receitas.
F : E quanto é que a Nersant paga à Câmara?
J.G.: Vou pedir esses valores, mas estou convencido de que não paga nada. É o costume. É assim com a Feira dos Santos, e é assim com a Feira de Artesanato, outro disparate. A Câmara não recebe um tostão, tem que pagar a funcionários para manter aquela estrutura, os funcionários recebem e quem recebe o terrado dos artesãos é a associação.
F : Mas este género de organização é um exclusivo do tempo de Pedro Ribeiro? Ou já vem de trás?
J.G.: Não, já vem de trás.
F : Então foram Paulo Caldas e Paulo Varanda quem criaram este género de organização.
J.G.: Eu acho que é do tempo de Paulo Caldas. Não sei precisar, mas já vem de trás.
F : Paulo Varanda votou recentemente contra a viabilização do Fundo de Apoio Municipal (FAM), e teve que ser Paulo Neves (PSD) a alterar o seu sentido de voto e a viabilizar o Fundo, considerado essencial para a sobrevivência financeira do município. Considera que Varanda ficou mal nesta fotografia, tendo estado ligado à gestão que levou ao recurso a este instrumento de salvação a aflitos?
J.G.: Ao contrário do PAEL, que foi devidamente clarificado quanto às suas consequências, o FAM quando foi apresentado em executivo não tinha as contrapartidas bem definidas. Não houve um esclarecimento devido em relação, por exemplo, aos despedimentos que são obrigatórios no âmbito do FAM. Foi recentemente aprovada uma moção intermunicipal contra o FAM, precisamente por essa razão. Foi por isso que Paulo Varanda votou contra, por não estarem clarificadas as contrapartidas que o FAM implicava na questão dos despedimentos.
F : Mas a Câmara não terá pessoas a mais atendendo às necessidades do município?
J.G.: Uma das bandeiras de Pedro Ribeiro foi: “vamos fazer as pequenas grandes obras”. O que é facto é que não fez nada. Recorreu a emprego precário; foram contratar pessoas ao fundo de desemprego para andarem a fazer esse tal trabalhinho. Na Câmara do Cartaxo, como em quase todas as instituições públicas deste país, não há é aproveitamento de recursos humanos. O edifício está cheio de técnicos superiores, mas gente para fazer essas pequenas grandes obras cada vez há menos. É um problema que já vem de há anos a esta parte. O que a bancada do PS me disse é que não vê a possibilidade de um administrativo ir limpar uma rua. Mas o problema foi na altura da admissão.
F : Vê jeito de mudar de ideias e no final do mandato reconsiderar a opinião que expressou nesta entrevista sobre Pedro Ribeiro?
J.G.: Eu ficaria extremamente feliz que isso acontecesse, mas temo que isso não vá acontecer. Veja o que está a suceder em Vila Chã de Ourique: não abriram a porta, a reunião foi feita na rua… quero dizer, andamos aqui a brincar à política.

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FONTEEntrevista: Nuno Cláudio
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