“O que é e para que serve a Associação Vila Museu do Vinho? Ninguém sabe responder. Nem eu sei a resposta”

António Torrão é presidente da Freguesia de Aveiras de Cima, cargo para o qual foi eleito com uma maioria absoluta esmagadora em 2013. Sem papas na língua e não demonstrando qualquer receio de adoptar um discurso directo e frontal, Torrão considera que a Ávinho corre o risco de se transformar num evento monótono e sem grande interesse para a população. O autarca reivindica uma organização mais aberta aos contributos das forças vivas da região, ao passo que cai em cima da AVMV: "Há alguém que ergueu um muro e construiu um portão, e já se julga o dono da Associação", afirma Torrão.

Torrão resolvia já o problema das interrupções de fornecimento de água ao domicílio: um mês sem pagar a água, e certamente acabariam as faltas de água nas torneiras. Ai ai, senhor Torrão...

F : A edição deste ano da Ávinho vai ter novidades relevantes em relação às edições anteriores?
A.T.: Estamos a 17 de Fevereiro e ainda não há definição de coisa alguma, para além da data que já está estabelecida: 10, 11 e 12 de Abril. A Ávinho está a perder o gás ao fim de todos estes anos. Mesmo as pessoas que moram no perímetro onde o evento acontece estão a perder a vontade. Há novidades que poderiam ser introduzidas neste certame, e a Câmara, como impulsionadora do evento, deveria promover esse debate. É sempre a mesma coisa e começa a ser cansativo.
F : A 17 de Fevereiro e ainda nada definido? Não é demasiado tarde para que não haja nada definido em relação a um certame que se realiza daqui a mês e meio?
A.T.: Não há nada. Já deveria estar definido há muito, já deveria estar a ser divulgado nas redes socias e na comunicação social. Mas nada. Não se contratam artistas ou grupos musicais a um mês dos eventos, e não se define uma organização desta natureza com tão pouca antecedência. Contrata-se em Novembro ou Dezembro do ano anterior, quanto muito. Ainda não vejo a Câmara com abertura para ouvir as pessoas e para fazer diferente, e da parte da Associação Vila Museu do Vinho (AVMV) também os vejo muito fechados. Há alguém que ergueu um muro e construiu um portão, e já se julga o dono da Associação. Mas o que é que é a Associação Vila Museu do Vinho? Vamos imaginar este cenário: chega aqui um casal de fora e pergunta a alguém que encontre na rua o que é e onde fica a Associação Vila Museu do Vinho. Ninguém vai saber responder. Nem eu saberei responder, e sou o presidente da junta. E quando nem às pessoas da terra se consegue explicar e passar esta mensagem, então fará às pessoas de fora. Se perguntarmos a todas as pessoas de Aveiras, 90 por cento não saberá explicar o que é este projecto Vila Museu do Vinho. Nem eu sei.Tu sabes o que é, pergunto?
F : É uma boa pergunta, de facto. Sorte a minha que sou jornalista, e não tenho que dar respostas.
A.T.: Pois, eu não sei. Têm dinheiro na conta, mas o dinheiro serve para quê? Para estar na conta, e para dizer que têm dinheiro na conta? E onde está a promoção do vinho e da Vila Museu do Vinho? A intenção inicial era fazer formação aos agricultores, promover acções de formação, leva-los a feiras de agricultura, enfim, desenvolver uma série de actividades. Nada disso é feito. O trabalho da Associação deveria ser muito mais abrangente do que trabalhar com os poucos sócios que tem.
F : Então esta falta de dinâmica da Ávinho também passa um pouco pela inércia da Associação Vila Museu do Vinho?
A.T.: Eu penso que sim. As ideias e os projectos têm que evoluir. Não podemos agora passar a vida inteira a fazer o mesmo, sempre da mesma maneira. Já vamos para a 11ª edição, e temos que ouvir as pessoas. Certamente que iremos ouvir algumas coisas fora de contexto, mas também, com toda a certeza, iremos ouvir contributos muito válidos e significativos.
F : Que novidades poderiam ser introduzidas na Ávinho, que transformassem o certame em termos qualitativos?
A.T.: Seguramente que haveriam boas e variadas ideias, caso as pessoas fossem ouvidas. Há muita gente com boas ideias, ideias válidas, que poderiam engrandecer a Ávinho. Levar a cabo um evento desta natureza sem ter ganho, por exemplo, a restauração local como parceira da Ávinho é uma das falhas que aponto. A restauração e a gastronomia local como parceiros da Ávinho são, no meu ponto de vista, essenciais para este certame. É essencial envolver todas as forças vivas da região neste evento, porque sós não chegamos a lado nenhum.
F : O presidente da freguesia vive precisamente no coração do perímetro da Ávinho. Nota-se que as pessoas têm vindo a desmoralizar com o certame, por ser repetitivo e pouco dado à oferta de novidades?
A.T.: Mas sem dúvida alguma. Se houvesse mais aceitação de algumas ideias que as pessoas vão dando, todos teríamos a ganhar com esse contributo e com essa abertura. A Câmara, nos anos anteriores, cometeu o erro de se fechar em sí, de organizar o certame sem ouvir ninguém. E agora que resolveu abrir as portas ao contributo externo, fê-lo em exclusivo para a Associação dos Agricultores. Ora, isto tem que ser uma coisa mais abrangente, e todas as forças vivas da freguesia têm que participar nesta organização. As colectividades, os produtores de vinho, a restauração.
F : Os produtores de vinho são absolutamente fundamentais nesta organização. Afinal, trata-se da festa do vinho.
A.T.: Sem dúvida, e não apenas os produtores da freguesia. A Ávinho tem que se abrir aos produtores de toda a região, porque esta não pode ser uma iniciativa exclusiva e fechada na fregueisa. Não tem havido um trabalho no sentido de cativar os produtores de vinho que não são da freguesia. Tirando o Colaço, que é de Alcoentre, nenhum outro produtor vem cá à Ávinho. Seria necessário ganhar a colaboração das pessoas aqui das ruas, que têm os espaços e poderiam ceder a esses produtores. Enfim, o certame poderia funcionar de outra forma.
F : O que é que é necessário fazer para haver essa abertura que conduza a uma evolução na organização da Ávinho?
A.T.: Tem que haver outra estrutura organizativa. Dou o exemplo do ganho em torno da venda das canecas: a Associação Vila Museu do Vinho (AVMV) fica com o lucro da venda das canecas. Ora, aqui poderia haver uma mudança: a AVMV ficaria com uma percentagem sobre a venda das canecas, mas depois todos os anos haveria uma entidade diferente a beneficiar do lucro dessa venda. As próprias instituições e as colectividades sentem-se um pouco com esta situação.
F : Qual seria a repartição justa?
A.T.: Por exemplo, a AVMV ficaria com 10, 15 ou 20 por cento do valor da venda das canecas, mas depois todos os anos escolhia-se uma entidade diferente para beneficiar com o valor restante. Seria uma forma diferente de incentivar todos os anos outras pessoas a participar mais activamente no evento.
F : Um modelo idêntico ao da festa anual.
A.T.: Exactamente. Dessa forma as pessoas motivavam-se muito mais. Neste caso, as pessoas dizem que é sempre para a Associação Vila Museu do Vinho, e questionam o que fazem eles com esse dinheiro. Começa-se a criar aqui uma situação complicada. Eu conheço bem esta festa porque vivo bem aqui no centro da mesma. Já sei que durante 3 noites não vou dormir, e conheço bem o sentimento das pessoas em relação à Ávinho. Nos primeiros 4 ou 5 anos interessaram-se pela festa, e até participaram, mas a partir daí começaram a perder o interesse. Primeiro a Ávinho passou de uma coisa simples para uma coisa em grande. Elevou-se muito a fasquía. E mais tarde, como diz que não havia dinheiro, caiu-se de bico abaixo.
F : Estás a falar exactamente de quê quando te referes a uma súbita e brusca subida da fasquía?
A.T.: Contratação de artistas caros, por exemplo. Custam dinheiro aos montes. Os Ranchos folclóricos participam neste desfile por uns míseros 150 euros e também se sentem um pouco defraudados com esta situação. Vem um tipo qualquer ali e numa hora, hora e meia, leva 5 ou 6 mil euros só para ele, fora o som e o resto que é pago à parte. E depois andam aqui estas pessoas com um trabalho imenso para ficarem com migalhinhas. Ora, essa é a forma mais fácil de organizar um evento: pega-se no telefone e contrata-se um fulano com nome para figurar nos cartazes. Passa-se o cheque e já está. Telefona-se ao Isídro, da Póvoa da Isenta, e ele mete cá tudo: o palco, as luzes, o som e trás os artistas. O trabalho que a organização tem é passar o cheque. É simples.
F : Poderia ser diferente, no tocante à animação do certame?
A.T.: Mas sem dúvida. Temos no concelho muita gente que é capaz de cantar, outros que são capazes de dançar e outros que são capazes de tocar. Temos cá tanta coisa, tanta variedade e tanto talento, que se calhar aproveitávamos bem para engrandecer a Ávinho com valores locais. Não digo que não se trouxesse alguém com algum nome à sexta ou ao sábado, mas nunca com esta envergadura. É demasiado dinheiro gasto para hora e meia apenas.
F : A Ávinho tem condições para se tornar num evento de maior dimensão, algo parecido em grandeza com a Feira de Maio, por exemplo?
A.T.: Sem dúvida que tem, desde que se consiga ter abertura para envolver as forças vivas da freguesia neste propósito. Envolver a restauração neste projecto, de forma a que durante aqueles dois dias, pelo menos, os restaurantes possam apresentar pratos da região. A Ávinho tem que ser muito mais do que um concerto, comprar uma caneca aqui, beber uns copos de vinho ali e depois cair lá mais abaixo. Isso não é coisa alguma.
F : Muita gente diz que a Ávinho é uma manifestação de bebedeiras e pouco mais.
A.T.: Eu não vejo as coisas dessa forma, não revejo o evento nesse género de crítica. Há pessoas que criticam, mas depois não se interessam muito pelas coisas. Eu tenho o cuidado de pedir o relatório da Cruz Vermelha e dos Bombeiros em relação à Ávinho no que diz respeito a ocorrências dessa natureza, e no ano passado houve 4 ou 6 ocorrências. Num evento de três dias, onde o que se serve é vinho, é um valor quase sem expressão, e tem vindo a diminuir de ano para ano. Em alguns casos o consumo excessivo verificava-se mais nas senhoras, por causa da história do vinho abafado, que é um vinho doce, que se bebe bem, mas que tem 25 graus. Bebe-se bem, mas passado um quarto de hora já se vê tudo à volta. Mas desde que se deixou de servir esse tipo de vinho que as coisas estão muito mais controladas.
F : Será possivel começar a pensar numa 12ª edição mais abrangente, com outro patamar organizativo?
A.T.: Perfeitamente possivel. Temos é que envolver as pessoas, as forças vivas da terra. Ouvir contributos, e começar a trabalhar atempadamente na organização do evento. Não é como este, que a cerca de mês e meio ainda não tem nada definido para além da data.

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