“O problema do António José Matos é querer afirmar-se à pressa como candidato do PS à Câmara”

António Jorge Lopes fala do chumbo do Relatório de Contas e Gerência em sede de Assembleia Municipal, e aproveita para mandar uma bicada no presidente da AM de Azambuja.

Segundo Lopes, o presidente da AM de Azambuja anda cheio de pressa para se afirmar como candidato à Câmara...

F : Como é que analisas o chumbo do Relatório de Contas e Gestão alusivo a 2014 em sede de Assembleia Municipal?
A.J.L.: Este chumbo significa tudo aquilo que nós e todas as oposições viemos a antecipar, ou seja, que haveria um momento em que as engenharias financeiras que se andaram a fazer durante vários anos, em particular após 2004 com a EMIA, a juntar a uns erros de gestão que foram cometidos, haveriam de resultar nesta situação. Não era possivel andar a sacudir para baixo do tapete durante mais tempo, e a má gestão da Câmara veio ao de cima, sendo este o pior resultado líquido do exercício. Por outro lado, a Câmara viu reduzir a sua capacidade de endividamento de 7 milhões para 100 mil euros devido à integração da dívida da EMIA, capacidade essa que estava a reconquistar aos poucos, mas que se tratava de uma reconquista virtual, como agora ficou demonstrado.
F : Como é que se chegou a este estado de coisas?
A.J.L.: É o acumular de engenharias financeiras que foram sendo feitas. Nos dois mandatos anteriores dizia-se que nenhuma destas engenharias financeiras teriam custos para o município, que não haveriam problemas no futuro, que se tratavam de meras operações contabilísticas. A verdade está à vista, bem espelhada nas contas a 31 de Dezembro de 2014. Foi o autismo e a arrogância de todos os eleitos do Partido Socialista, que desmentiam aquilo que as oposições diziam, e que agora encolhem os ombros, dizendo que nada mais há a fazer.
F : Que reflexos terá para o município esta realidade das contas da autarquia de Azambuja?
A.J.L.: A Câmara já tinha dificuldades muito sérias, com um passivo muito grande. Essa dívida agora não pode crescer por questões legais. Quando as Câmaras agora dizem que reduziram o número de dias que levam a pagar aos fornecedores, bom, a verdade é que a legislação actual obriga as Câmaras a comprarem praticamente com dinheiro na mão. E como têm que pagar a pronto, é natural que os prazos de pagamento a fornecedores vão baixando.
F : Luís de Sousa é conivente com Joaquim Ramos e pode ser responsabilizado pelo estado calamitoso das contas da Câmara? Ou era o anterior presidente quem decidia sozinho e cozinhava per si as chamadas engenharias?
A.J.L.: Custa-me a admitir que o actual presidente, que foi vice-presidente de Joaquim Ramos durante 12 anos, tivesse assistido a todas estas engenharias sem ter concordado com elas. Porque se tivesse discordado, só lhe restava um caminho, que era ter-se demitido, como aconteceu com outros vice-presidentes por esse país fora. Do ponto de vista da gestão imediata, Joaquim Ramos utilizou os meios que tinha ao seu dispor, mas todas as oposições foram incansáveis a alertar que estas engenharias haveriam de ter custos no futuro, coisa que o próprio Ramos sempre garantiu que não iria acontecer. Ramos olhou exclusivamente para os mandatos dele, borrifando-se completamente para aquilo que iria ser o dia seguinte.
F : O mais caricato é que o próprio Luís de Sousa pactuou com este tipo de práticas que hipotecaram o futuro, e depois concorreu à presidência no mandato seguinte, desejoso de receber esta herança…
A.J.L.: Eu nunca vi o doutor Joaquim Ramos com uma arma apontada à cabeça dos seus vereadores, nem tão pouco o vi com uma G3 apontada à cabeça dos deputados socialistas eleitos na Assembleia Municipal, obrigando-os a votarem favoravelmente aquilo que votaram. E eles votaram sempre a favor destas engenharias.
F : Eram ludibriados pela capacidade de discurso de Ramos?
A.J.L.: Eu não aceito esse argumento, porque houve sempre pessoas de todas as oposições que puseram em causa aquilo que Joaquim Ramos dizia. Algumas eram de tal forma flagrantes que só não via quem não queria ver. Aos eleitos socialistas interessava não ver, dentro daquela lógica de que “isto nunca vai à falência”.
F : Luís de Sousa perdeu uma oportunidade de ouro de se ter ido embora na hora certa e de se ter livrado desta grande trapalhada?
A.J.L.: Ele disse sempre que queria terminar a sua carreira política como presidente de Câmara, e conseguiu. Aliás, anunciou os motivos da sua candidatuta tendo por base esse único objectivo: terminar a sua carreira política como presidente de Câmara.
F : Luis Benavente, António José Matos ou Silvino Lúcio: qual dos três se perfila como o sucessor natural de Sousa como candidato do PS à Câmara de Azambuja?
A.J.L.: Não tenho por hábito comentar situações de partidos que não são o meu, mas abro uma excepção para dizer que não me parece assim tão certo que Luís de Sousa não vá ser de novo candidato à presidência em 2017. Tenho dito em reuniões internas do meu partido e da própria Coligação que o mais provável é que Luís de Sousa se vá recandidatar. Será o nome mais consensual dentro do PS, o mais provável de ser aceite pelas estruturas superiores do partido, que não colherão de bom grado soluções de ruptura sem apoio das bases, ou com apoio das bases mas com rupturas a outros níveis. Mas isto sou eu a dizer, na qualidade de espectador. É apenas uma leitura de quem está de fora.
F : E os nomes que apontei?
A.J.L.: São três nomes, como há outros mais que o PS tem. Cada um tem vantagens e desvantagens, como tudo na vida, mas será o PS a ter que tomar as suas decisões.
F : António Jorge Lopes vai recandidatar-se às próximas autárquicas em Azambuja?
A.J.L.: Não devo ser o candidato à Câmara de Azambuja nas próximas eleições. Fui candidato em 2009 quando ninguém quis ser, e tinha acabado de dizer há pouquíssimo tempo que não queria ser candidato. Portanto, não vou fazer juras eternas seja do que for. Mas posso garantir que não estou a fazer nada de nada para que seja candidato, já transmiti internamente essa intenção de não ser candidato, já expliquei as razões que me levam a pensar assim. E só não renunciei ao actual mandato porque, tendo em conta a situação da Câmara, eu tenho a obrigação de levar este mandato até ao fim para evitar que se cometam mais erros, como já evitei uns quantos. Eu costumo dizer, em jeito de brincadeira: se me derem uma sondagem com 90 por cento de hipóteses de ser eleito presidente e uma margem de erro de 0,1, eu ainda pondero a possibilidade de me recandidatar. Sou o vereador da oposição com mais anos de Câmara, por determinação dos eleitores, e a fazer o papel do odioso. Podem dizer-me que em algumas coisas tive razão antes de tempo, mas a verdade é que razão não dá votos. Por outro lado, admito que não sou um bom produto de campanha, sob o ponto de vista eleitoral, facto que assumo sem qualquer problema.

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FONTEEntrevista: Nuno Cláudio
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