Aveiras: desentendimento entre Junta e cidadã Paula Torres por tentativa de levantamento de ossadas

A história do desentendimento entre a cidadã Paula Torres e a Junta de Freguesia de Aveiras de Cima: um caso bem elucidativo de como governar em proximidade também pode ser uma tarefa exigente e complexa. Muitas vezes a sensibilidade dos munícipes choca com a normalidade dos procedimentos.

Paula Torres é cidadã da Freguesia de Aveiras de Cima. Tem 44 anos e vive nos Casais das Inglesas. Há seis anos passou por um dos momentos mais difíceis da sua vida, quando então irmão e pai faleceram com um intervalo temporal de um mês e dez dias. O irmão morreu com cancro aos 42 anos e deixou dois filhos menores, dos quais Paula é cuidadora.

Mas os fardos da vida de Paula Torres não ficam pelas memórias de há seis anos. A mãe está demente e acamada e vive a seu encargo. Talvez por todas estas razões a sensibilidade para as questões relacionadas com a morte e o cemitério esteja mais avivada. Esta cidadã contactou o Fundamental e contou-nos o que lhe vai na alma e lhe adensa o sofrimento por estes dias, quando soube que as ossadas do pai iriam ser levantadas. Conta-nos que tal iria acontecer sem a sua presença, sequer conhecimento.

O Fundamental fez o que nos compete fazer nestes casos: depois de ouvir e registar toda a história relatada pela cidadã Paula Torres, confrontámos o Presidente da Junta de Freguesia de Aveiras de Cima com estas alegações. António Torrão garantiu ao Fundamental que todos os familiares de munícipes falecidos e que estejam na iminência de verem as ossadas dos seus entes queridos serem levantadas foram previamente avisadas por carta registada.

Para se perceber melhor a situação: o Cemitério de Aveiras de Cima está praticamente sem espaço. O novo cemitério tarda em ser uma realidade e os espaços para enterrarem defuntos são absolutamente escassos. Mais não resta à Junta de Freguesia que, em devido tempo, recorra ao levantamento de ossadas para libertar espaço para novos defuntos, um passo que naturalmente é dado quando os corpos estão, passados alguns anos, em condições de serem retirados das sepulturas.

Naturalmente que este é um processo melindroso, que mexe com a sensibilidade de muitas pessoas. António Torrão assegura que tudo está a ser feito consoante os procedimentos que são normais de cumprir no Cemitério da Freguesia. Torrão, acerca deste caso em concreto, assegura: “Muitas vezes cometemos o erro de facilitar a presença de pessoas aquando do levantamento de ossadas, quando na verdade quem deve estar presente serão apenas as pessoas tecnicamente habilitadas para estas tarefas delicadas”.

Torrão garante que todos os familiares de munícipes falecidos são avisados por carta registada, o que neste caso aconteceu há algum tempo. O corpo do pai de Paula Torres não estava em condições de ser levantado da sepultura, pelo que acabou por permanecer no lugar onde está sepultado. Paula Torres queixa-se de não ter sido avisada, sequer chamada ao local. Torrão explica: “Estamos numa época de emergência, de pandemia, a viver uma situação como nunca vivemos, as pessoas não podem sair à rua e o cemitério está encerrado ao público. Fizemos o que tínhamos que fazer, dentro das nossas competências”.

António Torrão acrescenta: “Se já tivéssemos o novo cemitério não seria necessário proceder ao levantamento de ossadas para libertar espaço, e recordo que estamos a falar de terrenos públicos, da Junta. Já estamos a deixar os corpos nos terrenos mais tempo até do que o normal nestes casos, não podemos fazer mais nem melhor”. Torrão assegura: “Não abrimos o cemitério por razões óbvias: vivemos em estado de emergência e não é só o cemitério de Aveiras de Cima que esta encerrado, são todos os cemitérios do país, pelo que não faria sentido algum estar a chamar pessoas para assistir a levantamento de ossadas”.

Este é um caso bem elucidativo de como governar em proximidade também pode ser uma tarefa exigente e complexa. Muitas vezes a sensibilidade das pessoas choca com a normalidade dos procedimentos. “Eu disse à senhora que o Presidente da Junta não é obrigado a conhecer todos os procedimentos de expediente diário, mas também lhe apresentei um pedido de desculpas, tal como o fizeram as funcionárias da Junta de freguesia”, assegurou António Torrão. Um facto que também foi confirmado por Paula Torres.


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VIAAlexandre Silva
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