Doutor Clode morre aos 89 anos e deixa o Carregado mais pobre

William Clode faleceu na madrugada deste domingo, dia 17 de Julho de 2016. O doutor Clode, como é conhecido por estas paragens, será porventura uma das figuras de sempre da história do Carregado, e fez questão de ser sepultado na sua terra de sempre, não obstante ter vivido os seus últimos dias em Lisboa. O funeral realiza-se na próxima terça-feira. No Carregado.

William Henry Clode, uma figura singular na história do Carregado

William Henry Clode faleceu na madrugada deste domingo, dia 17 de Julho de 2016. O doutor Clode, como é conhecido por estas paragens, será porventura uma das figuras de sempre da história do Carregado. Fez questão de ser sepultado na sua terra de sempre, não obstante ter vivido os seus últimos dias em Lisboa. O funeral realiza-se na próxima terça-feira, no Carregado. Nascido na Madeira há quase nove décadas, William Clode veio para o Carregado nos anos sessenta e depressa se transformou numa figura adorada e respeitada pelo povo, pelo mesmo povo que o próprio não hesitava em ajudar exercendo a sua profissão de médico a troco… de nada para com aqueles que não podiam pagar os seus serviços. Mais do que um médico, revelou-se um brilhante cientisa, humanista excepcional, poeta, escritor e artista plástico nas horas livres. Um homem notável, que o Fundamental teve oportunidade de entrevistar em Outubro do ano 2012 e cuja entrevista aqui recordamos. Já de seguida.

Momento em que William Clode assinou dedicatórias nos livros de autor oferecidos ao director do Fundamental
Momento em que William Clode assinou dedicatórias nos livros de autor oferecidos ao director do Fundamental

(Entrevista de Nuno Cláudio publicada no Fundamental em Outubro de 2012)
Médico de profissão, carregadense de adopção

William Henry Clode. Pelo nome pode até parecer de outras paragens mais longínquas, mas é portuguesíssimo de gema. Nasceu na Madeira mas desde cedo que se deixou adoptar pelo Carregado. E concerteza terá feito uma descoberta tremenda no campo da ciência médica, que muito possívelmente apenas será reconhecida a título póstumo. Entrevista de Nuno Cláudio.

O que significou para o doutor William Clode a homenagem que a freguesia do Carregado resolveu fazer-lhe? 
Tocou-me muito. Eu estou nesta área profissional há 50 anos, e vivo no Carregado há 47. É uma homenagem que se deve a pessoas amigas, nomeadamente ao engenheiro Hélder Baptista, que foi o mobilizador da mesma.
Como é que o Carregado se atravessou na sua vida, uma vez que o doutor é madeirense?
O doutor Amaral é meu amigo desde a faculdade, e na altura pediu-me que o viesse substituir nas férias e nas suas ausências. Eu fui conhecendo Alenquer, depois o Salvador insistiu bastante comigo para que viesse para o Carregado – o Salvador, pai dos irmãos que têm as bombas de gasolina e a lavagem auto no Carregado. Este prédio estava em construção e eu aluguei por 700 escudos, quando os alugueres na altura andavam todos na casa dos 300 escudos. Toda a gente me chamou louco.
Porque decidiu pagar tanto pelo aluguer, doutor?
Era um prédio novo, e eu atirei-me de cabeça. Mesmo assim o senhor Rita, que era o meu senhorio, ainda dizia algum tempo mais tarde que eu estava a pagar pouco. Acabei por comprá-lo por 700 contos. É essa a razão pela qual estou aqui.
Durante a homenagem foi relembrada a sua faceta de amigo do povo do Carregado, nomeadamente dando consultas que não cobrava aos carregadenses mais carenciados.
Eu não vim para cá para fazer negócio, mas é evidente que tinha que ganhar a vida, pois tinha família, cinco filhos. Na altura ganhava 600 escudos no Hospital de Santa Maria e relacionando o que ganhava com as despesas que tinha, ganhava pouco…
O que não o impediu de ajudar os carregadenses da forma que foi referida na homenagem.
Eu não nasci para ser um frade. Sempre que eu via que havia necessidade ajudava, mas dentro das minhas possibilidades.
Que comparação é possível de estabelecer entre a sociedade contemporânea e a realidade dessa altura?
Quando eu oiço falar das dificuldades de hoje em dia, é inevitável que compare com há uns anos atrás. Eu apanhei a Segunda Guerra Mundial, quando havia muita falta de tudo, quando então se comia muito milho em papa, que não era suficiente para a população. Era tudo racionado, mesmo depois do final da guerra. Mas as pessoas não têm memória; dizem que hoje se vivem dificuldades, mas esses é que eram tempos verdadeiramente difíceis. Eu passei por tempos em que nem dinheiro tinha para tomar o café. Havia quem tivesse, mas não com a facilidade com que hoje se tem acesso a tudo. Mas são tempos passados. Só falei deles porque você me perguntou.
Como é que vê os tempos que estamos a viver? Escassez de recursos como a água atendendo à quantidade de população mundial, alterações climáticas preocupantes, decadência das economias mundiais e das instituições políticas, revoltas sociais e incompatibilidades religiosas…
Sabe, sempre houve países mais ricos que outros, mas à Europa ainda não chegou aquela miséria que vemos nos países de África, nem nada que se compare. É lamentável que estejamos a viver num semi-país, mas isso não significa necessariamente que seja o fim do mundo, porquanto se assim fosse já o fim do mundo teria chegado a esses países de África, e há muito tempo.
Da leitura de um dos seus livros fiquei com a sensação de que o doutor tem uma situação mal resolvida relacionada com uma pesquisa que no seu entender foi longe mas cujo mérito nunca foi reconhecido.
O livro chama-se “O cancro que procurei conhecer”. Não é fácil fazer investigação no nosso meio científico, porque fica dispendiosa e não motiva o investimento nesta área. O Instituto de Oncologia tinha algumas possibilidades e eu comecei a trabalhar com ratinhos. Irradiando o ratinho com cobalto, o animal desenvolvia muitos cancros. Conclui que enxertando pele de outros ratinhos de estirpes completamente diferentes, o cancro não se desenvolvia.
Tanto assim foi que aplicou em si próprio essa técnica, pelo que sei, com resultados bastante positivos.
Você leu o meu livro, estou a ver. Eu divulguei essa teoria no meio científico e através das revistas da especialidade….
Qual foi a reação generalizada?
Toda a gente dizia bem, mas há muitos São Tomés. O único ser humano no qual apliquei esta técnica foi em mim próprio, com resultados positivos. A deontologia médica torna muito complicado que se apliquem novas experiências no homem. Eu fui operado a um cancro na língua e pensei: se funciona nos ratinhos, porque não há-de funcionar em mim?
Teve que assinar um termo de responsabilidade?
Não, nada disso. Fui eu próprio que o fiz em casa, com a ajuda da minha mulher, que era médica. Encontrei uma doadora de um bocadinho de pele, uma pessoa de cor, e fiz o enxerto. Ao fim de um mês desapareceu o cancro, as defesas do organismo reagiram ao enxerto.

William Clode, um artista singular, para lá do talento na área da medicina e da ciência.
William Clode, um artista singular, para lá do talento na área da medicina e da ciência.

O que é que é necessário fazer para que fique provada, ou reconhecida, a sua teoria?
Para dizer que isto é uma verdade insofismável é necessário… olhe, as pessoas ouvem, acham engraçado, mas depois vai uma distância até ao ponto de ser reconhecido. Alguns colegas meus entusiasmaram-se com esta experiência, como um americano, com quem não mantive contacto. Alguns aspectos na investigação são secretos precisamente para que não haja quem leve as descobertas para outro lado. Eu não tive qualquer preocupação com isso. O que eu posso dizer é que os resultados são garantidos nos ratinhos…
E em si também, doutor.
Aí não posso garantir a cem por cento. Passaram apenas 11 anos, o que é pouco tempo para casos destes.
Que papel têm a poesia, as pinturas e as cerâmicas na sua vida?
É uma maneira de ocupar o tempo. Há coisas que faço e há outras que adquiro. Na poesia há pessoas muito exigentes… tão exigentes que escrevem poesia que nós nem entendemos. A minha idade faz-me pensar que isto está no fim, não vivemos eternamente, mas a minha maneira de ver a poesia e mesmo a pintura é associar a qualidade àquilo que nos toca cá dentro, no nosso íntimo – uns dizem que é no coração, outros na alma, outros no cérebro. Enfim, seja onde for. Tenho tido a preocupação de fazer poesia que se sinta, uma poesia que seja sentida por quem lê. Tenho dois livros para publicar agora em breve.

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VIANuno Cláudio
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