
O arquivo histórico Ephemera, de José Pacheco Pereira, voltou a Torres Vedras e mais concretamente à Biblioteca Municipal para desta vez abordar a temática da censura durante o Estado Novo. Corte-se… é o nome da exposição que está patente neste espaço desde sábado, dia 23 de Fevereiro.
Nesta mostra estão expostos diversos materiais que integram um vasto arquivo de recortes e despachos da censura, originais, relativos a jornais e livros, incluindo alguns exemplares de livros que durante o Estado Novo foram proibidos ou parcialmente censurados pelo tão conhecido lápis azul. A vertente iconográfica não ficou de fora nesta mostra com alguns cartazes alusivos à temática respectiva. Corte-se… integra ainda um documentário sobre o tema da censura durante o Estado Novo que inclui uma visita à parte do Arquivo Ephemera que contém vasto material sobre o mesmo.
Presente na inauguração desta exposição esteve a vice-presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Laura Rodrigues, que referiu a propósito da mesma a “importância de resgatar a nossa História”, até porque “ainda é difícil olhar para a nossa História recente”, acrescentou a autarca, que agradeceu ainda a José Pacheco Pereira as evidências por ele trazidas por meio desta mostra, as quais “contribuirão certamente para se criar um futuro melhor”.
Na sua intervenção, este historiador e político afirmou que as pessoas não têm a noção da eficácia da censura, que “foi o melhor instrumento do Estado Novo”. “Não existe nenhum país na Europa em que a censura tenha durado tanto tempo ininterruptamente”, acrescentou. Pacheco Pereira referiu que ele próprio teve a experiência concreta da censura porque até 1974 todos os seus livros foram censurados.
Segundo o proprietário do Arquivo Ephemera “um dos falsos mitos é o de que a censura não era inteligente”, explicando que esta não se restringiu ao domínio da política em si mas abarcou também outros domínios, nomeadamente no que diz respeito aos valores da autoridade em geral, valores sociais conservadores, hierarquias sociais, e de uma forma geral a tudo o que poderia colocar em causa a ideologia e a estabilidade do regime.
Também segundo José Pacheco Pereira, a censura, que se prolongou por três gerações, criou uma “cultura do consenso”, ensinando a não divergir. “Gerou uma cultura abafada, claustrofóbica; quando se levantou a tampa saiu tudo cá para fora, mas a mentalidade não mudou”, concluí Pacheco Pereira. O historiador, também na ocasião, confidenciou que o espólio que constitui a exposição esteve quase a ser vendido para os Estados Unidos, tendo a sua aquisição para a colecção Ephemera representado um investimento financeiro significativo.
Embora pequena, esta é a maior exposição sobre a censura já realizada em Portugal, tendo já passado, na mesma dimensão, por Condeixa e Óbidos e, num formato mais alargado, por Lamego. O Barreiro será a próxima paragem de Corte-se…, que pode ser visitada até 23 de Março em Torres Vedras.
























