Comunismo: Equívoco ou mentira?

Opinião de Conceição Maurício

Consigo entender os motivos que levaram ao surgimento da doutrina comunista e concordo até com os seus princípios. Não defendo, nem posso defender, a exploração do homem pelo homem, ou uma sociedade onde não exista igualdade de oportunidades para todos ou em que os direitos de cada indivíduo possam ser diferenciados em função do nascimento, cor da pele ou outros, que não e apenas a sua contribuição para essa sociedade.

E de uma forma simplista é neste último aspecto que consiste a minha grande divergência em relação aos princípios do comunismo, entendendo este como a forma final do socialismo. A revolução industrial e o “boom” que a mesma trouxe na produção fabril e na necessidade de contratação crescente de operariado, levou a que muitos senhores, donos de empresas e sem escrúpulos, lucrassem desmedidamente com a escravização dos seus operários, na altura completamente desprotegidos com a ausência de leis que o impedissem.

Como é óbvio, não existirá ninguém que possa ser apelidado de uma pessoa íntegra e moralmente bem formada, que possa concordar com um sistema onde uns lucram desmesuradamente à custa de outros que apenas e só não tiveram a sorte de ser bafejados com um bom nascimento ou qualquer outro factor que, no mesmo plano, lhes tivesse proporcionado esse lugar vantajoso. Mas se posso concordar com os motivos e com os princípios, já não se passa o mesmo com os métodos para lá chegar, porque simplesmente já provaram que não funcionam.

A URSS e a falência do seu sistema, escancarou-se ao mundo, em toda a sua podridão, com a queda do muro de Berlim. Quando tal aconteceu, eram notórias as diferenças entre as duas alemanhas e o atraso, a pobreza e submissão dos povos que faziam parte daquele bloco, chocaram o mundo. Ainda hoje, ninguém escolhe emigrar para qualquer país de ideologia comunista, de onde vêm as notícias mais notórias sobre a falta de liberdade ou até mesmo de pobreza crescente.

Porque falha o método comunista que apenas se consegue manter recorrendo à repressão? Porque enquanto o homem tiver as características que tem, não faz parte da sua natureza aceitar que a distribuição da riqueza se faça de forma igualitária, quer a pessoa trabalhe muito, ou pouco, ou mesmo não faça nada. Esta prática leva à desmotivação, que arrasta a diminuição da produtividade e com ela a redução da riqueza a distribuir, tornando-se numa bola de neve que acorda o descontentamento e apenas deixa aos sistemas, a repressão, como forma de subsistir e de manter o poder e as regalias para uns poucos que conseguiram tal privilégio (nomenklatura).

Assim, o comunismo tornou-se sempre numa ditadura de esquerda, onde quer que fosse implantado. Provado que foi o falhanço deste sistema, porque continua a existir gente que o defende? Confesso que para mim é uma incógnita, porque nenhum desses a quem eu já coloquei a pergunta, o consegue explicar. Muitos deles amigos meus, ou outros que me merecem toda a consideração pela sua postura na vida, continuam agarrados aos princípios sem conseguirem explicar porque tais princípios nunca funcionaram na prática, mas mesmo assim mantendo a sua. Medo de reconhecer que toda a vida acreditaram em algo que afinal não era o que parecia? Pode ser uma explicação para os mais velhos. Convicção de que ainda nem tudo está perdido e que os princípios merecem uma nova oportunidade? Pode ser uma explicação para os mais novos.

Mesmo assim, fica a dúvida em relação ao facto de não conseguirem reconhecer os erros e injustiças duma antiga URSS, ou de uma Coreia do Norte, ou de uma Venezuela… Se consigo compreender que, antes da queda do muro de Berlim, toda a triste realidade da URSS estivesse oculta e que muitos que a defendiam não a conhecessem, já não posso compreender que os altos dirigentes que visitavam Moscovo nessa altura não se tivessem apercebido do que lá se passava e que lutassem para que em Portugal fosse implementado um regime igual.

O que motivava Álvaro Cunhal a fazer tal coisa? Nunca mais me hei-de esquecer duma conversa que ouvi, no longínquo ano de 1975, entre dois vereadores da Câmara de Amada, os dois comunistas: “Hoje estou cansado, fui ontem buscar o camarada Álvaro ao aeroporto, estava em Moscovo há 3 meses, vinha com a barriga cheia de misérias, paguei-lhe um jantar de marisco e vinho verde, que foi de gatas para a António Serpa”!!!!! Cunhal e muitos dos que com ele privavam sabiam da verdadeira URSS, no entanto, continuavam a defender um regime igual.

Não quero acabar esta minha reflexão, que partilho com os leitores do Fundamental, sem deixar uma palavra de apreço e gratidão a todos os comunistas que, de coração, e acreditando no seu ideal, fizeram a guerra contra o fascismo, enfrentando a privação da liberdade e a tortura e contribuíram com a sua luta e o seu sacrifício para que hoje vivamos em liberdade. Muito lhes devemos e não posso deixar de venerar e respeitar profundamente todos os que lutam por um ideal.

Acrescento ainda que, por uma questão de equilíbrio de forças no panorama político, são necessários os representantes desta esquerda. Não nos equivoquemos, porém, em pensar que alguma vez possam ser poder e acreditar que aquilo que apregoam alguma vez se concretizará. Isso é mentira e já foi provado por várias vezes, tal como referi.

VIASão Maurício
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