Trabalhadores da Sonae revoltados: “andam sem luvas, sem óculos… covid não deve atingir as chefias”

"Obrigam-nos a andar de máscara, de luvas, mas as chefias andam lá a passear com uma máscara na boca mas sem luvas, sem óculos, porque o covid não deve atingir as chefias, só atinge quem anda ali a trabalhar no duro". Relato de um trabalhador da Sonae MC.

São agora 76 os casos oficiais reportados na Sonae MC no contexto do novo coronavírus, mas a empresa continua sem incluir nesta contagem os trabalhadores temporários que são sub-contratados para laborar naquela plataforma.

O Fundamental teve acesso a uma lista onde constam mais de 30 cidadãos de nacionalidade indiana que estão infectados pela covi-19. Serão pelo menos 106 os trabalhadores que testaram positivo neste entreposto, mas os testes continuam a decorrer e este número poderá aumentar nas próximas horas, tendo em conta o histórico dos resultados obtidos até ao momento.

De resto, a população de Azambuja continua a garantir sentir receio em relação ao que todas as televisões apelidam de “surto da Azambuja”, designação partilhada por Graça Freitas, Directora Geral da Saúde, no tocante à situação que está a ser vivida na Zona Industrial Azambuja – Vila Nova da Rainha. Acrescente-se que hoje a Freguesia de Azambuja regista mais 3 infectados em relação a ontem, estando agora este número nos 39 casos positivos.

Um outro trabalhador revelou: “O que mais me revolta é estar sujeito a apanhar este vírus aqui na Sonae e depois poder contagiar os meus pais, os meus sogros, a minha mulher e o meu filho”. Este homem acrescenta: “Obrigam-nos a andar de máscara, de luvas, mas as chefias andam lá a passear com uma máscara na boca mas sem luvas, sem óculos, porque o covid não deve atingir as chefias, só atinge quem anda ali a trabalhar no duro”.

Já a Directora Geral de Saúde, Graça Freitas, continua a assegurar que os infectados da Sonae MC estão todos clinicamente bem, provavelmente desconhecendo que há um trabalhador da secção de frio que se encontra internado nos cuidados intensivos. Este homem só tem um pulmão, padecendo assim de outras complicações de saúde que foram agravadas pela infecção pela covid-19. Resta questionar o porquê de ter estado sujeito a esta infecção se se tratava claramente de um cidadão de risco.

Segundo a mesma fonte (Graça Freitas), já nesta sexta-feira foram detectados mais 5 novos casos em outras unidades fabris da Zona Industrial de Azambuja, reportando-se este número a 3 casos numa empresa e 2 casos alusivos a outra empresa. A Directora Geral de Saúde não especificou as unidades fabris a que se referiu nesta revelação.

O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços continua a reivindicar que os testes que estão a ser feitos aos 800 trabalhadores da Sonae MC devam ser estendidos aos cerca de 3 mil colaboradores que operam nas insígnias estabelecidas naquela plataforma. Ricardo Mendes alega que só desta forma será possível precaver e evitar que aconteça em outras fábricas o que está a suceder na Sonae.

Este sindicalista lembrou: “A única hipótese que estes trabalhadores têm para se deslocar para a empresa é o transporte ferroviário, mas nos comboios e em horas de ponta as pessoas viajam de uma forma muito aglomerada e dificilmente se consegue assegurar o distanciamento social”. Ricardo Mendes diz que a empresa tem autocarros que pode colocar ao serviço dos trabalhadores temporários, que são contratados a termo a outras agências.

Reforçamos a informação de que estamos a falar de trabalhadores que são considerados essenciais e que estiveram a laborar de forma permanente desde o inicio do Estado de Emergência, já que servem uma unidade fabril de distribuição alimentar. Para trabalhadores considerados essenciais, por vezes fica, de facto, a sensação de que não são considerados em consonância com esse estatuto. Tendo em conta os parcos vencimentos e ao que estão sujeitos, em vocabulário corrente “essencial” soa mais a “carne para canhão”.

VIAAlexandre Silva
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