Santa Casa de Azambuja continua a recusar assistir Idosa com covid-19

"Cuidados de higiene nem pensar, dona Irene", foi o que disseram à senhora por telefone. A Santa Casa de Azambuja continua a não assegurar o serviço que contratou com a idosa Maria Irene Parracho, uma senhora de 79 anos que está infectada com covid-19.

A Santa Casa da Misericórdia de Azambuja continua a não assegurar os cuidados básicos de higiene que contratou com a idosa Maria Irene Parracho, uma senhora de 79 anos moradora em Casais de Baixo e que está infectada com covid-19. “Cuidados de higiene, nem pensar, dona Irene”, foi o que disseram à senhora por telefone.

Esta idosa foi operada à coluna há cerca de dois meses e está totalmente dependente de terceiros para assegurar a sua higiene diária. A Santa Casa de Azambuja continua a recusar levar à prática a higiene desta senhora devido à sua infecção pelo coronavírus. O caso foi revelado pelo Fundamental na passada terça-feira e é bem demonstrativo dos tempos difíceis que vivemos.

Para complicar a situação, o marido da senhora, Maier Oliveira, de 80 anos, também está infectado com coronavírus. As técnicas do Apoio Domiciliário têm compreensíveis receios de ficar contaminadas e de espalhar o vírus noutros domicílios onde diariamente prestam este serviço, cujo talento e capacidade para o levar à prática só está ao alcance de pessoas, de facto, especiais na sua sensibilidade.

O pior de tudo é que a idosa Maria Irene Parracho continua a pagar à Santa Casa da Misericórdia de Azambuja como se a instituição prestasse o serviço completo com o qual se comprometeu e que inclui alimentação e higiene diária. A higiene está fora de questão já que, pelas razões já expostas, as funcionárias do Apoio Domiciliário não entram na residência do casal situada em Casais de Baixo, Freguesia de Azambuja.

Desta forma resta a alimentação, que agora é deixada numa caixa de plástico colocada no topo de um cavalete que os serviços da própria instituição se encarregaram de colocar ao lado da caixa de correio do casal Maria Irene e Maier, conforme a fotografia documenta. João Parracho, neto da idosa, revela ao Fundamental que a avó telefonou para a Santa Casa a suspender a entrega de comida.

 Responderam-lhe que tem de fazer o pedido por escrito ou e-mail e asseguraram à senhora: “cuidados de higiene está fora de questão, dona Irene”. Fora de questão parece estar igualmente a suspensão do pagamento, já que a senhora continua a pagar os mesmos 140 euros que são debitados directamente da sua conta bancária, de acordo com o testemunho de João Parracho, neto da idosa.

O Fundamental recorda igualmente que telefonou e insistiu com o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Azambuja para que nos esclarecesse sobre todos estes factos. Enviámos um email ao cuidado de Vítor Lourenço com algumas questões relacionadas com todo o conteúdo desta reportagem. Devido à natureza e à complexidade dos assuntos em causa, e porque seria, de acordo com o Provedor, muito difícil responder de forma ponderada e esclarecedora em tempo útil às questões apresentadas, ficou a promessa de Vítor Lourenço de que concederá uma entrevista ao Fundamental Canal com o intuito de esclarecer e informar todos os nossos leitores e a comunidade acerca deste assunto, sendo que o Fundamental manifestou, naturalmente, toda a sua total disponibilidade e concordância para realizar essa entrevista filmada.

Recorde toda a notícia que publicámos na passada terça-feira

Maria Irene Parracho e Maier Oliveira Mendes são um casal de idosos de 79 e 80 anos que vivem em Casais de Baixo, na Freguesia de Azambuja. Ambos testaram positivo pela Covid. A senhora é assistida pelos serviços de Apoio Domiciliário da Santa casa da Misericórdia. Este serviço é assegurado por somente três funcionárias da Santa Casa que, ao contrário dos restantes colabores desta instituição, não têm oportunidade de fazer turnos alternados de 8 em 8 dias como medida de prevenção para a Covid-19.

Nos últimos dias de Abril estas três senhoras deslocaram-se uma vez mais ao domicílio do Casal Maria Irene e Maier Mendes para garantir alimentação e cuidados de higiene a Maria Irene, que padece de problemas de saúde, já que foi operada há dois meses à coluna vertebral. No local constataram a presença de João Parracho, neto do casal, trabalhador na Avipronto e que apresentava um quadro sintomático condicente com a infecção pelo coronavírus. Essa situação foi confirmada pelo jovem ao Fundamental. João Parracho está em casa desde 30 de Abril, no Carregado, e já se livrou da infecção pelo coronavírus.

Na altura, as três senhoras ficaram naturalmente alarmadas. No dia 4 de Maio, uma segunda-feira, deslocaram-se a Alenquer onde fizeram o teste à Covid-19 numa clínica privada. O teste foi feito às 7 da manhã, com as senhoras a ficarem em pé e em plena rua, uma vez que não lhes foi permitido o acesso ao interior da clínica devido ao quadro de desconfiança em que estavam envolvidas. Uma zaragatoa nasofaríngea permitiu averiguar que naquele momento as três senhoras deram negativo. O dia ficou estragado pelo mal estar e dores que o teste causou a estas três funcionárias.

Seria de esperar que estas colaboradoras do Apoio Domiciliário ficassem de quarentena pelo menos por 14 dias, período durante o qual a doença pode manifestar-se. Não nos esqueçamos que o seu trabalho consiste em dar apoio domiciliário a dezenas de idosos, nas casas dos quais entram diariamente. Não foi isso que aconteceu, e estas três funcionárias continuaram a trabalhar durante toda a semana que se seguiu. Já na semana posterior, entre 11 e 15 de Maio, uma das três senhoras entrou de baixa. O Fundamental sabe que tem sido pressionada a um ritmo quase diário para regressar ao trabalho.

De regresso ao casal de idosos de Casais de Baixo. Maria Irene continua a pagar 140 euros mensais à Santa Casa da Misericórdia, mas já não vê assegurado o serviço de higiene pessoal nem a alimentação pelo menos há 20 dias, de acordo com o testemunho do neto do casal. “Olhem só a consideração que a Santa Casa tem pela minha avó, a quem não prestam os serviços de higiene por causa de eu ter acusado positivo pela Covid-19”. Foi o que tornou público o neto deste casal de idosos já no final de tarde desta terça-feira.

De acordo com João Parracho, os serviços da Santa Casa voltaram hoje a deixar comida em casa dos avós, em Casais de Baixo… mas deixaram a comida dentro de um saco e o saco ficou no chão, ao portão da propriedade, que ainda dista uns metros relevantes da habitação principal (como se vê na fotografia). De acordo com o neto de Maria Irene, e citamos, “ainda têm a coragem de fazer esta pouca vergonha, deixarem um saco de plástico com a refeição no meio das ervas e tão longe da porta da casa da minha avó em vez de irem deixar a comida na porta de casa”. Parracho afirma que a comida ficou “à esturra do sol” pelo menos duas horas e meia, entre as 13 e as 15,30 horas. “No final do mês lá estará a minha avó a pagar os serviços que não foram prestados e a comida que vai para o lixo”, escreveu igualmente o neto do casal de idosos.

VIAAlexandre Silva
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