Manique | a história dos últimos dias da cidadã vítima de Covid contada pelo filho de Dona Tininha

Os últimos dias de Albertina Furtado, a cidadã de Manique que faleceu de coronavírus, contada com detalhe pelo próprio filho. A enfermeira do Delegado de Saúde que telefonou à senhora a avisa-la de que tinha covid... quando Albertina já tinha falecido. E as autoridades de saúde que deixaram o Lar de Acolhimento entregue a si próprio.

Albertina Maria Furtado ficará na história do Concelho de Azambuja por ter sido a primeira pessoa (e esperamos que a última) a falecer devido à infecção pelo coronavírus. Esta senhora de 88 anos vivia na Casa de Acolhimento de Anabela Martins, em Manique do Intendente. O filho, Luís Furtado Ferreira, fez questão de contar toda a história destes últimos dias ao Fundamental. Uma espécie de homenagem à sua progenitora, que nos deixou a 4 de Maio.

Luís Ferreira começa por contar: “No dia 2 de Maio recebi um telefonema da Casa de Acolhimento da Anabela Martins, em Manique do Intendente, onde a minha mãe vivia já há alguns anos, devido a um agravamento das condições de saúde que evidenciava, nomeadamente arrepios, convulsões e perda do conhecimento”. Luís acrescenta: “Decidi que a Anabela contactasse os serviços de saúde para que os profissionais a observassem e, sendo o caso, a transportassem então ao hospital”.

A dona Albertina foi assim hospitalizada em Vila Franca de Xira, transportada pelos serviços da Cruz Vermelha de Aveiras de Cima, onde deu entrada por volta das 11 horas do dia 2 de Maio. Luís recorda esse dia: “Telefonámos para o hospital algumas vezes e a resposta dada era sempre a mesma: “fez análises e foi observada. Quando se souber o resultado, algum médico entrará em contacto convosco”.

Luís Ferreira conta igualmente que por volta das 14 horas ligaram do Hospital para Anabela Martins e transmitiram à proprietária da Casa de Acolhimento que a dona Albertina aparentemente tinha sofrido um ligeiro AVC mas que não seria nada de significativo. Durante todo o resto desse sábado Luís não conseguiu saber mais acerca do estado de saúde da sua mãe, não obstante as insistentes tentativas.

E no domingo continuou o cenário dramático: “Comecei a telefonar logo de manhã e fi-lo durante todo o dia, com um intervalo de duas horas entre telefonemas. Continuavam a dizer-me que algum médico entraria em contacto comigo quando houvesse novidades”. Luís Ferreira recorda que nesse mesmo dia pelas 18 horas exigiu falar com algum responsável, tendo acabado por conseguir o contacto com uma enfermeira que lhe transmitiu que o teste de Covid-19 da dona Albertina tinha dado positivo.

O filho de Albertina ficou, nas suas palavras, estupefacto. “Perguntei como se explicava isso dado que o diagnóstico da minha mãe tinha sido outro e que a Casa de Acolhimento tinha permanecido em clausura total sem que ninguém tivesse saído ou entrado nas instalações nem tivesse manifestado qualquer sintoma associado ao vírus”. A enfermeira não teve mais explicações para dar a Luís.

“Quem avisou a casa de acolhimento fui eu”

O filho de dona Albertina recorda ainda o fatídico dia 4 de Maio, segunda-feira: “Às 9 horas e 10 minutos fui contactado pela doutora Joana Pereira que me disse ter más noticias: a minha mãe tinha falecido e segundo a referida médica a causa da morta teria sido Covid-19. Ainda perguntei se tinham informado a Casa de Acolhimento. A médica em questão pediu para que não me preocupasse que alguém iria tratar de tudo”, refere Luís, que acrescenta: “Lamentavelmente assim não foi!”

Luís Ferreira assegura que quem avisou o lar de acolhimento foi ele próprio. “A Anabela Martins, cuja preocupação a trazia literalmente destroçada desde que soubera, por mim, do resultado do teste da minha mãe, ficou igualmente desesperada com o abandono que sentiu, conjuntamente com todos os habitantes da Casa de Acolhimento, por parte dos serviços de saúde”.

Ainda de acordo com o filho da malograda senhora, a primeira cidadã a falecer no Concelho de Azambuja com coronavírus, e citamos, “do hospital ou dos serviços de saúde ainda ninguém contactou a proprietária da Casa de Acolhimento, e do SN24 responderam-lhe que deveria medir a temperatura dos utentes do Lar duas vezes por dia e que se remetessem a um confinamento durante 14 dias”.

Enfermeira do Delegado de Saúde de Azambuja telefonou para Albertina a avisar de que tinha covid-19… quando a senhora já tinha falecido

Luís Ferreira conta ainda que na tarde do dia 4, por volta das 19 horas, recebeu um telefonema de alguém: “Perguntou se eu era a dona Albertina Maria Henriqueta Ventura Furtado. Eu disse que não, que era o filho. Essa senhora queria dizer-me que o resultado da minha mãe tinha dado positivo para Covid-19. Eu disse-lhe que já sabia, pois a minha mãe tinha falecido durante a madrugada desse mesmo dia”. A pessoa do outro lado do telefone era a enfermeira do Delegado de Saúde de Azambuja.

Anabela Martins contactou o Presidente da Junta de Manique que conseguiu providenciar junto de Luís de Sousa o accionar dos serviços da Protecção Civil e GNR. “Esta resposta foi eficiente, eficaz e resultou que as pessoas na Casa de Acolhimento fossem observadas, bem como as condições das instalações”, assegura Luís Ferreira, que acrescenta: “As instalações revelaram-se adequadas aos fins propostos bem como os serviços prestados”.

O filho de dona Albertina assegura: “As pessoas receberam uma guia para realizarem testes, que foram feitos no dia 6 por uma empresa de Lisboa. No dia 7 Anabela Martins recebeu o resultado dos testes, tendo todos revelado negativos para Covid-19”.

Luís Ferreira garante, acerca da Casa de Acolhimento de Anabela Martins: “De positivo consigo extrair a competência, o profissionalismo, o carinho e a dedicação que a Anabela coloca nos cuidados que dedica às pessoas que tem ao seu cuidado”.

O filho de dona Albertina acrescenta igualmente: “Sentimo-nos muito gratos pelo que Anabela Martins fez pela Tininha (a mãe de Luís Ferreira), pessoa simples, discreta, humilde, mas que conseguiu congregar à sua volta todo o amor de uma enorme família e toda a simpatia, carinho e estima de quem com ela se cruzou, particularmente os habitantes de Manique onde nasceu há 88 anos”.

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VIANuno Cláudio
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