Azambuja: Avipronto pressiona Fundamental para “apagar” noticia

A empresa Avipronto acaba de pressionar o Jornal Fundamental para “apagar” a notícia que dava conta de que a empresa continua a chamar colaboradores para trabalhar na linha de produção da fábrica, mesmo depois da DGS ter encerrado a unidade devido a terem sido identificados 38 casos positivos de colaboradores com coronavírus. A pressão foi feita pela assessora de comunicação da empresa que neste final de tarde ligou para a nossa redacção por três vezes.

A Avipronto garante que nenhum colaborador terá sido chamado para trabalhar na fábrica de Azambuja no seguimento do fecho da unidade decretado pela Direcção Geral de Saúde. Em reacção à notícia avançada pelo Fundamental esta tarde, a Administração da Avipronto assegura que os colaboradores convocados serão somente motoristas que fazem transporte de aves entre os núcleos de produção e as unidades de abate, no lote das quais não estará, neste momento, a Avipronto de Azambuja.

Tatiana Pinto, assessora de comunicação da administração da Avipronto, assegurou ainda ao Fundamental que esta tarde a empresa laborou mas num cenário devidamente controlado e autorizado pelo médico assistente da autoridade de saúde, doutor João Pedro Machado. O objectivo desta jornada de trabalho prendeu-se com a necessidade de retirar produto da fábrica de forma a evitar que o mesmo viesse a apodrecer.

No entanto, o Fundamental volta a assegurar que teve acesso a vários testemunhos que garantem terem sido chamados para trabalhar na secção de abate da Avipronto já depois de ter sido despoletado todo este drama relacionado com os contágios de covid-19 que colocam toda uma região em sobressalto. São colaboradores e familiares de colaboradores em Aveiras de Cima, Azambuja e na região do Carregado. Estes testemunhos são corroborados pelas autoridades locais e por delegados sindicais, todos eles bem identificados e acima de quaisquer suspeitas.

De resto, a fábrica da Avipronto começou a ser desinfestada no final da tarde deste sábado, após todos os testes a funcionários terem sido efectuados numa tenda montada para o efeito nas imediações da unidade fabril. A mesma fonte – Tatiana Pinto – assegura que a Avipronto não pretende contrariar nem desrespeitar as indicações da Direcção Geral de Saúde.

Já Luís de Sousa referiu hoje que lamenta que os comboios assegurados pela CP destinados ao transporte destes trabalhadores sejam em número especialmente reduzido. “As pessoas andam ali como se fossem sardinhas dentro de latas”, afirmou o autarca, numa alusão ao ajuntamento excessivo de utentes dos caminhos de ferro na linha de Azambuja, muitos deles trabalhadores das unidades fabris presentes na zona industrial localizada entre Azambuja e Vila Nova da Rainha.


NOTA DO DIRECTOR

Amanhã assinala-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa mas parece haver quem pense que o poder económico e os interesses a esse poder associados ainda prevalecem sobre a liberdade de informar. A forma como neste final de tarde a redacção do Fundamental foi pressionada pela Avipronto para fazer desaparecer uma notícia incómoda é vergonhosa. Estamos a falar da mesma Avipronto que durante todo o dia de ontem esteve sempre indisponível para quaisquer esclarecimentos relacionados com os casos de Covid detectados na fábrica, dificuldade que foi bem noticiada por colegas nossos da imprensa local.

Ou seja, para esclarecer e informar não há tempo nem disponibilidade. Mas para pressionar um jornal para retirar do “online” uma notícia já há toda a disponibilidade do Mundo. Foram três telefonemas em menos de meia hora e em todos abordado o mesmo assunto: “a administração quer que”; “o departamento jurídico pede para”, como se a vontade destes senhores prevalecesse sobre o nosso direito de informar. Absolutamente lamentável.

O Fundamental noticiou tendo por base fontes fidedignas, autoridades locais e colaboradores ligados à empresa, assim como familiares directos destas mesmas pessoas. Todos estão devidamente identificados pelo que, em boa fé, reputámos de verdadeiras as informações que nos foram transmitidas. E aqui está neste artigo a versão da Avipronto, que só não foi divulgada mais cedo porque a disponibilidade da empresa para responder a telefonemas e emails foi nas últimas 48 horas praticamente nula.

O Fundamental tem 27 anos de existência e muito dificilmente se amedronta com o que quer que seja, passadas que estão quase três décadas sobre o inicio do nosso percurso, com tudo o que de rico esse percurso significa na nossa experiência e amadurecimento. É estranho que a Avipronto não tenha percebido isso. Para a história fica a triste verdade: quase quatro dezenas de infectados, uma região inteira em estado de pânico e a ver vamos como vai acabar esta triste história. E, quase que me atrevo a dizer, a responsabilidade não será, de todo, do Jornal Fundamental.

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