Azambuja: as ruínas da Quinta da Marquesa visitadas por Gastão de Brito e Silva

A imponente ruína da Quinta da Marquesa dá as boas vindas a quem chega a Azambuja pela nacional 3. O Fundamental apresenta-lhe aqui um excelente trabalho de reportagem da autoria de Gastão de Brito e Silva, publicado no blogue Ruin'Arte.

Todos os habitantes de Azambuja e da região conhecem a Quinta da Marquesa. A sua imponente ruína dá as boas vindas a quem chega pela nacional 3 proveniente de Aveiras de Cima, ou do Cartaxo. O Fundamental apresenta-lhe aqui um excelente trabalho de reportagem da autoria de Gastão de Brito e Silva, publicado no blogue Ruin’Arte.

Esta foi mais uma reportagem na alegre companhia do meu ruinoso amigo, Jorge Gil de Almeida. Ambos conhecíamos a existência desta quinta e ambos ficámos surpreendidos com este desolador e encantador cenário. A Quinta da Marquesa é uma típica propriedade rural situada na Azambuja. As suas ruínas lembram a história desta terra como um marco na agricultura portuguesa, que também já conheceu melhores dias.

Era uma propriedade nobre, cuja índole agrária se espelha na sua simples traça maneirista e na distancia das faustosas residências de então, sem no entanto lhe retirar importância e protagonismo. Da sua estrutura faziam parte, além da residência, cavalariças, um pombal, armazéns e uma capela, que era consagrada a N. Sra. do Desterro e onde, até ao final do século XVIII, se realizava pela Páscoa uma romaria popular.

No topo da entrada da capela encontra-se uma lápide encimada pelos três brasões da família (Castro, Mascarenhas e Meneses?), denunciado os seus proprietários e as vitalícias obrigações para com esta casa, onde (quase) claramente se pode ler: “D. Isabel de Castro, Filha de Fernão Teles, instituiu este morgado dos Mascarenhas no ano de 1618 com a obrigação de se pagar dele 30 mil réis: 25 mil réis para uma missa quotidiana (diária) em Alcácer do Sal, 3 mil réis para fábrica, e 2 mil réis para a Misericórdia de Alcácer, por ser administradora da capela; 18 de Junho, ano de 1621.”

Quando iniciei a pesquisa sobre a quinta, esta era descrita como tendo sido propriedade da casa de Aveiras e Vagos, levando-me a crer que a dita marquesa era desta última casa. No entanto, como se podia ler na supra-citada lápide, era referido o morgadio dos Mascarenhas, que por esta data não eram ainda marqueses de Fronteira, levantando cada vez mais dúvidas sobre o nome da propriedade. Quem era afinal a marquesa?

Contactei então a Fundação de Fronteira e Alorna, herdeira desse morgadio, para ser elucidado através dos seus ancestrais arquivos, tendo-me prontamente e simpaticamente sido facultadas todas as informações. Afinal a propriedade é Lafões, e é a Marquesa de Arronches quem empresta o nome à Quinta. Começa então assim a história:

Isabel de Castro, filha de Fernão Teles de Menezes, 7º senhor de Unhão, casou com D. Nuno Mascarenhas, senhor de Palma. Por sua vez, seu filho D. António Mascarenhas, conde do Sabugal, (daí o morgado dos Mascarenhas) casa com uma senhora igualmente chamada D. Isabel de Castro, cuja filha D. Mariana se casa com Henrique de Sousa Tavares da Silva, 1º marquês de Arronches, 3º conde de Miranda do Corvo e 28º senhor da Casa de Sousa,  dando então o nome à Quinta da Marquesa.

Sua filha, Maria Casimira de Sousa, nascida em 1672, vem a casar com Carlos José de Ligne, um nobre flamengo, Príncipe do Sacro Império e que em Portugal pelo casamento foi 2º Marquês de Arronches e 5º Conde de Miranda do Corvo. Deste casamento foi gerada D. Luísa Casimira de Sousa Nassau e Ligne, elevada por D. João V a Duquesa de Lafões, tendo-se casado com D. Pedro Henrique de Bragança, neto ilegítimo de D. Pedro II que adopta o mesmo título.

Desde então que esta e outras magníficas propriedades nesta zona se mantiveram na família, sendo ainda pertença de um dos seus descendentes. Já no século XX, a quinta era utilizada como apoio à quinta da Bafoa, outro latifúndio da casa de Lafões anexa a esta, que aqui refugiava o gado em época de cheias. Foi aqui também estabelecida a primeira escola de toureio da Azambuja em 1948.

No pós 25 de Abril, e em plena reforma agrária, as forças populares que tinham ocupado a Herdade da Torre Bela, também propriedade Lafões, tentaram subverter os empregados destas quintas, então alugadas a um outro empresário, e levaram segundo se conta “uma valente carga de porrada”… tendo apenas ocupado esta quinta.