
Os jogos da Santa Casa estão, com toda a certeza, enraizados nos hábitos dos portugueses. Raspadinhas, Placard e Euromilhões são expressões que farão parte do quotidiano das despesas correntes de uma esmagadora maioria de portugueses. O Fundamental tem andado atento ao fenómeno e descobriu algumas histórias curiosas. Daquelas que circulam de boca em boca, e das quais quase toda a gente já ouviu falar.
Primeiro, vamos a números, para percebermos melhor a dimensão do fenómeno: no primeiro trimestre de 2018, o número médio de bilhetes de Raspadinha vendidos por mês foi de 66,5 milhões. No mesmo período, as vendas médias mensais da Raspadinha ascenderam a 136,5 milhões de euros – quando o conjunto dos Jogos Santa Casa arrecadou 270,8 milhões.
Em 2017, a Santa Casa facturou 3 mil milhões de euros no total dos jogos – 1,4 mil milhões referentes à Raspadinha, o que dá quase 4 milhões de euros por dia. Em 2016, as receitas desta entidade chegaram a 2,7 mil milhões de euros, 1,3 mil milhões dos quais resultaram da venda de Raspadinhas.
Para começar, coloca-se a questão: há alguma possibilidade dos jogadores clientes da Santa Casa serem ludibriados através dos sistemas de jogo que lhes são apresentados? Ludibriados pela Santa Casa é algo que se nos afigura de improvável, mesmo impossível, tendo em conta o prestígio e a seriedade desta instituição. Era o que mais faltaria se não acreditássemos neste princípio. Mas a desconfiança recai sobre a idoneidade de alguns agentes, cujas práticas suspeitas poderão escapar ao controlo da “casa-mãe”.
O Fundamental apurou alguns casos concretos que, baseados em testemunhos mas sobretudo em situações que nós próprios experienciámos, permitem alimentar algumas dúvidas. Uma das situações mais vulgares prende-se com a comunicação entre agente e premiado. Algumas vezes é dito ao premiado que o talão/boletim não têm qualquer prémio, e o apostador acredita, vira costas e vem embora. Na verdade, alguns desses talões ou boletins dão direito a prémios, normalmente de pouca monta, que acabam por ficar já se sabe onde.
Actualmente os agentes são obrigados a colocar o visor digital da máquina registadora de apostas bem à vista dos apostadores, mas bastará uma breve viagem por algumas agências para constatar que nem sempre essa visibilidade é efectiva. Ainda recentemente uma apostadora queixava-se: “disseram-me que tinha prémio de um valor, deram-me o dinheiro mas depois exigi o recibo e afinal o prémio era de valor superior”. O agente desculpou-se, admitindo que se tinha enganado…
Um dos métodos mais falados consiste no prévio raspar dos códigos de barras das Raspadinhas. Em muitos meios rurais, sobretudo entre apostadores de mais idade, é frequente que nem se repare no facto da Raspadinha ser vendida com o código de barras já raspado, o que permite averiguar previamente se aquela Raspadinha é portadora de prémio. As que não são premiadas acabam por ser vendidas a quem poucas probabilidades tem de reparar nesse “pormenor”.
Por muito idónea e exigente que a Santa Casa seja com os seus agentes, e disso ninguém tem a menor das dúvidas, a verdade é que a arte e o engenho do ser humano ultrapassa até as mais apertadas medidas de vigilância. É famoso o caso de um agente cuja quase totalidade dos prémios das Raspadinhas… fica em casa. Uma funcionária acaba por ser a usual beneficiária dos maiores prémios das Raspadinhas. O caso é comentado amiúde; uns falam em sorte, outros garantem que a sorte é uma espécie de Raio X… Nem o Gastão, famosa personagem de Walt Disney, era assim tão felizardo.
Este artigo pretende ser um alerta. Afinal, acreditamos que agentes sérios e idôneos serão a grande maioria, senão mesmo a esmagadora maioria. A instituição Santa Casa, por todo o prestígio que detém, também não merece ver a sua reputação manchada por meia dúzia de gente desonesta e gananciosa. Fique atento, exija os seus recibos, exija ficar com os talões e Raspadinhas que não acusam prémio nas máquinas.
Vicio crescente. Entretanto há quem defenda a ideia de que os jogos (sobretudo as Raspadinhas) estão cada vez a viciar mais os portugueses. Escreve o jornal Público: “Os viciados no jogo podem não apresentar sintomas físicos, mas os efeitos desta dependência podem ser tão devastadores quanto o consumo de álcool ou drogas ilícitas. A procura da adrenalina associada ao jogo pode pôr em risco o emprego, as relações sociais e familiares, provocar isolamento e falta de disponibilidade afectiva. E, haja ou não dinheiro envolvido, os sintomas de privação são geralmente idênticos ao reportado por indivíduos dependentes de substâncias, nomeadamente os observados na dependência de álcool, devendo, portanto, estes dependentes ser tratados na rede pública como qualquer dependente de álcool ou de drogas ilícitas”.
Depois de décadas marcadas por alguma complacência social relativamente ao jogo, as perturbações a ele associadas têm vindo a aumentar, o que levou o SICAD – Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências a publicar pela primeira vez um conjunto de orientações para os profissionais que intervêm nos comportamentos aditivos.
Ainda de acordo com outros especialistas, o vicio do jogo é uma dependência ainda muito invisível e que estava muito ligada ao estigma das pessoas que tinham muito dinheiro e perderam fortunas no jogo. Tende a arrastar-se durante muito tempo, até porque geralmente só quando há uma grande perda financeira é que se dão rupturas no casamento ou no emprego. “Mas agora as pessoas começam finalmente a perceber que o jogo é um problema de saúde mental e a afluir mais aos tratamentos”, situa o psicólogo Pedro Hubert, cuja tese de doutoramento foi dedicada a traçar o perfil dos jogadores patológicos online e offline.


























