Cheia de 1967: é possível voltar a acontecer o mesmo em Alenquer?

Quando o clima tende a tornar-se mais quente e seco, situação que se prevê venha a acentuar-se no futuro, será ainda expectável que volte a acontecer uma grande cheia, como a de 1967 que varreu Alenquer e a região? Este trabalho mostra-nos que Alenquer continua vulnerável a cheias, e que estas podem mesmo ocorrer com períodos de retorno muito curtos.

Alenquer pode voltar a ter uma cheia idêntica à de 1967? A distância para a catástrofe é mais curta do que imaginamos ser...

“Este trabalho mostra-nos assim que Alenquer continua vulnerável a cheias, e que estas podem mesmo ocorrer com períodos de retorno muito curtos”


Quando o clima tende a tornar-se mais quente e seco, situação que se prevê venha a acentuar-se no futuro, será ainda expectável que volte a acontecer uma grande cheia, como a de 1967 que varreu Alenquer e a região? Este é mais um trabalho de qualidade assinado pela ALAMBI – Associação para o Estudo e Defesa do Ambiente do Concelho de Alenquer.

A climatologia informa-nos que desde a década de 1960 a pluviosidade na Península Ibérica tem vindo a reduzir-se cerca de 40 mm por década. Desde essa década, a pluviosidade média em Portugal reduziu-se entre 150 mm e 200 mm por ano, o que também aconteceu noutras zonas da bacia do Mediterrâneo. A Califórnia, na costa Oeste dos Estados Unidos, tem vivido igualmente anos contínuos de seca, com consequências graves, mas no último inverno este ciclo foi interrompido e a pluviosidade foi de tal modo intensa que as maiores cidades californianas descobriram que as suas infraestruturas hidráulicas não estavam preparadas para escoar tanta água.

O nosso país viveu este ano uma seca extrema, com consequências dramáticas para a agricultura e para o abastecimento urbano em alguns núcleos populacionais, mas se o furacão Ophélia, que passou ao largo da nossa costa em meados de Outubro, tivesse ficado pela Península Ibérica em vez de ir descarregar sobre a Irlanda, o tema televisivo do outono não teria sido a seca, mas o efeito devastador do furacão. Alguns dos furações que atingiram as caraíbas descarregaram níveis de pluviosidade de 1200 mm em alguns dias.

É uma pluviosidade dez vezes superior à que provocou as cheias de 1967. Ophélia deixou-nos o aviso que as pluviosidades extremas podem ocorrer quando menos esperamos. Recordemos que este furacão chegou a atingir a categoria 3. O acentuar dos fenómenos extremos é o que a climatologia nos informa que devemos esperar de futuro. Secas severas e calor intenso durante o verão, chuvadas intensas e muito concentradas em poucos meses do ano.

As cheias de 1983, embora de menor gravidade que as de 1967, vieram relembrar que este fenómeno é cíclico; entretanto, as ribeiras do concelho de Alenquer têm transbordado ocasionalmente durante o inverno, mas Alenquer passa incólume a cheias desde 83, o que constitui um interregno assinalável, sobretudo se tivermos em conta que a cheia de novembro de 1983 nem sequer atingiu proporções que merecessem registo no “nilómetro” da vila, que é a conhecida parede da Rua Triana.

Estes registos mostram que num período de 16 a 36 anos Alenquer sofria uma inundação de dimensões que poderiam ultrapassar os 2 metros. Entretanto as pontes foram alargadas, o que teve um claro efeito favorável ao escoamento; o leito do rio foi empedrado, e Alenquer parece bastante segura de si. Estas obras, cuja última fase terminou em 2007, não foram no entanto as únicas obras realizadas em Alenquer com a intenção de resolver, ou pelo menos minimizar, o nefasto problema das cheias. Em 1946, ao tempo do Ministro Duarte Pacheco, também foram realizadas grandes obras em Alenquer, no trecho urbano do rio, com a intenção de resolver o problema das cheias, depois de uma grande inundação ocorrida no ano anterior que atingiu os 2,40 metros.

O trecho do rio foi rectificado; foi aberta a Rua 25 de Abril, a nascente; foi rectificada a Rua dos Bombeiros Voluntários, a poente, então Rua Lafaurie. Procedeu-se a demolições, conquistou-se terreno às encostas da Vila Alta. As altas muralhas que seguram esta encosta, junto ao rio, datam desta época. Vinte e um anos depois das obras com que Alenquer pretendia resolver o problema das cheias, ocorreu a maior inundação de que há registos: a grande cheia de 1967. Registemos esta lição.

Terá sido então com as obras terminadas em 2007 que o problema cíclico das cheias em Alenquer foi definitivamente resolvido? A  Alambi solicitou à ARH – Tejo o acesso ao estudo hidráulico do projecto executado em Alenquer em 2007, a fim de saber quais os caudais máximos de cheia previstos neste projecto, e quais os caudais que o trecho urbano do rio de Alenquer é capaz de transportar dentro das suas margens. Lamentavelmente foi-nos respondido na altura que esse processo não estava disponível, devido a circunstâncias relacionadas com a gestão do arquivo.

Socorremo-nos então de um trabalho realizado em 1999 por quatro alunos finalistas do curso de Engenharia do Território do Instituto Superior Técnico, sobre o Ordenamento da Bacia Hidrográfica do Rio de Alenquer, sob a orientação do professor Matos Silva. Apesar deste trabalho anterior às últimas obras, a situação não é substancialmente diferente, já que, com estas obras, não houve ganhos significativos na secção do rio e, nalguns casos, houve até diminuição da secção, nomeadamente debaixo das pontes, com o empedramento transversal da secção. Este trabalho apresenta o cálculo dos caudais de vazão em 7 sub-trechos que definem o trecho urbano do Rio de Alenquer, conforme se apresenta na tabela abaixo.

TrechosPonte da Barnabé – Ponte das ÁguasPonte das Águas – Açude/Ponte da Fábrica de PapelAçude/Ponte da Fábrica de Papel – Ponte de Santa IsabelPonte de Santa Isabel – Ponte de Espírito SantoPonte de Espírito Santo – Ponte de Santa CatarinaPonte de Santa Catarina – Ponte da EPALJusante de Ponte da EPAL
Caudal (m3/s)185,20359,36100,4787,56142,12139,95173,30

Fonte: Bruno Peixoto e outros, Estudo de Ordenamento da Bacia Hidrográfica do Rio de Alenquer, projeto final do curso de Engenharia do Território, do Instituto Superior Técnico, ano letivo de 1998/99, pág. MC4.

Os caudais que estes trechos podem transportar, oscilam entre os 360 m3/s, no trecho entre a ponte das Águas e a Fábrica de Papel, e os cerca de 90 m3/s, no trecho entre a Ponte Rainha Santa Isabel e a Ponte do Espírito Santo.

Foi também calculado o caudal de ponta de cheia que pode afluir a Alenquer em períodos de retorno de 20, 50 e 100 anos, que se apresenta na tabela seguinte.

Período de Retorno  (anos)Caudal de Ponta de Cheia   (m3/s)
20200
50285
100400

Segundo este estudo, o caudal de ponta de cheia em Alenquer, para o período de retorno de 20 anos, é de 200 m3/s; para o período de retorno de 50 anos, é de 284 m3/s; e para o período de retorno de 100 anos, é de 400 m3/s. Isto é, 6 dos 7 sub-trechos estudados não comportam sequer o caudal que pode ocorrer num período de retorno de 20 anos.

Este trabalho mostra-nos assim que Alenquer continua vulnerável a cheias, e que estas podem mesmo ocorrer com períodos de retorno muito curtos. O ciclo recente sem cheias deve-se porventura à tendência para menores precipitações enunciada acima, que desde a década de 1960 já atinge uma redução de 150 a 200 mm; e à melhoria da capacidade de retenção dos terrenos, com o fim da agricultura nas encostas de maiores declives e a consequente recuperação da vegetação nativa, analisada em artigo anterior. O alargamento das pontes tem um efeito favorável ao escoamento em pequenas cheias, mas de pouco serve em grandes cheias, quando o leito do rio é toda a baixa da vila.

Os alunos do Instituto Superior Técnico propuseram uma solução para acabar com as cheias em Alenquer. Consistia esta em construir uma bacia de retenção na Barnabé, cuja albufeira se estenderia até ao Porto da Luz, com a capacidade de 500 000 m3. Para acomodar o caudal que não caberia na albufeira, o trecho urbano do rio seria alargado, aprofundado, e as suas paredes ficariam na vertical, para maximizar a capacidade de vazão. Esta proposta pretendia livrar Alenquer inclusive das cheias centenárias, embora não melhorasse de modo duradouro a situação a jusante da vila, fruto dos erros urbanísticos que entretanto aí foram cometidos, como na Requeixada, na estrada do Camarnal. Em nosso entender esta proposta pode ser melhorada com outras bacias de retenção nas cabeceiras dos afluentes do rio de Alenquer, em vez de cavar um canal imenso em Alenquer.

Quanto ao Rio Grande da Pipa, foi recentemente alvo de intervenção nos 2530 metros do seu trecho final, com o alargamento e desobstrução das margens, para alargar o período de retorno das cheias na Vala do Carregado, de 2 anos para 10 anos. O Estudo de Impacte Ambiental refere que as obras ficaram a 250 metros a jusante da EN1 devido às dificuldades que são apresentas pelas instalações de diversas unidades industriais nas margens do rio, que limitam a possibilidade de alargamento das mesmas, bem como à ponte da EPAL, que implicaria alterações onerosas.

No entanto a ARH – Tejo mantém a antiga Ponte da Couraça, com dois pilares no leito do rio e vãos estreitos, com muros que se estendem na perpendicular a ambas as margens, como se fossem uma barragem. Em nosso entender esta é uma situação intencional que visa regular o caudal que é escoado para jusante, a fim de defender a Vala do Carregado de inundações mais frequentes e de maior gravidade. Assim, a ARH parece contar com a extensa várzea de Quintas e Cadafais como bacia de retenção para controlar inundações a jusante. Esta solução parece-nos razoável, desde que nas várzeas seja decretada construção zero.

Em 1967 a aldeia de Quintas situava-se sobretudo na várzea, mas essas construções foram demolidas ou destinadas a outros fins depois das cheias, e foi construída uma nova urbanização na encosta, acima do nível das cheias, para realojar as vítimas dos acontecimentos de 1967. Do lado de Cadafais, também não houve expansão urbana na várzea, e a habitação existente é constituída sobretudo por antigo casario de quintas. Estas várzeas apresentam assim boas condições para funcionarem como bacia de retenção para proteger a Vala do Carregado, como parece ser a intenção da ARH.

As várzeas de Quintas e Cadafais são o leito de cheia do Rio Grande da Pipa e é natural que inundem em determinadas condições de pluviosidade. Temos de aprender a viver com isso. Quando voltar a acontecer uma grande cheia, não deve haver habitações nos leitos de cheia destes rios, onde tantas vidas se perderam.

 

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