“Não acontece nada de novo na política em Alenquer desde a saída de Álvaro Pedro”

Frederico Rogeiro é o cabeça de lista do PSD e da Coligação em Alenquer para as autárquicas deste ano. Nesta sua primeira entrevista já na condição de candidato oficial, Rogeiro mostra apetência pela organização e planeamento do território, afirmando que esta é a base de toda a política autárquica. E garante que desde 2009 não acontece nada de novo no concelho ao nível da política autárquica.

F: O que o motivou a aceitar este desafio lançado pelo PSD de Alenquer?
Foi um desafio que me foi lançado sem que eu estivesse à espera. Eu não faço parte do PSD e nunca tínhamos tido esta abordagem, mas achei que era uma oportunidade que deveria aproveitar, tendo em conta as posições que tenho assumido nos últimos anos no contexto do ordenamento do território e do urbanismo. Será uma oportunidade para levar essas ideias à prática. A confiança do PSD na minha pessoa mais a confiança que tenho nas minhas ideias são dois factores suficientemente motivadores para aceitar este desafio.

F: Não tem qualquer experiência política anterior ao nível das autarquias. Vê essa ausência de contacto com a política como um obstáculo, ou encontra aspectos positivos nesse facto?
Eu vejo como uma vantagem, até porque considero que existem vantagens em ambas as circunstâncias, ou seja, em quem tem experiência política, mas também em quem não tem esse passado relacionado com os organismos autárquicos. Temos que encarar estes desafios com espírito de renovação e de mudança, e é sempre tempo de reinterpretarmos a forma como o poder é exercido em Alenquer. Os hábitos que estão criados no funcionamento dos organismos políticos também podem beneficiar de alguém que traga uma nova visão do exercício.

“O próximo presidente terá que pegar nos cacos da política municipal, reorganiza-la e quase refunda-la. Porque nós temos vivido numa política do dia-a-dia, pouco planeada e pouco estruturada, e este mandato não mudou esse cenário”

F: Que significado tem o facto de pela primeira vez um partido, neste caso o PSD, convidar um independente para ser cabeça de lista numa candidatura à Câmara?
Significa claramente que as coisas estão a mudar. Os partidos continuam a estruturar o nosso sistema político mas são parte da sociedade, e a capacidade que demonstrem de envolver o resto da sociedade só vem reforçar a sua própria capacidade de a transformar. Basta analisar os números da abstenção e verificar os comentários que as pessoas fazem em relação aos políticos para se perceber que estamos numa fase de transição do sistema que temos vindo a ter desde o 25 de Abril de 1974. Esse futuro, para ser viável, terá de passar por uma abertura dos partidos.

F: Qual é o grande desafio do próximo presidente da Câmara Municipal de Alenquer?
Seja ele quem for, passa por pegar nos cacos da política municipal, reorganiza-la e quase refunda-la. Porque nós temos vivido numa política do dia-a-dia, pouco planeada e pouco estruturada, e este mandato não mudou esse cenário. É importante voltar a reorganizar o município a nível político, o que passa por reorganizar os planos territoriais, porque o território e o seu planeamento e ordenamento são a base da organização dos planos das diversas áreas, como saúde, educação ou ensino. Quando valorizo a área do ordenamento do território estou sobretudo a pensar na importância que essa vertente tem no contexto de áreas como o ensino, a saúde, a educação, a segurança, a acção social e até mesmo a sustentabilidade financeira do próprio município. É um desafio para qualquer pessoa que venha a vencer esta eleição, estou em crer.

F: Em 2009 Nuno Coelho esteve muito próximo de vencer a eleição, mas mesmo assim o Partido Socialista conseguiu de novo a maioria dos votos. O que vai ser necessário para que o Frederico Rogeiro derrube esta barreira e seja vencedor das autárquicas de 2017 em Alenquer?
Os partidos da Coligação têm feito um grande esforço no sentido de se apresentarem como uma alternativa realista e viável em Alenquer. Durante muitos anos nem tão pouco existiu uma alternativa com tais características. O que precisamos de fazer nesta fase é procurar mobilizar as pessoas, porque a abstenção está nos 50 por cento, o que espelha o desligamento das pessoas em relação à política.

F: Quais são os aspectos da actual presidência de Pedro Folgado que poderão constituir a base para o formular dessa mensagem?
Tem a ver com o que já referi nesta entrevista: neste mandato não aconteceu nada de verdadeiramente novo; antes, foi o seguimento do que tinham sido os mandatos anteriores. O concelho continua por planear, não existem políticas verdadeiramente estruturais. O concelho mantém-se num estado de espera, o que já acontece desde que as pessoas perceberam que o presidente Álvaro Pedro iria sair e que essa saída daria origem a uma nova fase que, no entanto, ainda não chegou. No fundo é de uma dinastia que se trata; quem veio a seguir manteve a mesma linha, os mesmos processos.

“O concelho continua por planear, não existem políticas verdadeiramente estruturais. O concelho mantém-se num estado de espera, o que já acontece desde que as pessoas perceberam que o presidente Álvaro Pedro iria sair e que essa saída daria origem a uma nova fase que, no entanto, ainda não chegou”

F: As pessoas estarão receptivas a essa mudança em Alenquer? É que o PS vence eleições desde que as mesmas são livres, ou seja, desde 1975.
Existe a expectativa de que apareça alguém que possa protagonizar essa mudança, alguém que tenha o discurso certo para a empreender. É isto que oiço das pessoas, que perguntam se será desta vez que a mudança acontece sempre que se chega a altura de eleições. As pessoas muitas vezes são demasiado condescendentes para com quem está no poder e são muito exigentes com quem quer substitui-los. Qualquer pessoa serve para dar seguimento à máquina que lá está instalada, ao passo que para haver uma renovação as pessoas quase que exigem alguém do outro mundo. Claro que os eleitores têm que ser exigentes, mas também têm que perceber que a responsabilidade da mudança também é delas.

F: Já definiu os nomes que o vão acompanhar na lista que vai concorrer à Câmara de Alenquer?
As listas são dos partidos que compõem a Coligação, pelo que deveremos definir os nomes em conjunto. Tenho acompanhado os contactos que têm sido feitos, mas esses nomes não estão ainda definitivamente apurados.

F: Tem notado entusiasmo em torno da sua candidatura?
Ainda não desenvolvemos acções públicas de campanha, tão pouco a apresentação dos candidatos nas freguesias, mas tenho percebido esse entusiasmo sobretudo no meu circulo de amigos e conhecidos. Ainda será cedo para ter uma percepção ao nível de todo o concelho. Em Alenquer, onde normalmente estou em contacto com as pessoas, tenho sentido uma reacção positiva.

F: Algumas pessoas afirmam que o Frederico Rogeiro é uma pessoa demasiado meticulosa, sem experiência política nas autarquias e sem uma actividade profissional de referência para os eleitores. Como é que contrapõe em relação a estas opiniões? 
Bom, algum sentido teórico também faz falta sobretudo no topo da gestão de um município. A organização teórica dá sentido a toda a estrutura e faz funcionar toda a máquina da câmara. Aceito essas palavras mas não as tomo como críticas que me diminuam. Ninguém é perfeito, eu não tenho essa aspiração. As pessoas ainda têm muito a ideia do homem que arregaça as mangas, que chega às oito da manhã às oficinas, e desses mitos todos. E no fundo isso conta muito pouco no rendimento da política. São necessárias pessoas que pensem, que organizem, que tenham capacidade de reflectir. E se todas as pessoas que passaram pela presidência da Câmara de Alenquer tinham essas características, então é caso para perguntar porque está o concelho no estado em que se encontra.

VIAEntrevista: Nuno Cláudio
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