“Nunca ouvi qualquer palavra de discordância em relação aos investimentos e à gestão por parte de Pedro Ribeiro”

Paulo Caldas está retirado da política desde 2011 e é desta forma que pretende continuar nos (certamente) muitos e longos anos que tem pela frente, dedicado que está agora à família e à carreira académica. Aceitou o desafio de conceder uma entrevista ao Fundamental - Diário Online, durante a qual assegurou que entre 2001 e 2008 jamais em ocasião alguma o actual presidente da autarquia, então seu vice-presidente, lhe manifestou qualquer objecção em relação ao rumo que a governação seguia no tocante a investimentos. “A saída de Pedro Ribeiro em 2008 para o Ministério da Justiça foi motivada exclusivamente por questões pessoais e políticas”, garante Caldas.

Paulo Caldas está afastado da política desde há 5 anos, e regressar decididamente que não faz parte dos seus planos.

Em 26 de Abril de 2004 o então Presidente da República, Jorge Sampaio, veio ao Cartaxo assinalar os 29 anos de poder autárquico em democracia, simbolizando o momento na figura do então Presidente da Câmara do Cartaxo, Paulo Calda, à altura o mais jovem presidente de câmara do país. Esses tempos deixam saudades?
Tenho naturalmente carinho por esse momento, um momento de união de todas as forças políticas no concelho e de convergência de todos os autarcas do país que nesse dia vieram ao Cartaxo para sermos homenageados em conjunto. O Presidente Sampaio valorizava muito a proximidade com as pessoas, e daí ter aproveitado a circunstância para, na minha pessoa, homenagear o poder local democrático. Mas saudades da política não tenho.
Porquê?
Tenho muito mais saudades dos tempos em que era jovem, da minha vivência aqui na sociedade cartaxeira, de quando andava na Escola Secundária do Cartaxo, quando jogava ao berlinde, às cavilhas ou às caricas no Jardim de Infância. Desses tempos eu tenho saudades, porque me marcaram pela positiva. Os tempos políticos também me marcaram, mas foram mais circunstanciais. Ainda hoje, quando encontro um amigo dos tempos do jardim ou da escola, esse encontro é uma festa. A política é outra vida, é outra história…
Os amigos não são tão genuínos.
Quando tomamos decisões, uns gostam e outros não gostam. É diferente.
Noto aí uma marca muito forte dos tempos da política. Nem vou perguntar se se trata de uma marca positiva ou negativa. Pergunto antes: foram tempos que fizeram do Paulo Caldas uma pessoa mais madura?
Sem dúvida. Nunca fui uma pessoa do chamado aparelho político. Entrei na vida autárquica para contribuir para a minha terra. Na altura fui convidado por um conjunto de pessoas que na altura estavam no poder aqui no Cartaxo, pessoas essas que me disseram que era bom que eu fizesse parte do executivo camarário e desse o meu contributo. Foi um apelo que agarrei e aqui estive 12 anos.
Será que a sucessão directa ao doutor Francisco Pereira em 1999 terá provocado alguns ciúmes no seio do partido? É que na altura o Paulo Caldas era o quarto nas listas do PS.
Essas questões marcam sempre as pessoas. A ideia que tenho é que essa situação terá deixado as suas marcas em algumas pessoas. Há sempre incómodos.

"Fui incómodo para algumas pessoas ao longo da minha passagem pela política, pelas decisões que tomei, pela forma como o fiz, pelas minhas ideias e pensamentos. Mas a verdade é esta: até á minha chegada à câmara, o Cartaxo não tinha acesso à auto estrada e as zonas industriais não estavam infraestruturadas... "
“Fui incómodo para algumas pessoas ao longo da minha passagem pela política, pelas decisões que tomei, pela forma como o fiz, pelas minhas ideias e pensamentos. Mas a verdade é esta: até á minha chegada à câmara, o Cartaxo não tinha acesso à auto estrada e as zonas industriais não estavam infraestruturadas… “

Fui incómodo para algumas pessoas ao longo da minha passagem pela política, pelas decisões que tomei, pela forma como o fiz, pelas minhas ideias e pensamentos. Mas a verdade é esta: até á minha chegada à câmara, o Cartaxo não tinha acesso à auto estrada e as zonas industriais não estavam infraestruturadas…
Foram desde logo as prioridades estabelecidas? Eram os aspectos mais urgentes de atacar?
Quando comecei o meu primeiro mandato, em 2002, coloquei logo como objectivo número um o acesso à auto estrada, que veio a acontecer em 2005, e depois a ligação a Aveiras de Cima, que aconteceu em 2003. O nó de acesso estava para ser feito há 30 anos.
Mas o Paulo Caldas incomodou porque realizou obras que outros não tinham conseguido realizar? Ou porque afastou pessoas que tinham expectativas dentro do partido?
Honestamente, pelas duas razões. Incomodei pelas duas coisas. Naturalmente que tomei decisões e no decorrer desse processo fui afastando algumas pessoas, que acabaram por ficar, digamos assim, meus inimigos. Um amigo da política dizia-me: “as coisas não te devem ter corrido muito bem na política, porque tu tens ali um conjunto de inimigos poderosos”. A verdade é esta: vamos afastando uns, não convidamos outros para cargos sonantes e mais tarde sentimos que isso pesa e é decisivo nas perseguições que nos movem.
Digamos que foi uma postura de conquista que incomodou muita gente.
Certamente que cometi os meus erros, mas a verdade é que nunca deixei de dar a cara por eles. E fundamentalmente nunca deixei de fazer as coisas. O que sinto aqui no Cartaxo é que o meu tempo de presidente da câmara ficou marcado por ter pensado e concretizado muitas coisas, em conjunto com as equipas que me acompanharam. Foram cerca de 120 milhões de euros de investimentos ao longo de 12 anos. Houve uma marca deixada ao nivel das infraestruturas que ficou para as gerações vindouras.
Se o Paulo Caldas tivesse o poder de regressar no tempo, faria algumas coisas diferentes do que fez nos 12 anos em que esteve na câmara?
Sem dúvida que faria. Vejo sempre os prós e os contras das decisões, gosto de pensar nelas e de fazer o meu balanço. Considero que a maior parte delas foram acertadas e positivas, porque estruturantes e necessárias para o município, mas outras teria feito de forma diferente. É preciso ver que os tempos que vivemos hoje são completamente diferentes, sobretudo no que toca à exigência, ao rigor financeiro e ao controlo na aplicação dos fundos.

"Nos anos dois mil os fundos comunitários estavam na ordem do dia e nós só tínhamos duas alternativas: ou não fazíamos determinadas obras que eram necessárias às pessoas, ou optávamos por realizar as mesmas, sabendo que iriam cair sobre a forma de endividamento"
“Nos anos dois mil os fundos comunitários estavam na ordem do dia e nós só tínhamos duas alternativas: ou não fazíamos determinadas obras que eram necessárias às pessoas, ou optávamos por realizar as mesmas, sabendo que iriam cair sobre a forma de endividamento”

Nos anos dois mil os fundos comunitários estavam na ordem do dia e nós só tínhamos duas alternativas: ou não fazíamos determinadas obras que eram necessárias às pessoas, ou optávamos por realizar as mesmas, sabendo que iriam cair sobre a forma de endividamento.
E foi o que aconteceu, e deu origem à dívida.
Muitas dessas obras eram necessárias e estavam há décadas para serem feitas, e só seriam possiveis com o apoio dos fundos comunitários.
Existem autarquias vizinhas ao Cartaxo que também estão endividadas, mas não ouvimos com tanta frequência falar de dívidas, penhoras e afins em relação às mesmas. Porque é que o Cartaxo é… “especial” neste contexto?
Tem a ver com a forma de gestão política dos acontecimentos. Eu sou defensor de que se deve assumir a parte boa e a parte menos boa de uma herança política. Valorizar a parte boa e desvalorizar o que possa ter corrido menos bem. Mais do que falar dos problemas constantemente, devemos resolve-los. Eu já saí há 5 anos, os meus antecessores já sairam há quase 15 anos e no entanto continuamos a ouvir falar em permanência do passado, ao invés de metermos as pernas ao caminho e rentabilizarmos os investimentos e os equipamentos públicos, ou avançarmos com as áreas empresariais. Outros municípios estarão até numa situação pior, e no entanto dão o salto e vão em frente.
Justificou-se um valor de dívida tão elevado para um concelho da dimensão do Cartaxo?
A dívida do Cartaxo é fundamentalmente dívida de obra, em cerca de 85 por cento da sua totalidade. Não acredito que a mesma seja mais relevante do que os equipamentos que estiveram na sua origem, como os centros de dia, as creches, os equipamentos na área da saúde ou da segurança, as escolas, os centros culturais ou os equipamentos desportivos e as vias de comunicação.
A Câmara do Cartaxo tem condições para pagar a dívida?
Há condições para pagar a dívida da Câmara do Cartaxo. Há sempre inerente uma exigência e sacrifício por parte do município, e em relação a isso não vale a pena estar a dizer o contrário. É uma situação difícil, mas é gerível. Tanto assim o é que eu tenho a informação de que um determinado conjunto de obras continuam a ser feitas, e agora vamos entrar num periodo autárquico e seguramente que veremos essa dinâmica no Cartaxo. Tenho muitas dúvidas de que em 2017 não haja alcatrão espalhado quer pela cidade quer pelas ruas das freguesias.
Entre 2001 e 2008 Pedro Ribeiro acompanhou Paulo Caldas na câmara na qualidade de vice-presidente. Nesse periodo, a dívida subiu de 6 para 32 milhões de euros, sendo que estava fixada em 44 milhões aquando da tua saída, em 2011. Que leitura podem ter estes números?
Já no tempo do actual presidente falou-se em 63 milhões, mas eu nunca percebi muito bem esses valores, até porque actualmente já está de novo nos quarenta e tal milhões. Não percebo e confesso que nem estou muito preocupado em perceber esses valores contabilísticos.
Mas tendo em conta que no tempo de Pedro Ribeiro na câmara a dívida subiu 26 milhões de euros, faz sentido que actualmente se estaja a falar constantemente numa herança difícil? Ou seja, o próprio Pedro Ribeiro não terá, também ele, contribuído para a mesma dívida?
Não comento. O que apenas digo, repetindo-me, é que 85 por cento dessa dívida corresponde a obra feita.

"Vamos deixar aqui bem clara uma coisa: a saída de Pedro Ribeiro da Câmara do Cartaxo nada teve a ver com diferenças entre pontos de vista no tocante a gestão ou a opções de investimentos. Foram tão somente questões pessoais e políticas. Ponto."
“Vamos deixar aqui bem clara uma coisa: a saída de Pedro Ribeiro da Câmara do Cartaxo nada teve a ver com diferenças entre pontos de vista no tocante a gestão ou a opções de investimentos. Foram tão somente questões pessoais e políticas. Ponto.”

Durante esses sete anos em que Paedro Ribeiro foi vice-presidente, alguma vez se sentou cara a cara e olhos nos olhos com Paulo Caldas e manifestou a sua discordância em relação a investimentos, opções de obras, empréstimos?
Nunca. Nunca. E vamos deixar aqui bem clara uma coisa: a saída de Pedro Ribeiro da Câmara do Cartaxo nada teve a ver com diferenças entre pontos de vista no tocante a gestão ou a opções de investimentos. Foram tão somente questões pessoais e políticas. Ponto.
Pedro Ribeiro estava então completamente de acordo com os investimentos e as obras que estavam a ser feitas.
Se não estivesse muito provavelmente já teria saído há mais tempo, ou já teria tornado pública a sua posição.
Na altura em que saiu, Pedro Ribeiro nunca disse estar em desacordo com as opções em relação aos investimentos e à situação financeira da câmara?
Concerteza que não. Repito: a saída de Pedro Ribeiro em 2008 para o Ministério da Justiça foi motivada exclusivamente por questões pessoais e políticas. Mas eu não quero nem vou fazer qualquer apreciação nem aos meus antecessores nem aos actuais autarcas. Apenas desejo que eles sejam bem sucedidos, que trabalhem bem em prol das populações. Cada um deles, no seu tempo, agiu e decidiu em consciência, convencido de que estava e está a fazer o melhor possivel para o Cartaxo. Nunca me passou pela cabeça dizer mal dos outros para eu ficar bem quanto ao meu trabalho como autarca. Nunca o fiz nem é agora que o vou fazer, ainda para mais retirado da política. Certamente que quem está hoje no poder mais cedo ou mais tarde há-de estar no lugar daqueles que sairam, e como humanos que também são não irão gostar que os seus sucessores percam tempo a falar do passado, a maldizer o que foi feito e a maltratar quem fez.
Nos últimos anos de gestão de Paulo Caldas, a Câmara do Cartaxo foi positivamente invadida por inspecções de todo o tipo, por parte de tudo o que é entidade fiscalizadora e até policial deste país. A que se deveu esse ataque cerrado á câmara sobretudo entre 2008 e 2011?
Como já disse nesta entrevista, considero que fui incómodo para algumas pessoas. Há políticos que utilizam a justiça para fazer política. Isto é a verdade. Umas vezes dão-se mal, mas outras, infelizmente, dão-se bem, porque o sistema de justiça, tal como a própria política, vive hoje dias miseráveis. O Paulo Caldas que vive no Cartaxo desde os 3 anos continua a ser o mesmo, e fez na política aquilo que tem feito na vida: pensou, trabalhou, dedicou-se, concretizou. Também errou, mas igualmente acrescentou valor. Isto para algumas pessoas não é bem aceite, por inveja ou mediocridade.

"A decisão da casa das Peles tinha que ir em frente, pois estamos a falar somente da maior empresa do concelho em termos de volume de negócios e de emprego. Qualquer presidente de câmara com cabeça, tronco e membros tomaria a decisão que eu tomei, porque em causa estavam mais de cem empregos, famílias inteiras. Aquilo jamais seria um caso de justiça, Jamais!"
“A decisão da casa das Peles tinha que ir em frente, pois estamos a falar somente da maior empresa do concelho em termos de volume de negócios e de emprego. Qualquer presidente de câmara com cabeça, tronco e membros tomaria a decisão que eu tomei, porque em causa estavam mais de cem empregos, famílias inteiras. Aquilo jamais seria um caso de justiça, Jamais!”

Quem são essas pessoas?
São condes, barões dos partidos, que andam por aí e que estão na vida para a política. Vivem daquilo, daqueles interesses, daqueles maniqueísmos, das jogadas políticas de bastidores, daquele jogo sujo. Há um lado bom na política: o fazer, contribuir para a qualidade de vida das pessoas; mas depois há um lado péssimo, que é protagonizado por essa gente, e que faz com que a maioria dos portugueses, na qual me incluo, tenha uma péssima imagem da política e dos seus protagonistas.
Processos como o da Casa das Peles ou o dos Bombeiros: foram desgastantes?
Todos os processos que me foram colocados têm um rosto; eu sei quem mos colocou. Eu sei quem manietou junto do Ministério Público e que levou a que fosse acontecendo o que aconteceu. A decisão da casa das Peles tinha que ir em frente, pois estamos a falar somente da maior empresa do concelho em termos de volume de negócios e de emprego. Qualquer presidente de câmara com cabeça, tronco e membros tomaria a decisão que eu tomei, porque em causa estavam mais de cem empregos, famílias inteiras. Aquilo jamais seria um caso de justiça, Jamais! E com os Bombeiros Municipais foi a mesma coisa. Eles tinham que exercer a sua função de combate aos fogos florestais e de salvamento das vidas humanas, e eu tinha que lhes pagar. E eu paguei exactamente como pagaram os meus antecessores, com um regulamento aprovado por unanimidade em câmara e em assembleia. Porque é que andei eu um ano em pé, em mais de dez sessões de julgamento, ali à frente e um colectivo de juízes, acusado por um nome feio? Porque paguei aos Bombeiros? Como é óbvio, não poderei ter saudades desse tempo.

VIAEntrevista: Nuno Cláudio
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