“A Câmara esquece invariavelmente o comércio do Carregado”

José Manuel Mendes considera que a Câmara de Alenquer esqueceu, uma vez mais, o comércio tradicional do Carregado nesta época natalícia. O presidente da junta local diz que todos os anos é a mesma coisa: a freguesia como que não existe para a autarquia central.

Presidente do Carregado sempre em defesa dos interesses dos seus fregueses

F : Que opinião tem sobre a colocação de uma placa promotora do comércio tradicional da Rua Triana, em Alenquer, num dos cruzamentos do centro do Carregado?
J.M.M. Nesta época a Câmara procura dar ênfase ao comércio de Alenquer, e isso eu acho bem. Mas nunca deveria esquecer a vila do Carregado e os seus comerciantes, que passam por dificuldades e que também gostariam de ver o seu comércio promovido com umas placas indicativas ou com qualquer outra iniciativa, que não foi feita. Os comerciantes do Carregado também têm direito à vida, já que pagam as suas contribuições. As pessoas ficaram perplexas com aquela placa, em pleno Carregado a apontar para Alenquer, quando aqui também são necessárias iniciativas desta natureza. À semelhança do que acontece em outras áreas, voltaram a esquecer o Carregado.
F : Quem olha para aquela placa fica a pensar que o comércio tradicional instalado na Rua Triana goza de uma posição privilegiada por parte da Câmara, como se não houvesse mais comércio na própria vila de Alenquer ou em outras paragens do concelho.
J.M.M. Os comerciantes do Carregado estão chocados com esta situação. A Câmara mais uma vez esqueceu que existe comércio tradicional no Carregado, e esqueceu que esse comércio necessita de ser ajudado e apoiado.
F : O que fez a Junta do Carregado para colaborar com os comerciantes locais nesta época?
J.M.M. Dentro das nossas possibilidades, levámos a cabo a colocação de algumas iluminações de Natal, mas a Junta de Freguesia não tem capacidade financeira para empreender outro género de decorações ou iniciativas mais expressivas. Cabe à Câmara essa tarefa como, aliás, faz em Alenquer. A Câmara nunca faz nada no Carregado relacionado com o Natal, é como se esta vila e o seu comércio local não existissem. Isto é o que se ouve em qualquer rua, em qualquer loja ou local do Carregado, e não sou eu apenas que o digo. Mas são as opções desta Câmara.
F : Mas ali naquele cruzamento não faria muito mais sentido uma placa a apontar, por exemplo, para o centro do Carregado e a convidar os transeuntes a visitar o comércio tradicional instalado no centro da vila? Não era o que fazia sentido num cruzamento do Carregado?
J.M.M. Eu não vejo nenhum inconveniente em dar-se ênfase ao comércio tradicional em Alenquer. Sinceramente, não vejo inconveniente. Mas, paralelamente a isso, também deveriam indicar o comércio tradicional do Carregado. Mas voltaram a esquecer que o Carregado tem muita população, muito comércio e muitas empresas, muitos a contribuir com os vários tipos de impostos que a Câmara arrecada. Metade do bolo orçamental proveniente dos impostos locais é do Carregado que chega. Mas mesmo assim não é suficiente para que a Câmara olhe de outra forma para a freguesia.
F : Entretanto a luta em relação à Ribeira do Sarra continua na ordem do dia. Recentemente os estores brancos das moradias contíguas à ribeira ficaram pretos, em resultado de algum agente quimico vertido para o curso de água. Quando é que as pessoas que vivem no Casal do Sarra junto à ribeira vão ter paz e qualidade de vida?
J.M.M. Aquelas janelas pretas resultaram de quimicos que foram deitados à ribeira e provocaram aquela corrosão, aquela côr negra. A Câmara tem a competência de limpar a ribeira no seu percurso urbano, tal como diz a Lei, mas só agora é que o tem feito, ao fim de anos e anos de reivindicações e de queixas dos moradores. Fizeram uma limpeza, mas terão que continuar a combater todas aquelas melgas, insectos e ratos que por ali andam e que continuam a colocar em causa a qualidade de vida das pessoas. E terão que pressionar outras entidades para se apurar a origem da poluíção. Porque uma coisa é limpar a ribeira no seu percurso urbano; outra, bem diferente, é identificar a origem da poluição e o respectivo agente prevaricador.
F : Esses agentes poluidores estão identificados? Ou pelo menos há suspeitas de quem possam ser?
J.M.M. A Câmara já disse que tinha uma lista, alguns nomes elencados. Agora, é uma questão de se actuar e de se definir, de acordo com a Lei, as acções a promover para chamar esses prevaricadores à responsabilidade. As empresas não podem deitar para uma ribeira as águas que resultam da sua produção industrial sem que as mesmas sejam tratadas.
F : Vê a Câmara com essa vontade, a de identificar e responsabilizar os prevaricadores? Ou diz que tem para parecer bem mas, na realidade, não terá muitas motivações nesse sentido?
J.M.M. A Câmara já anda com esse dossier há bastante tempo. Já falaram em nomes, inclusive em assembleias municipais e em documentos que eu próprio tenho em meu poder. Mas só agora, ao fim de tantos anos, é que procederam à limpeza da ribeira no percurso urbano, pelo que afirmam que agora é que vão seguir com esse processo. Diz a Câmara. Esperamos que sim. Mas se até agora nada foi feito nesse sentido, que garantias tenho eu ou a Junta de Freguesia de que algo será efectivamente feito quanto ao identificar e responsabilizar dos agentes que poluem a ribeira e que colocam em causa a qualidade de vida das pessoas?
F : Mas não será o próprio município um dos agentes poluentes? É que, todos sabemos, vão sendo descobertos canos de esgoto provenientes de zonas habitacionais e empresariais, canos esses que deitam águas residuais não tratadas directamente para a ribeira. Ora, esses canos foram ali colocados pela autarquia, ou com a sua conivência.
J.M.M. Após a limpeza, a Câmara terá que elencar todos os chamados “tubos ladrões” que ali existem e que, em certos casos, eu diria na grande maioria deles, ali foram colocados com o seu conhecimento, como dizes. No fim de tudo isto, quem está ali a sofrer as consequências são as pessoas que moram junto à ribeira, onde se sente um cheiro nauseabundo, uma coisa inacreditável. E quando o calor aperta mais um bocadinho são aquelas melgas, ratazanas e tudo o mais que dá cabo dos nervos às pessoas.
F : Os moradores do Casal do Sarra têm razões para estarem revoltadas?
J.M.M. As pessoas estão revoltadíssimas. Isso é ponto assente, Nuno. E têm todo o direito e total razão. Viver ao pé daquela ribeira é um sacrifício enorme. Se fores entrevistar as pessoas que vivem ao pé da ribeira irás registar aquilo que eu oiço todos os dias: quando é por alturas de eleições, vêm aqui e prometem tudo. Mas depois não fazem rigorosamente nada. As pessoas estão saturadas. A Câmara tem que pegar nisto com toda a determinação, levar o processo até ao fim e resolver esta situação, porque se assim não fôr…
F : Mas há anos que o problema existe, e há anos que aqueles martirizados moradores se queixam; há anos que os candidatos do partido que governa a Câmara ali vão fazer promessas e há anos que não fazem coisa alguma. Isto não é gozar com as pessoas?
J.M.M. Dizem-me que este presidente quer ver o problema resolvido. É o que me dizem. Eu vou aguardar para ver. Há anos que oiço dizerem o mesmo; outros presidentes disseram o mesmo, mas até agora o problema mantém-se. E as pessoas têm o direito de se sentirem muito revoltadas, como estão, de resto. Vamos aguardar mas, se daqui a algum tempo as coisas se mantiverem como estão, uma vez mais as pessoas terão o direito de dizer que de novo foram defraudadas nas suas expectativas. Isto é um caso de saúde pública, com todas as consequências que daí podem resultar.

FONTEEntrevista: Nuno Cláudio
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