
F : Esta nova equipa que governa a Câmara de Alenquer correspondeu às expectativas criadas?
C.A.: No meu ponto de vista não correspondeu. As pessoas que chegaram agora trouxeram alguns vícios do passado. Alenquer herdou uma questão complexa do passado e na minha opinião não seria difícil envolver toda a Câmara na resolução destas questões mal resolvidas do passado. O que acontece é que as reuniões de Câmara são um pró-forma para aprovar aquilo que previamente já foi discutido e decidido, possivelmente na sede do PS ou nos gabinetes dos senhores vereadores que estão lá a tempo inteiro. Só para dar um exemplo, ao fim de um ano nunca tivemos uma reunião que fizesse o ponto de situação do PDM.
F : Nessa crítica não está sozinho. O PSD também diz que a Câmara nesse particular está pior do que no tempo de Riso e de Álvaro Pedro.
C.A.: É a verdade. A ideia que sempre me foi transmitida pelo vereador Catarino é que o Álvaro Pedro juntava sempre toda a gente em torno da discussão do Orçamento, mesmo quando teve maioria absoluta. Agora não é assim que se faz.
F : Porque razão é assim, em sua opinião?
C.A.: Insegurança. A equipa sente-se muito insegura dos seus próprios projectos. E é por isso que tem medo da discussão. Quando uma senhora vereadora, num debate na rádio, quando eu digo que provavelmente teremos que agendar uma reunião extraordinária para discutir a questão do PDM, me responde que nós queremos é ganhar o dinheiro das senhas de presença, isto é bem o exemplo da mentalidade das pessoas.
F : E o que respondeu o Carlos Areal, nessa ocasião?
C.A.: Eu disse-lhe que ela estava a ofender-me, como é lógico. Ainda por cima toda a gente sabe que os elementos da CDU nem tão pouco ficam com o dinheiro das senhas de presença para si próprios. Só pode ser um insulto gratuito.
F : Esse género de comportamento justifica-se com a tal falta de experiência política?
C.A.: O PS em Alenquer tem um problema complicado para resolver: fazer uma ruptura com o passado. Não o quer fazer, mas vai ter que o fazer. É preciso tirar os tais esqueletos do armário, limpa-los, exibi-los na praça pública e resolve-los. É o exemplo das negociatas com o terreno onde está construído o Centro Escolar das Paredes, é também o exemplo do terreno onde está construído o Centro de Saúde. Quando o cimento avançava a todo o vapor pelo país e Alenquer era um exemplo dessa prática, acabava por ser fácil fazer obra. Abordava-se as pessoas proprietárias de terrenos, prometia-se que na próxima revisão de PDM os terrenos seriam requalificados para permitir construções e, em troca, utilizava-se uma parte desses terrenos para construir os tais equipamentos, como a escola ou o centro de saúde. A Câmara não tinha que pagar o terreno no imediato e o proprietário fazia um grande negócio. O problema é que passaram 12 ou 14 anos, o PDM ainda não foi revisto e esses terrenos ainda não são urbanos. Por outro lado, o interesse que havia em ter um terreno urbano há 12 ou 14 anos provavelmente já não é o mesmo interesse que existe hoje.
F : Então, na prática, a Câmara deve às pessoas esses terrenos.
C.A.: É esse o problema em causa. Só agora é que se está a resolver o problema do terreno onde está construído o Pavilhão Municipal, só para o ano é que a Câmara vai pagar em prestações o terreno onde está construído o complexo escolar das Paredes e há uma promessa de acordo e de fixação de valores para pagar o terreno onde está construído o Centro de Saúde, que será para liquidar em 2016.
F : Então esta maioria tem que andar a pagar dívidas do passado, de obras que outros ficaram com a fama e o proveito de fazer.
C.A.: Algumas dessas dívidas nem tão pouco estão assumidas. Os proprietários começaram a recorrer aos tribunais, e a Câmara vai ter que pagar.
F : Mas quando a Câmara construiu esses equipamentos não teve que haver uma autorização expressa, e escrita, por parte dos legítimos proprietários?
C.A.: Não, nada. Os terrenos são privados e no limite, por ironia, os proprietários podem ali chegar com um bulldozer e demolir os equipamentos lá construídos, porque verdadeiramente são seus. Isto é Alenquer. Na altura foi muito bom, mas agora impossibilita a Câmara de ter a sua parte para investir no novo Quadro Comunitário de Apoio.
F : A concessão das águas é outro dos grande negócios do passado que hoje pesa e de que maneira no bolso dos munícipes.
C.A.: No conjunto do preço da água, taxa de resíduos sólidos e esgotos, os alenquerenses pagam a nona factura mais cara do país. Com um rendimento per capita que não se aproxima nem de perto nem de longe destes valores. Ainda para mais sendo Alenquer um concelho que consome um quarto da água que fornece ao sistema. Mas há outro problema: quando cheguei à Câmara eu estava convencido que as Águas de Alenquer não tinham cumprido com a sua parte de renovação da rede de tubagem, prevista no contrato. Ainda temos tubos antigos na rede, a precisar de serem renovados. Mas a empresa diz que a extensão de tubagem prevista no contrato já foi substituída. O problema é que a extensão real de tubagem que existe é muito superior ao previsto no contrato de concessão.
F : Por conseguinte, a Águas de Alenquer não tem obrigação contratual de intervir nessa rede que existe mas que não foi identificada nem prevista no contrato de concessão.
C.A.: É isso mesmo que se está a passar. Como é que queremos atrair empreendedorismo e empresários para o concelho se o que temos para lhes oferecer é uma das facturas de água mais caras do país?
F : Como vê a questão do empolar dos orçamentos anuais? Continua-se a acreditar que se vão atingir determinadas verbas que, na prática, são impossiveis de concretizar.
C.A.: O Orçamento de 2014 previa 5 milhões de euros de dividendos das Águas do Oeste. O que foi recebido dessa verba? Zero.
F : Mas com que base é que se inventam 5 milhões de euros, para depois não se receber nem um cêntimo?
C.A.: Eram hipotéticos dividendos das Águas do Oeste, que depois se iam dividir, enfim.
F : Mas porque razão é que Alenquer assinou este contrato ruinoso?
C.A.: Bom, eu não tenho condições para provar se disser que há aqui algumas coisas destas que não soam bem. Nós estamos num sistema em que as Águas de Alenquer compram a 20 e vendem a mesma água a 50. Em contrapartida fez ETAR’s e renovou uma parte da rede. Mas estes contratos não quantificam quanto custaram estas intervenções. Será que este diferencial não era pago com uma relação de 20 para 30, por exemplo? Estou a especular, porque não há quaisquer dados. Isto foi-nos imposto, veio de fora para dentro e quem cá estava, enfim, fosse o que fosse diria que sim.
F : A Câmara tem algum poder para mexer no preço da água?
C.A.: Tem que o ter. Poderemos examinar ponto por ponto desse contrato, decidir se poderemos ser mais ou menos exigentes e se poderemos mudar algo. Fazendo aqui uma analogia: as parcerias publico-privadas também eram contratos armadilhados e o governo conseguiu, aqui ou ali, rever estes contratos.
F : Mas esta maioria estará disposta a isso?
C.A.: Até agora não. Na Assembleia Municipal colocou-se esta hipótese, houve até pessoas do PS que se abstiveram, mas a maioria ganhou por um voto e a moção foi posta de lado.
F : Este é um esqueleto no qual ninguém quer mexer.
C.A.: É como o aproveitamento escolar genérico dos nossos alunos do primeiro ciclo, em cujo ranking nacional estamos muito mal classificados. O que pode a Câmara fazer para intervir neste problema e ajudar a dinamizar as escolas no sentido de melhorar esta classificação? É um assunto que merece que ao menos nos sentemos à mesa a discuti-lo. Melhorar as escolas públicas do concelho e as notas alcançadas pelos alunos. Porque este é um aspecto relacionado com a competitividade. Não vale a pena andarmos a dizer que queremos atrair empresas e emprego para o concelho, se depois alguns dos aspectos de atractividade não são competitivos. O preço da água e a classificação das nossas escolas públicas no ranking nacional são claramente dois factores pouco competitivos.
F : Que Câmara e que concelho vamos ter no final deste mandato?
C.A.: A minha maior desilusão foi constatar que esta maioria não tem vontade política de discutir os problemas e de, em conjunto, encontrar soluções. Encontrar formas de pagar dívidas e de resolver estes chamados esqueletos no armário são questões que interessam a todos. Não há qualquer interesse de quem está na Câmara em partilhar os problemas e as soluções. Mas a maior de todas as desilusões é constatar que esta maioria não tem visão alguma para o concelho. Não têm um projecto, uma ideia. Navegam à vista, do género: “vamos lá ver para onde está hoje o vento a soprar, para vermos onde vai parar o barco”.
F : Mas seria de esperar uma atitude diferente? Uma equipa que não tem escola política, e que representa um partido que nos últimos quase 40 anos foi abafado por um personagem que, parafraseando Eurico Borlido, espalhou ervicida em toda a gente que pensou dar algum contributo positivo ao partido; seria de esperar mais desta maioria?
C.A.: Eu esperava mais, com franqueza. Mesmo com todas essas condicionantes, eu esperava mais.
F : O que achou do caso das mochilas escolares?
C.A.: Enfim… fez-me lembrar um destes dias, em tempo de crise, uma televisão que fazia uma reportagem numa cantina que estava aberta no Natal para que as crianças tivessem onde ir comer. E o operador de câmara a filmar uma continua a dizer o nome completo de uma criança. Uma coisa magnifica, não é? Aquela criança vai ficar com aquele selo para a vida. O vereador que promoveu essa situação nem teve noção do que fez.

















