A falência do Banco Espírito Santo deixou marcas profundas em Aveiras de Cima, concretamente na Delegação local da Cruz Vermelha Portuguesa. Segundo veio a público, esta Delegação perdeu 875 mil euros que haviam sido depositados no antigo Banco Espírito Santo, segundo a Direcção da mesma Delegação, em títulos obrigacionistas. Este produto foi, no entanto, considerado produto de risco, pelo que não fez parte dos activos que transitaram directamente para o chamado banco bom, conhecido agora por Novo Banco. Desta forma, a Delegação de Aveiras de Cima da Cruz Vermelha Portuguesa corre o risco de perder em definitivo quase um milhão de euros, o total investido nos conhecidos por produtos tóxicos. A comunicação social da região referiu este assunto nas últimas semanas e chegou a noticiar que os vencimentos de Dezembro e os respectivos subsídios de Natal estariam em risco de serem pagos, mas o Fundamental apurou que ambos os ordenados estão liquidados a esta altura – 17 de Dezembro. Pior mesmo são os 875 mil euros, que dificilmente voltarão para as contas da Delegação de Aveiras de Cima da Cruz Vermelha.
Caso único no país. A Cruz Vermelha de Aveiras de Cima foi a única delegação do país a perder dinheiro com a falência do Banco Espírito Santo. Segundo o Fundamental apurou, todas as delegações nacionais foram atempadamente alertadas para a situação que o Banco Espírito Santo vivia e para a necessidade de acautelarem as suas poupanças. A Delegação de Aveiras de Cima não foi cauta o suficiente para evitar perder 875 mil euros. Em comunicado, a direcção desta delegação refere: “Esta instituição ao longo dos anos tem feito aplicações financeiras com o intuito de rentabilizar o capital disponível; assim, há cerca de três anos, após auscultação na banca, esta delegação optou pelas melhores condições de juro oferecidas pelo Banco Espírito Santo, agência do Cartaxo, no qual foi investido o capital em títulos obrigacionistas”. A Direcção da Delegação justifica o investimento neste produto: “Era um produto de maior rentabilidade e na altura não apresentava quaisquer riscos”, e acrescenta: “Na antevéspera do vencimento da aplicação financeira foi-nos colocada pela gerência do Novo Banco, agência do Cartaxo, actual detentora do nosso investimento, uma proposta para reaplicação em vez do resgate do capital, conforme tinha sido contratado, pelo que entendeu a Direcção endossar a mesma à Cruz Vermelha Portuguesa – sede nacional, para que os seus serviços técnicos competentes se pronunciassem sobre a aludida proposta, o que não aconteceu até à presente data”. Após leitura do comunicado ficam no ar algumas questões pertinentes: a Delegação também consultou os serviços técnicos da sede nacional quando decidiu investir os 875 mil euros no BES em 2011? Foi a gerência do Novo Banco quem propôs a reaplicação da verba, como diz o comunicado? Ou terá sido a gerência do antigo Banco Espírito Santo? É que não se trata exactamente da mesma coisa… E uma vez que a sede nacional não se pronunciou sobre a reaplicação financeira, não teria sido mais cauteloso não revalidar a dita aplicação, pelo menos até que houvesse um parecer dos serviços competentes da Cruz Vermelha central nesse sentido, se é que existe a necessidade de tais serviços se pronunciarem sobre estes actos de gestão das delegações locais? Uma outra questão parece pertinente, aos olhos dos habitantes de Aveiras de Cima: como é que a Cruz Vermelha de Aveiras conseguia ter 875 mil euros na conta bancária – segundo apurámos já teve recentemente mais de um milhão de euros – e ao mesmo tempo estar instalada num “quartel” de terceiro mundo (na fotografia), sem o mínimo de condições para albergar funcionários, voluntários e veículos? Como é que em tantos anos de avultados saldos bancários não houve arte nem engenho para investir tais verbas em condições estruturais para a delegação funcionar? No tempo das chamadas “vacas gordas”, o transporte de doentes era considerado uma verdadeira mina de ouro para a Delegação. Segundo apurámos, em cada dezena de serviços prestados, nove constituiriam lucro para a Delegação, que desta forma amealhou mais de um milhão de euros. Alguns funcionários bem identificados chegavam a utilizar as ambulâncias em deslocações particulares, como por exemplo visitando familiares directos, chegando as respectivas ambulâncias a ficarem ligadas ao ralentim à porta dos mesmos familiares por periodos superiores a 30 minutos. Enfim, dava para tudo. Agora, 875 mil euros a menos depois, já é mais difícil…

















