“Luís de Sousa não tem o carisma que tinha Ramos. Nem tem ideias acerca das coisas. Limita-se a fazer gestão diária”

Maria João Canilho, vereadora da Coligação Pelo Futuro da Nossa Terra na autarquia de Azambuja, em entrevista exclusiva.

Maria João Canilho

F : O que motivou a Maria João Canilho a concorrer à Câmara de Azambuja pela Coligação Pelo Futuro da Nossa Terra?
M.J.C.: Quando eu critico mas depois não faço nada para alterar o rumo das coisas, considero que deixo de ter legitimidade para o fazer. Esta Azambuja necessita de gente que goste do concelho, que se sinta com vontade e empenhada em encontrar soluções para os problemas, que queira protagonizar projectos. Estou como independente na Coligação, não sou nem nunca fui filiada em partido algum.
F : Não te identificas com nenhum partido em particular. Nem com o PSD.
M.J.C.: Com nenhum. Mas considero que o projecto da Coligação tem pernas para andar, porque tem pessoas com ideias, que pensam sobre as coisas. Há pessoas muito válidas, que pensam sobre as coisas. O Jorge Lopes, independentemente das pessoas gostarem mais ou menos dele, é uma pessoa muito válida. Não dá ponto sem nó, sabe muito bem aquilo que diz. Tem projecto, sabe como fazer.
F : Uma vez que abordaste a questão “António Jorge Lopes”, pergunto: será que ele não vive com demasiada intensidade a questão política, a ponto das pessoas acharem que é demais e não se identificarem com o estilo?
M.J.C.: Ele é mesmo um entusiasta da política. Gosta mesmo da política. Eu penso que fazemos uma boa dupla: analisamos bem as questões. O Jorge tem uma característica muito boa para quem trabalha com ele em equipa: não decide nada sem antes ouvir as opiniões de quem trabalha com ele. Tem sido assim desde que trabalho com ele, o que me tem agradado. E tem uma memória verdadeiramente assustadora. Tenho aprendido muito com ele.
F : Então o que é que faltou para que a mensagem tivesse passado e as pessoas tivessem votado em 2013 de forma mais massiva na CPFNT?
M.J.C.: Embora não tivessemos conseguido “vender o nosso peixe”, acabámos por conseguir um objectivo, pois alcançámos o melhor resultado dos últimos anos.
F : Mas não elegeram mais que dois vereadores.
M.J.C.: É a verdade. Eu acredito que o futuro possa ser mais risonho, até porque alterar mentalidades leva sempre muito tempo. Os eleitores estão muito habituados a votar num determinado partido, independentemente de quem sejam os candidatos. Mas se olharmos tanto para os resultados da Coligação como para os da CDU, percebemos que houve claramente um voto de insatisfação para com o PS em Azambuja.
F : O que é que aconteceu para que o PS tivesse perdido dois vereadores, quando em 2009 Joaquim Ramos obteve uma larga maioria absoluta?
M.J.C.: Eu gostaria de pensar que tenha tido algo a ver com a nossa candidatura. Acima de tudo houve dois ou três grandes erros que levaram a que as pessoas tivessem ficado descontentes. A Praça de Toiros é um desses erros. As piscinas, outro desses erros. Foram opções políticas que não colheram o contentamento das pessoas, que claramente consideraram que haviam outros caminhos e que as coisas poderiam ser feitas de forma diferente.
F : A ausência de Joaquim Ramos pode ter sido determinante? As pessoas ficaram como que reféns da capacidade de liderança do antigo presidente, e quem o substituiu não conseguiu fazer esquecer tais atributos.
M.J.C.: Eu tenho um relacionamento pessoal muito bom com Luís de Sousa. É uma pessoa de quem gosto muito. Mas, efectivamente, não tem o carisma que tinha Joaquim Ramos. De forma nenhuma. Ramos era uma pessoa emblemática, cheia de ideias, que defendia a sua dama por vezes de forma fabulosa, levando-nos a acreditar que as suas eram as melhores ideias, mesmo que não fossem de facto as mais certas. O Luís não tem esse carisma.
F : Terá capacidade para ser presidente de câmara? Numa altura em que se colocam desafios tão específicos, tão diferentes dos que foram colocados nas últimas décadas?
M.J.C.: Provavelmente o presidente também não terá as pessoas adequadas para o acompanhar nesse contexto. Está a fazer gestão diária, porque não tem ideias acerca das coisas. As perguntas que colocamos em reunião de câmara raramente são respondidas. Não há um fio condutor, não há uma ideia, nem tão pouco uma equipa que identifique uma estratégia e aponte um caminho.
F : Não há quimica entre Sousa, Silvino e Amaral? Não se entendem? Estão desligados, não funcionam como equipa?
M.J.C.: Eu olho para o executivo e aqueles três elementos, mais o Herculano, não me passam imagem alguma de coesão. Bem pelo contrário. Cada um vai gerindo conforme pode. Silvino é de todos o mais… o mais político. Consegue ter alguma argumentação e algumas ideias, e isso provavelmente chocará por vezes com a questão do presidente. Mas falta claramente uma liderança.
F : Afinal, que negócio foi este das águas? Não haverá demasiada politiquice em torno do assunto, até por parte da oposição?
M.J.C.: Todo este processo tem sido envolvido num grande secretismo. Pedem-se documentos, e nunca mais aparecem. Pede-se uma reunião, e são só desculpas atrás de desculpas. A oposição anda a pedir documentos sobre este processo há anos…
F : Mas quem governa a câmara terá medo de dar esses documentos?
M.J.C.: Não sei qual será o motivo, mas que têm relutância em dar documentos, isso é um facto. Já foi enviada uma nova proposta de renegociação da concessão, mas ainda não a temos. Há um novo caso base, que nós não conhecemos. Quais são as ideias que a Câmara de Azambuja tem para esta renegociação? Não sabemos. As Águas do Oeste contradizem as Águas de Azambuja no que respeita aos caudais. Então o que se passa aqui? Porque ainda não conseguimos perceber até onde vai a responsabilidade de uma e de outra empresa. Andamos todos perdidos no meio de tudo isto… Parece que desde Abril que a Águas de Azambuja já não paga os caudais minimos à Águas do Oeste. Então se não paga, está em incumprimento. Onde vai isto parar?
F : É que aqui em Azambuja a questão das águas é, de facto, um assunto muito complexo. Nos restantes concelhos que o Fundamental abrange não existe nem metade das dúvidas que se nos deparam em Azambuja, onde claramente há desconfiança e muita nebulosidade. Esta é a imagem que passa para a opinião pública.
M.J.C.: Secretismo e mais secretismo. Secretismo em tudo o que envolve este processo.
F : Mas por que razão? Eu tenho que fazer as perguntas que os meus leitores fariam se estivessem no meu lugar, e aquilo que as pessoas perguntam é: mas há alguém a amanhar-se com dinheiro resultante de tudo isto? Há alguém a encher os bolsos e a levar dinheiro e prendas para casa que justifique todo este secretismo?
M.J.C.: É o que eu pergunto a mim própria todos os dias. Quando há tanto segredo, tanta dificuldade em fornecer aquilo que é pedido, as pessoas ficam com o pé atrás.
F : Quem dificulta a informação é quem está a gerir a câmara: Luís de Sousa, Silvino Lúcio, António Amaral e Herculano Valada. Pergunto: são eles que dificultam? São eles que têm algo a esconder?
M.J.C.: Ou estão eles a beneficiar, ou herdaram uma situação em que outros beneficiaram e não querem por ninguém em cheque. Mas eu não sei de nada. Acabei de chegar.
F : Será possivel acabar com a concessão e fazer com que o serviço de fornacimento de água aos munícipes regresse para a tutela da autarquia? É um cenário que se coloca?
M.J.C.: Possível é sempre. Será um imbróglio jurídico, mas possível será sempre. Teriamos que fazer contas e ver se valeria a pena. Nunca ninguém disse qual é, por exemplo, o famoso valor da indemnização a pagar à concessionária. Foi pedido na última reunião de câmara, e… estamos à espera.
F : Qual é a opinião da vereadora Maria João Canilho sobre o facto de Aveiras de Cima ser a única freguesia do concelho que não tem o serviço público de pré-escolar?
M.J.C.: Diz-me uma coisa: há lista de espera?
F : Bom, vais ter que perguntar ao presidente da junta. Mas segundo o próprio Torrão, as escolas estão todas lotadas e há crianças a frequentar o pré-escolar de freguesias vizinhas do concelho do Cartaxo, que os vêm buscar numa carrinha de transporte.
M.J.C.: Em Aveiras de Cima os pais têm a possibilidade de colocar os filhos no pré-escolar público, no Centro Paroquial de Aveiras de Cima. Esta é a minha opinião: se a construção de um Centro Escolar é apenas justificada pela questão do pré-escolar, então tem que se ver muito bem o que se está a fazer. Porque o Centro Paroquial de Aveiras de Cima, como outros similares no concelho, têm acordos de cooperação e fazem parte daquilo a que se chama a rede oficial de pré-escolar, que mais não é do que um serviço prestado por estas instituições em cooperação com o Estado.
F : Mas os custos para os pais não são mais elevados nestes casos?
M.J.C.: O custo do serviço da componente educativa é gratuito, seja nas IPSS’s seja nas escolas públicas, mesmo na parte que diz respeito ao ensino pré-escolar.
F : Então o que é que se paga nestas instituições?
M.J.C.: O que se paga é o complemento de apoio à família, que é aplicado com base numa tabela que a Segurança Social nos indica e que tem a ver com os escalões de rendimentos, recaindo o pagamento sobre a componente não lectiva, não pedagógica.
F : Ou seja?
M.J.C.: Alimentação e prolongamentos de horários.
F : Então o presidente da junta não tem razão em queixar-se de que não existe pré-escolar gratuito em Aveiras?
M.J.C.: Temos que pensar no dinheiro que é de todos nós. Se me dissessem que o Centro Paroquial tinha uma lista de espera de 30 ou 40 crianças para a sua componente pré-escolar e não as admitia por não haver capacidade, então muito bem.
F : O Centro Escolar de Aveiras de Cima não se justifica?
M.J.C.: Nós temos que olhar para as coisas como elas são. Se há listas de espera e não há colocação para as crianças, é um cenário. Se essas listas não existem, é outro cenário completamente diferente. Temos que olhar para a população e perceber se está a aumentar ou a diminuir. As perspectivas demográficas não são boas. Ou há um boom em Aveiras de Cima, ou então não há essa necessidade. Eu não sou contra o centro escolar. Sou contra fazê-lo nas actuais condições financeiras e demográficas. Pelos dados que tenho, não se justifica um pré-escolar em Aveiras se a base que serve de justificação para o construir é a componente pré-escolar. Temos que ter a noção de que vamos abrir um centro escolar em Aveiras com um determinado número de vagas, mas vamos criar desemprego na freguesia, porque as crianças deixam de ir para o Centro Paroquial, que deixará de ter essa receita.

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FONTEEntrevista: Nuno Cláudio
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