
Em 25/12/2018, depois de ter adormecido com fome e com o gélido frio desta quadra natalícia, sonhei ver uma pomba saindo em gracioso ziguezague de entre as folhas de uma frondosa árvore. Pousou no meu ombro e, calmamente, tentando confortar-me, disse-me:
— Sou o anjo protector da criança que encarnou em ti, Mafalda. Venho falar-te da vida que desconheces.
Apesar de surpreendida por ouvir o pombo falar, escutei-o com atenção e fiquei muito impressionada com o que vai pelo mundo e com os conselhos que me deu, que descrevo nesta carta dirigida a todas as crianças do mundo:
Em Portugal, uma em cada dez crianças em idade escolar passa fome ou anda mal alimentada, como tu;
Há mães que vendem os filhos por não os poderem sustentar;
Na América, o “Trampa” separa as crianças dos pais;
Na Palestina, na Síria e em muitos países do mundo, as crianças, para além de passarem fome, são mortas por armas de guerra que desconhecem;
Noutros países obrigam-nas a ser soldados e combatentes de guerra;
Os adultos têm formas de lutar pelos seus direitos, inclusivamente chegam a fazer greves de fome para serem ouvidos;
Mas as crianças não têm sindicatos nem ordens profissionais que os protejam da ganância dos ricos e poderosos e não faz qualquer sentido fazerem greves de fome, pois já têm fome quanto baste;
Contudo, têm uma arma que sabem utilizar como ninguém: o choro.
Assim, somando as desgraças divulgadas pela pomba àquilo que já me atormentava, recomendo a todas as crianças do mundo que sentem os estomagos enganados com umas famintas sopas que, a partir do novo ano:
Recuperem o vosso choro de bebé, chorem à porta das escolas, das igrejas, das autoridades administrativas e policiais!
Que o nosso choro unido e crescente ecoe pelo mundo fora, como uma orquestra de trompetes contra a fome!





















