Coronavírus e outros inimigos microscópicos

Opinião de São Maurício (15 de Março de 2020)

Uma das provas do meu exame final de inglês quando acabei a licenciatura foi uma apresentação sobre um tema à escolha. Nessa altura atravessávamos todos o sobressalto da doença das vacas loucas, motivada por uma proteína denominada de prião, que afectava a medula e o cérebro e levava ao desenvolvimento gradual de lesões irreversíveis e que era transmitido aos humanos por carne de vaca contaminada.

Foi este tema que escolhi para a minha apresentação oral, que orientei para o prisma de que os nossos maiores inimigos são aqueles que não vemos e que silenciosamente nos atacam e nos vão matando, muitas vezes sem que demos por isso. A nossa geração já tinha passado por outro grande sobressalto, o HIV- Vírus da imunodeficiência Humana, que tantas vítimas causou afectando-lhes o sistema imunitário e depois ainda, para referir apenas os mais assustadores e recentes, enfrentámos a chamada gripe das aves.

No entanto, parece que nenhum deles se compara à ameaça a que neste momento o mundo globalizado tem de fazer face e que se chama Corona Vírus. Não tenho dúvidas de que o iremos vencer, embora para tal seja preciso mais tempo, uma vez que o comportamento deste vírus é completamente novo e os estudos científicos não conseguem acompanhar o ritmo da sua progressão.

Os homens têm conseguido grandes proezas, saem para o espaço, foram à lua há largos anos, depositam sondas em Marte e já estão a desenvolver habitáculos onde os humanos possam aí viver. Há países que se apetrecharam com armas de guerra sofisticadíssimas, conseguem-se eliminar inimigos com dispositivos manobrados à distância, como aconteceu bem há pouco tempo no Irão.

Contudo, estas ameaças microscópicas e silenciosas, causadas por microrganismos, não há radares que as descubram, apanham-nos sempre desprevenidos, atacam silenciosamente e conseguem provocar danos avultados em vidas e não só, fazendo deles os nossos maiores inimigos. Com uma particularidade especial: atacam os poderosos, os fracos, os ricos e os pobres de igual modo.

Neste momento, o presidente dos EUA, um dos homens mais poderosos do mundo, se não o mais poderoso, não sabe se está infectado pelo Corona Vírus. Mas como não “há bem que sempre dure e mal que nunca acabe”, vamos lá arregaçar as mangas, tomar as cautelas que são aconselhadas pelas entidades responsáveis, repudiar as notícias falsas que circulam e apenas pretendem criar pânico não sei com que intenção (há gente que se diverte com coisas sérias e devia ir presa) e mais cedo ou mais tarde iremos vencer também esta ameaça que ficará na memória de todos nós como uma nova história para contar.

Entretanto, merece que demos atenção a algumas particularidades. Nas grandes crises, há sempre grandes exemplos, as pessoas reinventam-se e reinventam modos de viver, alternativas para hábitos que tinham enraizado, abrem-se novas perspectivas e surge a oportunidade para que se perceba que afinal a vida não acaba se deixarmos de fazer muitas das coisas que achávamos essenciais, tais como frequentar ginásios, bares, cinemas ou outros locais que agora devem ser evitados.

Talvez descubramos que afinal se abrandarmos o nosso ritmo de vida e trabalharmos menos umas horas e nos dedicarmos mais aos nossos, não é assim tão grave. O universo de vez em quando precisa de se reequilibrar e o efeito benéfico que esta crise do COVID-19 teve na libertação de CO2, motivado pelo abrandamento da produção industrial e da mobilidade, sobretudo na China, faz-nos pensar se não terá surgido por efeito daquela necessidade de equilíbrio.

A natureza tem ainda muito de insondável e estes casos devem ser uma oportunidade para aprendermos alguma coisa acerca dos nossos hábitos de vida e merecem ser objecto de reflexão. Nada do que acontece é completamente mau ou completamente bom.

Queria acabar estas linhas com uma mensagem de ânimo e de esperança e para tal acho ser um excelente exemplo os vídeos que têm circulado na internet acerca da atitude dos italianos que estão confinados às suas casas. Vão para as varandas e janelas e cantam juntos. Gritam “pessoas como nós nunca desistem” numa demonstração de que se pode “dar a volta” com as armas que temos à mão. Confesso que alguns me emocionaram. Como disse acima, quando as coisas ficam sérias, as pessoas reinventam-se e reinventam oportunidades e soluções e o ser humano ainda não conhece os seus limites.


VIASão Maurício
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