O aterro da Triaza e o milagre da humildade

Opinião de São Maurício (Fevereiro de 2020)

E não é que isto de querer ser presidente de Câmara tem muita força? Quase larguei uma lagrimita ao ler o Comunicado emitido pela Comissão Política do PS de Azambuja, liderada pelo vereador responsável pelo pelouro do ambiente e que agora, tal como na altura em que tudo se passou, é e foi especialmente responsável por aquela lixeira que existe à entrada da vila de Azambuja, porque esse pelouro lhe pertencia e lhe pertence. Não fora a ainda clara lembrança que tenho de como tudo se passou e a lagrimita tinha mesmo acontecido… mas não, eu lembro-me da atitude desse senhor quando a declaração de utilidade pública, que permitiu a instalação do aterro, foi a sessão de Câmara e foi aprovada apenas com os votos do PS.

Lembro-me ainda claramente da atitude quando demonstrei preto no branco, com um parecer que recebi da IGAOT e cujo extracto a seguir transcrevo: “….tal como prevê a alínea a) do artº35º do DL 152/2002, um aterro de resíduos não perigosos pode receber resíduos urbanos, independentemente do dono da obra”, que aquele aterro poderia receber resíduos urbanos, esses que cheiram mal quando se decompõem, os mesmos que servem de alimento a bandos de gaivotas e outros pássaros.

Mas a atitude de arrogância permaneceu, a ignorância sobre a lei permaneceu, o desprezo pelo esclarecimento da mesma lei feito pelos serviços competentes, permaneceu. E lembro-me ainda bem claramente, quando a proposta de declaração de utilidade pública para a instalação do aterro foi submetida a aprovação da Assembleia Municipal, tanto PSD como CDU abandonaram a sala e aquela apenas foi aprovada com os votos do PS. O tal que agora diz que foi enganado, o mesmo que com toda a arrogância, votou sozinho esta proposta na altura. Coitados… que pena tenho deles e do seu líder, especialmente!

Mas há desideratos que, afinal, merecem tudo, não é? Como diz o povo “o que tem de ser tem muita força” e se for preciso fazer mea culpa para defender a eleição do próximo ano, então vamos lá fazê-lo! E é assim que se dá o milagre da humildade… aleluia!!! Sim, porque já eram muitas as vozes que sussurravam que o problema do aterro poderia fazer perigar ao PS as próximas eleições autárquicas. Ó diabo, tudo menos isso, e a habitual arrogância, prepotência, soberba e outros sentimentos parecidos, dão lugar, por milagre, a uma humildade que comove: “reconhecemos o erro, fomos enganados, só não erra quem não faz, mas estamos aqui ao lado da população”.

Que gesto nobre, que palavras tão bonitas, depois de tantos já terem sido prejudicados nas suas propriedades, na sua qualidade de vida e de o concelho ter sido notícia pelas piores razões e de os munícipes terem eles (todos, com os seus impostos) de vir a pagar um erro deliberado, consciente, como o foi na altura, por parte dos que agora choram lágrimas de crocodilo. Se quisermos fazer o exercício de transpor este exemplo para uma empresa privada, digam-me o que aconteceria à empresa que tivesse um gestor a cometer erros desta grandeza. Convém recordar que estes foram os mesmos que “ao lado da população e em prol dos munícipes” também entregaram a concessão de água nas condições em que o fizeram. Outro processo que em nada lesou o município e os munícipes…

Também li por aqui que esta assunção de responsabilidade foi uma atitude de quem “tem tomates”. Sério? Tomates seria reconhecer o erro, a arrogância, a incapacidade de desempenhar o lugar com as responsabilidades que o povo lhe entregou e ir-se embora! Isso é que era ter tomates e não preparar-se para safar as próximas eleições com esta atitude! Fico expectante a aguardar os próximos episódios…


VIASão Maurício
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