Bitcoins e coelhos fornicadores: descubra a diferença (opinião de Nuno Cláudio)

Opinião de Nuno Cláudio sobre o escândalo das Bitcoins (Janeiro de 2020)

Quem vive no campo conhece bem a facilidade com que se opera o milagre da multiplicação a partir de um casalinho de coelhos. Se forem bem tratados e melhor alimentados será num instante até que a coelheira fique a abarrotar de residentes. Se os deixarmos crescer juntos teremos, em menos de um ano, uma colónia. Foi com base neste princípio que alguém aproveitou para enganar muita gente incauta, que acreditou ser a Bitcoin uma espécie de casal de coelhos multiplicadores de euros.

Com toda a franqueza, não queria estar no lugar de quem perde dinheiro desta forma inglória. Mais do que a questão dos euros (o verdadeiro cancro dos homens), é a exposição da ingenuidade colectiva. Multiplicar quantias de dinheiro em poucas semanas ou meses era apresentado como um negócio garantido. Depois havia quem se gabasse de já ter ganho tanto dinheiro em tão curto espaço de tempo que não precisaria de, cito testemunhos, “fazer mais nada na vida”. Foi a reboque do sonho do ócio eterno que muita gente ficou sem dinheiro.

Todos os dias me contam novos casos. Alguns resultaram em divórcio; outros abriram caminho para a desavença entre pais e filhos ou outros familiares. Há mesmo quem ande visivelmente afectado pela situação. Os sintomas são evidentes: cabeça baixa, vergonha, evitam aparecer em locais públicos e nem querem falar do assunto. Muitos tinham o dinheiro em casa, mas houve quem empenhasse a própria habitação para contrair empréstimos avultados. Tudo para “dar de mão beijada” a quem lhes prometeu o céu. A porta do inferno estava mesmo ali ao lado. Ainda por cima escancarada…

O que mais me preocupa nesta desgraça colectiva são os sinais evidentes de que muitos de nós ainda não estamos preparados para pensar e tomar decisões em função de convicções que assentem ao menos num patamar admissível de razoabilidade. Bastaria um par de horas de investimento sentado confortavelmente à frente de um computador para perceber que as probabilidades de perderem dinheiro nesse género de “investimento” seriam avultadas. Se a sociedade dos homens funcionasse com tamanha facilidade no contexto da multiplicação do dinheiro dos pobres e remediados, as elites não tinham poder e o mundo seria, na perspectiva de quem nos rouba sem escrúpulos, um lugar pouco interessante.

Por essa razão, é de uma ingenuidade extrema acreditar que algum dia pobres e remediados tenham acesso a tal fórmula milagrosa de gerar fortuna. Tal privilégio é exclusivo de uma elite de oportunistas e de parasitas que normalmente fundam prosperidade na escravidão das massas. A mesma ingenuidade leva-nos a “apostar” sistematicamente naqueles de onde emanam os corruptos que nos têm depenado e roubado nas últimas décadas. Depois de tantas queixas e lamentos perante as evidências, acabam por escolher invariavelmente os mesmos, prova mais que evidente que poucos serão os que têm razões para rir da ingenuidade e da desgraça alheia.


VIANuno Cláudio
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