O meia perna (Crónica de Elmano Palaio)

Opinião de Elmano Palaio - Articulista

O repórter do Fundamental estava lá, sentado num banco do comboio que fazia a marcha no sentido Porto/Lisboa, a rever uma crónica a publicar na próxima semana, quando o mesmo parou na Estação de Coimbra B, onde entraram dois homens e uma mulher, ainda jovens, em que um dos homens evidenciava sinais de bebedeira. A mulher e o outro homem encostaram o companheiro num banco, onde ficou logo a dormir; e desapertaram o cinto das calças do bêbado, comentando entre si que o Meia Perna ficava mais à vontade.

Antes de se sentarem, descalçaram-lhe também as botas, reparando o repórter que uma delas era mais alta do que a outra, cerca de 7 ou 8 cm, daí a razão: o Meia Perna. Depois de devidamente sentados, o repórter, em silêncio, observava o comportamento daqueles personagens, trocando sorrisos entre si, como se fossem namorados. Pelo canto do olho pareceu-lhe que os namorados colocaram qualquer coisa dentro da bota alta do dorminhoco.

Antes da paragem no Entroncamento, o par de namorados voltou a calçar o Meia Perna e a abotoar-lhe o cinto, recostando-o no banco ainda atordoado, o que indiciava que iriam sair na próxima estação; a mulher foi à casa de banho, tendo ficado o outro acompanhante que, quando o comboio começou a reduzir a marcha, se levantou e se dirigiu para a porta de saída onde se juntou à “namorada”. A seguir, logo que o comboio acabou de parar, saíram ambos, deixando o Meia Perna.

No dia seguinte, o repórter ouviu nas notícias que o Meia Perna, ao apresentar-se e ser revistado no Estabelecimento Prisional de Alcoentre, de onde tinha saído de licença precária na última sexta-feira, levava dentro da bota grande, que tinha um alçapão, cerca de 1 kg de droga, colocada pela ex-namorada e companheiro, tendo em vista o agravamento da pena do manco, para eles se divertirem à vontade por mais uns tempos.


VIAElmano Palaio
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