Festas de Alverca demasiado amadoras para o profissionalismo de Nuno Ferreira

Opinião de Nuno Cláudio

Conheço o Nuno Ferreira desde há 15 anos, quando então fomos apresentados por um amigo comum, estava eu a preparar o meu segundo álbum no qual o Nuno viria a ter um papel relevante, executando todas as guitarras. De então para cá (2004) ficámos amigos, porque nos une a mesma sensibilidade em relação a muitas questões mundanas, desde a música ao profundo respeito pelos animais.

Para contextualizar melhor o leitor do Fundamental, o Nuno Ferreira é músico profissional há cerca de 30 anos com créditos inquestionáveis. Durante quase uma década foi guitarrista do colosso Tony Carreira, e em idêntico período de tempo anterior acompanhou em palco o artista Emanuel no seu momento de reconhecimento público mais fulgurante. Acompanhou inúmeros outros artistas de renome nacional e até internacional.

Tocou em milhares de concertos por todo o mundo, sendo difícil desencantar um país deste planeta onde haja portugueses e ele não tenha estado em cima dum palco. Está sempre acompanhado de músicos profissionais, exigentes e de qualidade inquestionável, também estes músicos normalmente acompanhantes dos artistas nacionais mais consagrados.

Nuno Ferreira é um perfeccionista, muito exigente em cada detalhe das suas actuações e dos seus projectos. Por essa razão, cada um dos seus espectáculos apresenta um nível elevado de qualidade musical, sonora e visual. Não há diferenças para os melhores dos melhores a nível nacional. Em 2010 editou o seu primeiro trabalho de originais intitulado Viagens a Preto e Branco, com edição da Ovação. Actualmente potencia a banda MT80, para além do seu projecto pessoal simplesmente intitulado Nuno Ferreira.

Ora, o Nuno Ferreira é de Alverca, e por estes dias estão a decorrer as festas da cidade. Foi convidado para actuar na primeira noite dos festejos, num recinto montado junto ao estádio do Futebol Clube de Alverca. Refira-se, só por mera curiosidade e porque falei de futebol, que Nuno é irmão de Fernando Ferreira, treinador campeão pelo Vilafranquense em 2010, e ambos são primos direitos de Rui Vitória, bi-campeão nacional pelo Benfica e actual campeão da Arábia Saudita. Foi apenas um detalhe, uma curiosidade.

Voltemos ao concerto da noite de quarta-feira em Alverca. O palco estava montado e o espectáculo agendado para iniciar às 22 horas. O alinhamento iria contemplar temas originais de Nuno Ferreira misturados com clássicos de sempre de Dire Straits, Queen ou Pink Floyd, entre muitos outros. Em palco a acompanhar Nuno Ferreira estiveram o Fábio (baixo), o Telmo (teclas) e o Lucas, um “menino” de 15 anos que é filho do guitarrista e que toca bateria como gente… enorme.

Ferreira montou o espectáculo à sua maneira: som irrepreensível, qualidade de execução e interpretação de topo e efeitos visuais suportados por projecção de video. Alto nível. Olhei para o palco e pensei: qualquer evento ou certame deste país pagaria (bem) de boa vontade para ter este espectáculo, que nada fica a dever aos melhores dos melhores. Até foi ao ponto de inovar e de me convidar para apresentar o espectáculo, algo que fiz pela segunda vez na vida e em exclusivo a pedido do meu amigo.

Estava tudo fantástico (até o jantar), não fosse a (des)organização das festas de Alverca resolverem estragar a noite, algo incompreensível porquanto foram contra os seus próprios interesses. De repente “inventaram” um espectáculo de Hip Hop que começou precisamente no horário para o qual estava previsto o concerto do Nuno Ferreira. Atenção: nada contra o concerto de Hip Hop, que até estava animado. O problema foi outro.

É que no dia seguinte seria quinta-feira, dia normal de trabalho. Pelas 22 horas o recinto estava lotado, com milhares de pessoas que queriam ver Nuno Ferreira e o seu espectáculo. Mas perante a introdução do concerto de Hip Hop, foi a debandada geral. Quando finalmente o palco ficou livre já passava da meia noite e restavam na plateia poucas dezenas de resistentes. O telefone de Nuno Ferreira foi inundado de mensagens de amigos que lhe pediram desculpa, mas no dia seguinte… era dia de trabalho.

Mas o mais caricato do serão ainda estava para vir. O concerto iniciou já depois da meia noite e cerca de uma hora mais tarde as autoridades policiais mandaram terminar o espectáculo, devido ao adiantado da hora. A polícia mais não fez do que cumprir a lei. Quem fica pessimamente nesta fotografia é a (des)organização destes festejos, que não cuidou de organizar a agenda da noite de forma a que o artista pudesse dar o seu concerto em horário decente e perante o público que o pretendia ver.

No fim da noite assistimos a um cenário deplorável para a cidade de Alverca: uma banda formada por ilustres filhos da terra com um espectáculo de inegável qualidade a ter que ficar a meio do concerto por impedimento das autoridades. E tudo porque a (des)organização das festas da cidade foi manifestamente incompetente para evitar que a noite acabasse naquele descalabro. Se não têm dentes, porque se metem a trincar nozes? Alverca merecia melhor.

 

VIANuno Cláudio
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