António José: um autarca com (to)Matos ou um incómodo para os velhos socialistas de Azambuja?

"Após a intervenção corajosa do vereador, o Navegante chegou a Azambuja poucos dias depois. É de governantes com (to)Matos que o povo precisa". Opinião de Nuno Cláudio

Conheço o António José Matos desde há anos esquecidos, já ele tinha aquele porte a rondar os dois metros mas ainda lhe restava algum cabelo no topo da agora desprotegida cabeça. No inicio de carreira do Fundamental, já lá vão 26 anos, foram muitas as manhãs em que juntos montámos guarda ao jornal na banca do Supermercado 1º de Maio. Os “cães de fila” do regime de então perseguiam tudo o que era exemplar do Fundamental para o depositar numa lustrosa fogueira. Distribuíamos milhares de exemplares e assegurávamos que eles iriam parar efectivamente nas mãos de quem o queria ler.

Matos colaborava de forma desinteressada. Digamos que defendia o negócio da progenitora, o saudoso mini-mercado. Era um “enfant terrible” que rivalizava com António Jorge Lopes, mas tinha uma postura mais equilibrada. Era terra a terra, mais puro, com uma visão saudável da política local. Seguiram-se anos a fio de disputas autárquicas, de destaques neste jornal, inclusive na qualidade de “pastel com tempo e de pastel sem tempo”, uma rábula que ainda hoje Matos recorda com 95 por cento de satisfação (os restantes 5 são de rancor, com toda a certeza).

Em 2013 António José Matos meteu o pescoço no cepo e candidatou-se a presidente da Assembleia Municipal pelo Partido Socialista, deixando para trás o PSD que defendia desde os tempos em que tinha algum cabelo. Seguiu as suas convicções pessoais: mais do que prestar vassalagem a partidos, o homem queria fazer qualquer coisa e terá percebido que pelo PSD local não iria efectivamente a lado algum. Depois de ter conseguido votações significativas pelos social democratas, eis que ganha a presidência da Assembleia Municipal pelo Partido Socialista.

Com esta conquista de 2013, Matos terá passado no teste. Pouco ou nada se falou da mudança num contexto negativo, e a comprova-lo esteve a vitória esclarecedora em 2017. António José Matos é vereador mandatado pelo povo, o mesmo povo que o elegeu como presidente da Assembleia Municipal há 6 anos. O passado laranja está definitivamente enterrado, embora nunca tenha sido de facto um estorvo. Mas, afinal, terá Matos espírito de autarca Socialista?

Ainda há poucos dias o homem mandou uma tal pedrada no charco que mais parecia um aparentado do meteorito que terá extinto os dinossauros há 65 milhões de anos. Por ocasião da visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Azambuja, Matos teve coragem (tomates, como se diz na nossa terra) para irromper pelo palanque e dar uma “descasca de faca branca” na governação central perante o chefe de estado. Em causa estava a desigualdade no preço dos passes sociais (também) para os habitantes de Azambuja. Marcelo teve que contornar o embaraço e os socialistas de Azambuja ficaram com tal azia que esgotaram as aspirinas das farmácias da região.

Neste aspecto, Matos não é nem nunca será um socialista. Nem socialista nem “doentista” de outra qualquer maleita ideológica. Matos quer fazer acontecer, deseja o resultado e está muito à frente nesse contexto da doença que grassa também na nossa sociedade local e que permite ao doente sobrepor partidarices aos interesses do colectivo. Enquanto a azia desgraçava o estômago de muito boa gente, não tardou a que os passes sociais em Azambuja conquistassem os mesmos direitos que os seus congéneres da restante área metropolitana.

Como diria o próprio, o que interessa é sobretudo o resultado. Mas não deixa de ser relevante: antecipando-se ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, quase que lhe roubando o microfone, António José Matos afirmou: “em Lisboa, com o novo passe social, cada pessoa de Lisboa teve 25 euros que o Governo vai dar”, mas “para a Azambuja são quatro euros”. Marcelo ripostou: “Faz parte da vivência democrática o haver, em cada momento, o apelo participativo que se traduz no desabafar em voz alta aquilo que vai no nosso coração e, por isso, ouvi com muito apreço um desabafo”.

E acrescentou Marcelo: “O Presidente da República, com aquela paciência que conhecem e com aquela compreensão e capacidade de fazer pontes entre todos, é o primeiro a gostar de ouvir estes desvios protocolares que fazem parte, não só do seu estilo, mas também dos tempos que vamos vivendo nas democracias um pouco por toda a parte”. O Navegante chegou a Azambuja poucos dias depois. É de governantes com (to)Matos que o povo precisa.

 

VIANuno Cláudio
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