Namorada ou bicicleta (crónica de Elmano Palaio)

Opinião de Elmano Palaio

Antes de ter sido ferido em combate, em Angola, o Morgado recebeu um aerograma de Beatriz, onde se propunha ser sua madrinha de guerra. Tratava-se de uma beirã residente em Lisboa, simpatizante do Movimento Nacional Feminino (MNF), organização de mulheres criada em 1961, que apoiava a Guerra Colonial e o Estado Novo de Salazar.

Quando em certa noite a nossa companhia se deslocava para surpreender um bando de “turras” que estava a atacar uma aldeia africana, onde os negros viviam de perto com os crocodilos, uma “mina” rebentou por debaixo da Berliet militar que nos transportava, fazendo 3 mortos e cinco feridos, um dos quais o Morgado, que foi enviado para o Hospital Militar de Lisboa. Pelo MNF Beatriz soube do sucedido e Morgado recebeu a visita, inesperada, e um forte abraço da sua madrinha de guerra, no Hospital Militar, onde estava internado devido a ferimentos graves.

Voltando à guerra, onde ele era soldado e eu 1º cabo na companhia de comandos, contou-me que foi ela a primeira visita que recebeu no Hospital. Ficou de tal modo inebriado pela visita da madrinha, da sua simplicidade e formosura enamorando-se dela e, logo que teve alta hospitalar, convidou-a para visitar a sua aldeia e seus familiares, acabando ela por ficar em casa dos pais a fim de apoiar a mãe dele que estava enferma, com uma perna partida e engessada.

Enquanto estivemos na guerra, era eu que lhe lia e respondia à correspondência recebida de amigos e familiares, visto ele ser analfabeto. Depois de regressarmos, voltámos a encontrar-nos, em Almeirim, num almoço de convívio entre combatentes. Ali voltámos a falar, tendo a visita e o abraço da madrinha de guerra e a correspondência recebida por ele sido motivo de recordação entre nós;

Então esclareceu-me de que o aerograma recebido do seu irmão mais novo, o único da família que sabia ler e escrever, onde dizia que o irmão mais velho lhe tinha montado e furado a bicicleta, queria dizer que o mano velho lhe tinha roubado a namorada. Tal linguagem dissimulada tinha em vista dar-lhe a conhecer que tinha sido traído, sem que nós percebêssemos tudo e para evitar que o tornássemos o bobo da companhia.

 

VIAElmano Palaio
COMPARTILHAR