Cogumelos com história (Crónica de Elmano Palaio)

Crónica de Elmano Palaio

Bem sei que apanhaste um susto grande, disse o Acácio Barbeiro, que tudo sabe dos acontecimentos e mexericos da vila, quando entrou Tóino Manco, assim conhecido pelo caminhar tropeço de que tinha sido premiado por artroses desde a sua juventude, o qual tinha por hábito colher cogumelos silvestres.

Assim, depois das primeiras chuvas do último outono, o Manco apanhou umas dezenas de cogumelos e fez uma petisqueira para os amigos habituais, que os regaram com um bom “tintol” da colheita familiar de outro amigo. Todavia, no dia seguinte, soube que dois dos amigos se tinham sentido mal e deram entrada no Hospital.

Umas horas depois de saber do internamento deles, as filhas de ambos, assustadas, apareceram junto dele para que intercedesse junto de algum médico do Hospital, de modo a salvar a pele dos pais delas, pois de outro modo teria de pagar uma indemnização de 50.000€ por cada falecido. Pensava o Manco que elas estavam apenas a assustá-lo, porque sabiam que ele era uma pessoa virada para o humor e ironia. Assim, respondeu-lhe:

Oiçam cá amigas, o pai da Sónia é boa pessoa, mas já tem oitenta anos, logo nunca valerá 50.000€; o pai da Zilda é um pouco mais novo, mas é tão pequenote, um traste, um trastezito!

Retorquiu e inquiriu Zilda, filha de outro dos amigos, com ar de ofendida, substituindo o diminutivo de traste por um sufixo aumentativo:

— Então e você, é um trastezão?

Querendo continuar a levar a conversa com humor, respondeu o Manco:

Trago sim minhas queridas donzelas, trago alguma mas é apenas para consumo da casa.

Claro que levou logo ali uma boa tareia, que não se repetiu porque os amigos safaram-se, pois a intoxicação não tinha sido motivada por ingestão de cogumelos.

VIAElmano Palaio
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