Abel e o cigano – Crónica de Elmano Palaio

Crónica de Elmano Palaio

No final de outono Abel, trabalhador agrícola, dirigiu-se ao mercado mensal na sua vila para comprar um fato destinado a estrear no dia do seu casamento. Quando vestiu o fato pela primeira vez, o Abel apercebeu-se logo que o mesmo fato estava curto e apertado para a sua estatura física.

Mas como não tinha maneira de trocar o fato antes do casamento, vestiu-o para a cerimónia do casório e por mais umas quantas vezes, dado o cigano lhe ter dito que, com o uso, o fato iria alargando e ajustando-se ao seu corpo, o que nunca aconteceu.

O pior foi quando, num dia em que se passeava na sua terra natal com o dito fato minorca vestido, Abel notou por cima da Serra do Montejunto uma negra trovoada a formar-se o que, passado pouco mais de uma hora, apareceu a sobrevoar a sua aldeia, onde desabou uma forte e demorada chuvada que fez o fato encolher, tendo as calças encurtado até quase aos joelhos.

Vai daí, no mês seguinte, quando o Abel se dirigiu à barraca de exposição e venda do cigano “Mata Burros”, a fim de trocar o fato do casamento, este conheceu o Abel que levava o fato vestido e, de imediato, sem esperar qualquer reclamação do Abel, despachou-o logo:

Ah Abel, como tu cresceste tanto em poucas semanas depois de teres casado; o casaco não te serve e as calças apenas te chegam às canelas.

 

VIAElmano Palaio
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