A tristeza do Padre António e a Paróquia de Aveiras

Opinião de Nuno Cláudio

Aqui há meses fui surpreendido pela presença do Prior António Cardoso num local onde dificilmente apostaria que o iria encontrar. No meio do nada, cerca das quatro e meia da tarde, paredes meias com o infindável muro da Quinta da Torre Bela, a mais de seis quilómetros de Aveiras, o Prior caminhava a passos largos, mergulhado em pensamentos. Na companhia de Deus, como o próprio me disse, depois de eu ter invertido o sentido de marcha e ter ido ao seu encontro, oferecendo-lhe boleia para Aveiras. Com franqueza, naquele dia o Prior pareceu-me mergulhado em preocupação. A sua respeitável e admirável figura não deixa alguém indiferente, muito menos quando o encontramos no meio de coisa nenhuma, pelo seu próprio pé a quilómetros de casa. Nesse mesmo dia publiquei uma nota na minha página do Facebook, dando conta desse meu encontro com Deus – foi assim que lhe chamei – e desde logo recebi algumas mensagens privadas de pessoas amigas ou conhecidas de Aveiras de Cima, que partilharam comigo grande preocupação pelo estado de saúde do Prior António Cardoso. Algumas dessas mensagens foram mais longe, e sugeriram que as preocupações do Prior têm uma causa, relacionada com o Centro Social e Paroquial de Aveiras de Cima. festasazambuja2016-01 copy
Quando recebemos mensagens desta natureza, e quando somos jornalistas e temos a responsabilidade de dirigir um jornal, temos que ter a capacidade de separar o trigo do joio. Mas a questão adquire outra dimensão quando são várias as pessoas que nos relatam os mesmos factos. Entre outros aspectos, aconselharam-me a efectuar uma investigação jornalística ao Centro Paroquial porque, na opinião de algumas dessas pessoas, passam-se “coisas muito estranhas” que são, também no ponto de vista destas fontes, responsáveis pelo aparente estado de tristeza do Prior. Assim sendo, passei os últimos meses mais atento a esta instituição de Aveiras de Cima, procurando perceber o contexto das preocupações daqueles que me interpelaram aquando do meu “encontro com Deus”.
O Prior António Cardoso é uma daquelas pessoas que aparecem de tempos a tempos, talvez em intervalos mais extensos do que a aparição do cometa Halley. A sua obra em Aveiras de Cima é notável e, a meu ver, inigualável na história e dificilmente repetível num futuro próximo. A dinâmica da sua acção alimentada pela fé criou na freguesia uma estrutura social absolutamente fundamental para aquela comunidade, sem a qual hoje Aveiras não seria seguramente aquilo que é: uma terra alicerçada em valores tão importantes como a solidariedade e o espírito de comunhão. Ao mesmo tempo, o Centro Social e Paroquial transformou-se na entidade empregadora de referência da freguesia, com centenas de famílias a dependerem da dinâmica desta instituição, que sempre fora governada pela mestria do Prior António Cardoso, cujo talento e força interior eram decisivos para abrir portas e, como facilmente se depreende, transformar dificuldades em soluções. Acredito piamente que governar uma instituição desta dimensão não é para todos; acredito, também, que muitas vezes foram os créditos infinitos do Prior que abriram muitas portas, resolvendo problemas que a matemática impiedosa das contas não era capaz de suportar. O Prior, em conjunto com as pessoas que sempre o acompanharam, criou uma obra imensa, mas como todas as obras imensas também esta de difícil governo, só ao alcance dos predestinados.
Como sabemos, o tempo não perdoa e com o avançar da idade as pessoas são obrigadas a encontrar outros caminhos. Todos sabíamos que a obra do Prior teria, mais tarde ou mais cedo, de ter continuidade assegurada por outras pessoas da nossa terra. Estou convicto de que o Prior ainda por cá andará muitos e bons anos, mas agora, e merecidamente, numa posição mais resguardada das exigências de gestão de uma instituição que movimenta milhares e milhares de euros e da qual dependem centenas de pessoas. A sua presença será eterna, fisicamente e em espírito, porque o Centro Social e Paroquial de Aveiras será sempre a vertente material da sua infinita bondade. Mas a vida não pára e há que assegurar a continuidade daquela instituição, com os consequentes desafios que se colocam no dia a dia, e que no caso não devem ser poucos. Dizem-me, em tom de grande preocupação e até com contornos de algum alarmismo, que, e cito mais do que uma mensagem recebida, “os cagalhufas tomaram conta daquilo, e sabe Deus o que se passará ali dentro”. Aveiras é uma terra de alcunhas, e toda a família ou pessoa que se preze tem um cognome para o distinguir na comunidade. “Cagalhufas” é a alcunha da família Conceição, bastante conhecida em Aveiras, cujos elementos fazem hoje parte da vida do Centro Social e Paroquial de Aveiras. A face menos pacífica da família associada a este cognome deriva de um episódio ocorrido no inicio dos anos noventa do século passado, aquando da explosão dos afamados subsídios ao empreendedorismo concedidos pela União Europeia.

"A verdade é que quando olho para António Luís Conceição (e para as pessoas que actualmente o acompanham na liderança do CSPAV) vejo uma pessoa competente, porventura neste momento uma das (poucas) figuras de Aveiras capazes de tomar em mãos uma responsabilidade tão imensa como a de dar continuidade à gestão de um projecto criado pelo Prior Cardoso com a dimensão que este Centro Paroquial apresenta"
“A verdade é que quando olho para António Luís Conceição (e para as pessoas que actualmente o acompanham na liderança do CSPAV) vejo uma pessoa competente, porventura neste momento uma das (poucas) figuras de Aveiras capazes de tomar em mãos uma responsabilidade tão imensa como a de dar continuidade à gestão de um projecto criado pelo Prior Cardoso com a dimensão que este Centro Paroquial apresenta”

Aveiras de Cima é uma comunidade exigente, por vezes impiedosa, e qualquer coisa que não corra bem a este nível é suficiente para marcar uma pessoa, ou família, para o resto dos seus dias. Aquilo que terá corrido menos bem com a família Conceição neste contexto há mais de duas décadas foi idêntico àquilo que correu – e corre – mal com tantas e tantas pessoas todos os dias, pessoas que naturalmente têm direito a refazer as suas vidas, a uma nova oportunidade, sem que isso signifique necessariamente que tenhamos de duvidar eternamente da sua honestidade. A verdade é que quando olho para António Luís Conceição (e para as pessoas que actualmente o acompanham na liderança do CSPAV) vejo uma pessoa competente, porventura neste momento uma das (poucas) figuras de Aveiras capazes de tomar em mãos uma responsabilidade tão imensa como a de dar continuidade à gestão de um projecto criado pelo Prior Cardoso com a dimensão que este Centro Paroquial apresenta. Certo é que governar uma instituição desta natureza nunca é tarefa fácil, porque mexe com avultadas responsabilidades de âmbito financeiro e de cariz social; são muitas as sensibilidades afectadas por qualquer decisão, sobretudo quando se tratam de decisões difíceis e têm que ser tomadas com coragem, para bem da sustentabilidade do projecto, ainda que as mesmas colidam com interesses e práticas instituídas ao longo dos tempos, colisão que num instante é confundida e vilipendiada pela comunidade. Gerir com o rigor que esta instituição exige é tomar medidas impopulares, que normalmente são mal vistas por quem beneficia do estado das coisas.
Já a questão dos idosos supostamente mal tratados é aspecto que me recuso a acreditar com determinação. Tratar mal um idoso numa instituição criada pelo Prior António Cardoso seria uma traição do tamanho do universo à bondade e à misericórdia do Prior. Para mais quando o próprio António Cardoso continua a ser figura omnipresente no dia a dia do seu Centro Social e Paroquial. Aqui o “mau trato” é outro, mas infelizmente difícil de contornar, sobretudo quando uma pessoa é retirada da sua própria casa, do seu quintal, da sua vida, para se confinar a um espaço que a confronta com a realidade da marcha impiedosa do tempo. Ainda que essa seja a única forma de lhe garantir bom trato material e dignidade de vida, não deixa de ser igualmente uma forma rude de anuncio do inicio do fim.

VIANuno Cláudio
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