A Manuela quase que tinha razão

Opinião de António José Matos

Na Roma antiga, quando já ninguém se entendia e se verificava o caos ou quase caos, suspendiam a república e a “democracia”, e eram nomeados dois ditadores para endireitar as contas do Império. Nomeavam dois para se vigiarem um ao outro.
Há algum tempo a Manuela Ferreira Leite também o disse; afirmou que era preciso suspender a democracia por seis meses para endireitar as contas e o país. Como é natural foi imensamente criticada. Acredito que foi apenas uma metáfora em função do quanto o país estava mal e do que era preciso fazer para o endireitar. Foi uma frase para ser lida nas entrelinhas…
Nos últimos quatro anos o país empobreceu, quase meio milhão teve de emigrar, muitos deles altamente qualificados e que tanta falta nos fazem. A classe média está a agonizar, passámos a ter menos saúde, menos ciência, menos educação, menos emprego,…tudo para baixar uma divida que aumentou e para relançar o crescimento económico o que também não aconteceu. O neoliberalismo e as políticas de austeridade trouxeram apenas sofrimento e o aumento das desigualdades. O fosso entre os que tudo têm e os que de tudo precisam cada vez é maior. Este não é, definitivamente não é, o espirito que levou à construção desta Europa.
Apesar de tanto sofrimento infligido por esta coligação verificamos que é possível que volte a ser governo. Sê-lo-á sempre, ganhe ou perca as eleições.
Em Portugal temos uma esquerda à esquerda do PS que não se entende, talhada para ser oposição, tal é a falta de razoabilidade das suas propostas. Neste tempo tinham tudo para se unirem mas não conseguiram. Ainda apareceu o Livre e outros tantos… O PS, assim como muitos dos partidos socialistas europeus fruto do tempo em que vivemos ainda não se conseguiu verdadeiramente encontrar… ideologica-mente parecem estar algo baralhados. Tiveram de se encostar ao neoliberalismo europeu (veja-se o caso francês), não conseguindo ainda provar aos neoliberais que a vida das pessoas é muito mais que um jogo e provar aos eleitores que eles são a solução e que têm soluções sérias e credíveis… Este neoliberalismo que teima em acabar com os setores primário e secundário, que sempre foram o motor do desenvolvimento, tem-se dedicado a transformar o setor terciário, mais precisamente a parte da alta finança e do grande capital, num jogo que rende muito dinheiro a alguns e quando não rende somos todos nós que temos de pagar. BPN e BES são alguns dos exemplos que estão a desgraçar o nosso país.
A esquerda portuguesa está demasiado radicalizada para ser levada a sério. O PS ainda não encontrou o caminho certo, está entre a esquerda radical e o neoliberalismo do PSD e do CDS; conseguiu encontrar-se com o clubismo partidário, mas ainda faltam os outros, aquela molhe de indecisos que lhes poderá dar a vitória nas próximas eleições e dar-lhes a oportunidade de mostrar que são diferentes para melhor.
Os partidos representados na Assembleia da República, assim como os que lá não estão representados, têm tido uma mensagem muito pouco clara e objetiva. Este teria de ser o resultado, uma enormidade de gente que não quer saber… e dos que querem saber, há entre trinta a quarenta por cento de indecisos.
Individualmente o povo poderá não conseguir exprimir de forma clara e objetiva o que quer e o que pensa, mas coletivamente o povo é dotado de muita clareza e objetividade. Toda esta confusão que os políticos criaram ao serem tão pouco claros, ao não dizerem ao que veem, ao fazerem a política atravessar este período de imensa mediocridade, estão a obrigar o povo a dar-lhes uma lição. Uma lição que quase dará razão à Manuela, quase porque não parará a democracia. Quase porque não haverá a nomeação de dois ditadores, mas serão obrigados a entender-se, seja qual for o partido a ganhar, Passos e Costa terão de conversar muito e vão ter de se vigiar mutuamente e colaborar. Se o não fizerem o povo não lhes perdoará… e os dois em conjunto terão de vigiar aquele que toma decisões irrevogáveis até as revogar. Ironicamente será um bloco mas não o de esquerda, será o bloco central. Esperemos que a assertividade venha ao de cima, inclusivamente na campanha, que as posições não fiquem demasiado extremadas porque eles vão ter de se entender a bem de Portugal e dos Portugueses.
Citando Fernando Pessoa, que está sempre tão atual, “Hoje em que nada é português, salvo a desgraça, e em que um sopro maligno e soês, por sobre as nossas almas passa;” – Têm que se entender, vigiar mutuamente e deixar de vender o que resta de Portugal, que já é tão pouco. Afastar esse sopro maligno e soês, salvando este povo da desgraça, pois já sofreu demasiado e, à semelhança dos povos do norte da Europa, também tem o direito de ser feliz.
Os desejos do Sr. Presidente da Republica vão-se concretizar, não porque ele quer mas porque o povo é quem mais ordena. Obrigatoriamente vamos ter um governo de Unidade Nacional. PS, PSD e CDS estão condenados a entenderem-se e a terem juízo…

FONTEAntónio José Matos
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