“O Carregado não tinha quaisquer condições financeiras para continuar no Campeonato Nacional de Séniores”

Fernando Silva é o responsável pelo futebol de formação da Associação Desportiva do Carregado, integrando uma Comissão Administrativa liderada por José Miguel Medeiros que tem feito o milagre de devolver a ADC à credibilidade, assegurando portas abertas e actividade no clube carregadense. Fernando diz que a participação do Carregado nos campeonatos dos diversos escalões esteve por um fio, e garante que a situação financeira do clube ainda é muito difícil. Sobre a descida de divisão da equipa sénior e o regresso aos distritais ao fim de mais de uma década a competir nas divisões nacionais, o responsável pelo futebol de formação do Carregado afirma, ainda que o confesse a muito custo: (ler titulo)

F : Como é ser dirigente da Associação Desportiva do Carregado ao nível do futebol de formação, tendo em conta que o clube desenvolveu um trabalho meritório nesta área nas últimas duas décadas?
F.S.: Não tem sido um trabalho fácil, sobretudo porque herdámos uma organização a necessitar de alguns retoques. O clube está numa situação financeira complicada, eu diria mesmo dramática, e essa realidade reflete-se no futebol. Como todos sabem, este ano tivemos muita dificuldade em fazer futebol em todos os escalões, foi mesmo até à última da hora do fecho das inscrições, e até ao momento a ADC gastou 17 mil euros em inscrições para a presente temporada, desde a formação até ao futebol sénior.
F : Houve alguma comparticipação da autarquia de Alenquer nesse valor?
F.S.: Não houve comparticipação nenhuma. Temos tido um trabalho árduo de tentativa de rentabilização da imagem da Associação, já visível nos outdoors que estão na entrada da vila, e vamos pedindo apoios e donativos a patrocinadores. Foi dessa forma que arranjámos o dinheiro.
F : A Câmara de Azambuja, aqui ao lado, tem um protocolo assinado com a Associação de Futebol de Lisboa, prestando-se a pagar as inscrições dos escalões de formação dos clubes do concelho. Seria uma grande ajuda, digo eu, se um protocolo idêntico fosse estabelecido entre a Câmara de Alenquer e a AFL.
F.S.: Mas sem dúvida. 17 mil euros é um valor fora do comum, muito para lá das possibilidades da Associação Desportiva do Carregado. Tínhamos uma dívida extremamente elevada para com a Associação de Futebol de Lisboa; essa dívida foi, de resto, falada em Assembleia Geral do clube, e foi o grande entrave para que não pudessemos inscrever todas as equipas, pois a AFL queria perceber de que forma é que a Associação Desportiva iria liquidar aquele valor. E foi graças à boa vontade da Associação, a par da negociação que esta Comissão Administrativa conduziu, que foi possivel inscrever tanto as nossas equipas de formação como a nossa equipa sénior.
F : Não houve uma abordagem ao vereador do desporto da Câmara de Alenquer neste sentido?
F.S.: Neste momento não fizemos essa abordagem. Tínhamos outros problemas para resolver junto da Associação de Futebol de Lisboa e demos prioridade à resolução dessas questões. A Câmara apoiou com a cedência de alguns outdoors para que possamos explorar a publicidade e retirar alguma rentabilidade desses espaços, para além de ter apoiado a negociação com a companhia das águas (Águas de Alenquer). A ADC não quer que a Câmara lhe dê dinheiro de forma directa, mas num futuro próximo veriamos com bons olhos uma comparticipação nas inscrições dos jogadores da formação, do género da que é dada pelo município de Azambuja através do protocolo que estabeleceu com a Associação de Futebol de Lisboa.
F : Até que ponto esta “casa” estava desarrumada quando esta Comissão Administrativa pegou na Associação?
F.S.: Eu não tenho adjectivos para classificar o estado da Associação Desportiva nessa altura. Aliás, ainda estamos numa situação muito difícil. Na próxima Assembleia Geral de sócios já vamos demonstrar mais detalhadamente aquilo que a Comissão tem feito nestes últimos 9 meses, e as pessoas irão notar que tem sido um trabalho excepcional. Tentámos renegociar muitas das dívidas, os credores têm tido muita paciência. Neste momento, é o que temos e o que podemos fazer.
F : No ano passado eras treinador da equipa de juvenis. Quem estava dentro do clube, mas fora da estrutura directiva, não percebia a situação de desorganização em que o clube se encontrava?
F.S.: Eu falo por mim, como sócio assíduo que sou das Assembleias Gerais: o clube estava numa situação muito difícil, e isso era perceptível, mas confesso que, fazendo parte da estrutura técnica do futebol de formação, não percebi que o clube estivesse numa situação assim tão dramática. Não tinha essa noção, nem como sócio nem como treinador do clube. As contas não foram apresentadas durante dois anos e quando finalmente a realidade veio ao conhecimento dos associados ficámos todos a perceber o quanto dramática é a situação da ADC.
F : Depois de um conjunto de décadas durante as quais o futebol do Carregado esteve no topo, assistimos nos últimos anos à queda dos dois escalões de topo, com os seniores a descer para o distrital de Lisboa depois de mais de uma década nas competições nacionais, e os juniores e baixarem dos nacionais para a primeira divisão da AFL, tendo sido despromovidos por duas vezes consecutivas.
F.S.: Até me custa dizer o que vou dizer, mas a verdade tem que ser dita, e eu falo como dirigente e como sócio: ainda bem que o Carregado desceu de divisão. Estou a falar do futebol sénior. O Carregado não tinha quaisquer condições financeiras para continuar naquela divisão, tendo em conta os custos das inscrições ou das taxas de jogo. No momento em que o Carregado se encontra, era insuportável. Para termos uma ideia, neste momento o Carregado paga três vezes menos a competir no Pró-nacional, que é a divisão de topo da Associação de Futebol de Lisboa. E eu digo “ainda bem que descemos” porque neste momento, se estivéssemos a competir no Campeonato Nacional de Séniores, provavelmente teríamos de abdicar de competir por não termos capacidade financeira para tal. E se isso acontecesse, teríamos que recomeçar na segunda divisão distrital.
F : Competir no Pró-nacional tem mais a ver com a realidade financeira do Carregado, neste momento, ou mesmo assim ainda é um desafio muito exigente?
F.S.: Temos um plantel completamente a custo zero, no que diz respeito ao futebol sénior. No que diz respeito aos juniores, é o escalão que terá que servir de base à formação da equipa sénior, do nosso ponto de vista. Temos que seguir o caminho do custo zero, e ter bons jogadores na formação para que futuramente possam chegar ao futebol sénior. O facto de ter havido alguma expectativa no início da época em relação à indefinição sobre se iríamos ter futebol a todos os níveis fez com que alguns jogadores, que tinham outras opções, procurassem outros caminhos.
F : A indefinição em torno da situação do campo de futebol também ajudou a que houvesse algum receio por parte de muitos jogadores em relação ao futuro imediato da ADC?
F.S.: Sem dúvida. Espalhou-se aí o boato de que a Associação Desportiva estava em risco de perder o campo para a família Pinto Barreiros, o que fez com que houvesse ainda mais receio em relação ao futuro. Mas isso não vai acontecer, nem no próximo nem nos anos mais chegados. Os nossos planos passam por tirar o Carregado deste espaço, de facto, mas para um espaço melhor. Estamos a trabalhar no assunto.
F : Aquele terreno ao lado da empresa Péri, a sul da Urbanização da Barrada, terreno que a família Pinto Barreiros pretende doar em troca do actual campo, é uma boa opção, no ponto de vista da Comissão Administrativa que agora lidera o clube?
F.S.: Eu prefiro não falar em nome da Comissão neste particular, até porque é assunto que ainda não tivemos oportunidade de discutir, nem tão pouco temos uma posição oficial sobre essa matéria. A minha opinião pessoal é esta: qualquer solução que nos permita resolver este problema e nos proporcione crescer é uma boa solução. Quanto mais próximo do centro do Carregado, melhor. Acima de tudo, o importante é continuarmos a ter condições para pôr aqui os miúdos a praticar desporto.
F : O Carregado continua a ser aquele clube atractivo para os jovens da região, que vêem na ADC aquele emblema de referência para o qual desejam muito vir jogar?
F.S.: Este ano, é a verdade, sentimos um decréscimo de jogadores a procurarem o Carregado para vir jogar futebol. Temos que o assumir, porque foi o que aconteceu, e eu já expliquei as razões nesta entrevista. Mas para a próxima época tenho a certeza de que as coisas se vão alterar, porque as pessoas já perceberam que o Carregado não vai acabar, não vai fechar portas, nem agora nem nas épocas mais próximas. O nosso objectivo é crescermos enquanto clube; vamos apostar forte nas nossas escolas de futebol, pois é por aí que se começa a construír o futuro. Estamos a apostar muito no marketing e na publicidade em torno das escolas de futebol, na ida às escolas para tentar captar crianças.
F : A autarquia tem percebido a importância da ADC neste papel social insubstituível de formador de jovens desportistas?
F.S.: Eu por vezes tenho alguma relutância em fazer comentários em relação a entidades políticas, porque qualquer declaração ou emissão de opinião que possamos fazer é logo vista de uma forma como não deve ser e que não corresponde às minhas reais intenções. Só há aqui uma coisa que eu peço, como responsável pela ADC: é que não haja nunca um aproveitamento desta situação em que a Associação se encontra para fins políticos.
F : Esta Comissão já reuniu com a Câmara de Alenquer?
F.S.: Já tivemos uma reunião tripartida, entre Câmara, ADC e família Pinto Barreiros. Nós sempre iremos dizer, porque essa é a nossa convicção, que este campo, o Lacerda Pinto Barreiros, foi-nos cedido pelo senhor José Lacerda Pinto Barreiros. Essa é a nossa convicção. Obviamente que não queremos problemas em tribunais e muito menos queremos problemas com a família Pinto Barreiros. O que desejamos é crescer, é ver a Associação Desportiva a expandir-se. E se encontrarmos uma solução que nos permita resolver as coisas a bem, com vantagens para todas as partes, então estamos cá disponíveis para essa solução. Só espero é que sejamos todos sérios e que não se faça política em torno de um problema tão grave como é este problema que a Associação Desportiva tem em mãos.
F : Esta Comissão pondera avançar num futuro próximo para uma situação de direcção eleita?
F.S.: É verdade que os sócios atribuíram plenos poderes a esta Comissão, mas há situações previstas nos estatutos que são incontornáveis e que só podem ser decididas por uma direcção eleita. Vou ser franco: ainda não pensámos muito nesse assunto. As coisas estão a correr bem, a Comissão é muito unida e na próxima Assembleia as pessoas já vão perceber que as coisas estão a melhorar e vão perceber o que tem sido feito. Há aqui um misto de pessoas que já têm alguns anos de ADC com pessoas que fazem parte de uma nova geração de dirigentes, que amam o Carregado, e que o que mais queriam era que o Carregado não fechasse portas. Temos a curto prazo o objectivo de reduzir ao máximo a dívida que o clube tem, e depois desse trabalho feito, ou bem encaminhado, é haver coragem por parte ou desta Comissão ou mesmo de outros sócios de pegar neste clube. Importante é as pessoas perceberem que aqui não há tabus e que as contas estão muito claras e perfeitamente explícitas.

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