Pedro Carvalho: campeão de motocross é de Ota

Pedro Carvalho é campeão nacional de motocross, na categoria de MX-2 (juniores), mas já bate o pé aos seniores e promete vir a dar que falar num futuro próximo. Para já, vai levando o nome de Ota ao patamar maior do desporto motorizado nacional, ainda que por lá (por Ota) apenas seja conhecido pelo "rapaz que faz muito barulho em cima da motorizada". O pai é o treinador e também o maior responsável pelo investimento anual que é necessário fazer para que o Pedro bata o pé a toda a concorrência. Mas tem valido a pena, a julgar pelos resultados.

Pedro Carvalho, jovem de Ota é campeão de motocross

Desde que idade andas montado nas motas de cross, Pedro?
Eu tenho 18 anos e corro desde os 5 anos. Foi o meu pai que me meteu este bichinho. Ele já corria e quis que eu experimentasse, eu tomei-lhe o gosto e ele achou que eu tinha jeito para a coisa. Ele desistiu para me apoiar e eu comecei a correr, porque era complicado mantermo-nos os dois a correr.
Tens algum título anterior a este de campeão nacional de MX-2 juniores?
Este foi o meu primeiro. Este ano consegui três títulos; para além deste de campeão nacional de MX-2, também fui campeão pela Yamaha e campeão regional de amadores, título conseguido numa única prova realizada em Aveiras de Cima…
Não haja dúvida de que Aveiras de Cima tem belas estradas para a prática de motocross…
(sorrisos) Também alcancei alguns vice-títulos, como quando fui vice-campeão pela diferença de apenas um ponto. Este ano consegui apoios mais relevantes, como a PG Motos, o meu mecânico e concessionário Yamaha na Benedita, bem como outros apoios que têm sido fundamentais para esta minha época (ver caixa).
Este é um desporto que custa muito dinheiro? É de ficar de cabelos em pé quando se fazem as contas às despesas?
Mais de 70 mil euros por época. A maior parte é o meu pai que suporta. Se não fosse o meu pai, eu não andava cá.
Será justo dizer que este não é então um desporto para pobres.
Exacto. Quem não tenha possibilidades, não consegue. Ou alguém pega no piloto, nesses casos, ou nada feito. Eu tenho a sorte de ter o meu pai e também a equipa, o que já resulta das perfomances obtidas.
E no meio de tanto sucesso em cima delas, das motos, como é que tem ficado a escola? Vais desenhando pistas de motocross nos cadernos escolares para passar o tempo?
(sorrisos) Não, não. Estou a fazer matemática do 12º ano, mas está a correr bem. Sempre consegui conciliar os estudos com a motocross, que não só não atrapalhou a escola como até estou convencido que ajudou. Há sempre tempo para tudo e consigo conciliar todas as vertentes.
E a tua família, como reage ao facto de ter um campeão em casa?
O meu pai e a minha mãe apoiam-me muito, mas o resto da família diz que eu devia deixar de correr, que é um desporto muito perigoso. Mesmo assim a minha mãe por vezes também fala nisso…
A tua mãe é aquele género de senhora que mete as mãos à cabeça quando vê o filho a 5 ou 6 metros de altura em cima da moto depois de passar por um salto?
Não, isso não. Ela gosta muito de me ver correr, de me ver ganhar ou fazer segundos ou terceiros lugares. Desde que eu acabe sem me aleijar, para ela está sempre tudo bem.
Para se ganhar um título como o que conquistaste, tem que se ultrapassar que género de obstáculos?
O campeonato começa em Maio e acaba em Junho. Foram cinco provas a nível nacional. No campeonato belga ou espanhol são mais de 10 provas, mas cá as organizações cortam-se, não querem levar a efeito as provas, possivelmente porque os custos são muito elevados. Das 5 provas ganhei as duas últimas, mas nas outras 3 fiquei sempre no pódio.
Então foste sobretudo o campeão da regularidade.
Pode dizer-se que sim.
Queres fazer da motocross o teu modo de vida?
Já pensei em fazer vida da motocross, mas cá em Portugal isso é impossível. Há um ano eu só pensava em fazer vida desta actividade, mas agora já penso de outra forma, a minha mãe e o meu pai já me abriram mais os olhos. Ninguém vê o motocross como vê o futebol, poucos são os que apoiam a modalidade, e essa é a nossa grande luta. Ainda há pouco tempo o Ruben Faria fez segundo no Dakar e só dessa forma é que apareceu na televisão e foi apenas um minuto.
Ou fazendo um segundo lugar ou então partindo o pescoço numa queda é que se aparece na televisão.
Quando há uma queda ou mortes ou feridos, então aí sim, aparece-se logo na televisão. De outra forma, é difícil. Assim as pessoas ficam sempre com a ideia de que o motocross é um desporto perigoso.
Mas nas provas há sempre muita gente a ver em redor da pista.
Há sempre mais de mil espectadores por prova. No Mundial temos ali mais de 10 mil espectadores.
E agora aqui que ninguém nos ouve: é mais fácil arranjar miúdas quando se é campeão nacional de motocross?
(sorrisos) Nem ligam muito…
Nem te pedem para dar uma voltinha ali para os lados da Serra? Uns cavalinhos?
(mais sorrisos) Não… ali em Alenquer, onde eu ando a estudar, raras são as pessoas que sabem que eu faço motocross. Eu também passo despercebido, sou muito tranquilo…
Vá lá… nem as convidas para virem ver os treinos??
Eu gosto mais de treinar sozinho…
Pronto, já percebi, elas desconcentram-te.
Até nas corridas, quantas mais pessoas estiverem na assistência, pior para mim. Se lá estiver o meu pai, a minha mãe, o meu irmão, o meu mecânico e o amigo do meu mecânico, que dá uma grande ajuda, para mim já chega.
Mas aquela adrenalina da multidão não puxa pelas tuas capacidades?
No Mundial, em Águeda, é que eu senti o que é uma multidão a puxar por mim. Eram 40 corredores, dos melhores do mundo, e eu fiz 24º e fui o melhor português. O nível é muito superior ao nosso, eles dedicam-se a tempo inteiro, têm treinadores em exclusivo, excelentes condições materiais e um país com cultura desportiva para ajudar. A Holanda e a América são os países mais fortes na modalidade.
Estamos aqui na tua pista de treinos, mas não vejo o teu treinador. Quem é que te orienta no processo de preparação para as provas?
O meu pai é o meu treinador. O Joaquim Rodrigues também me ajuda muito, já correu numa equipa oficial e já ganhou muitos títulos. Ambos me dão excelentes indicações, dizem-me quando tenho que elevar o nível de exigência para estar cada vez mais competitivo.
Quantas motas tens?
Tenho duas. Esta (da foto) é uma quatro e meio, é nova, este é o quinto treino que venho fazer nela. Custa cerca de 10 mil euros. As motos mais caras são as Yamaha, mas são as que mais duram…
Nem eu esperava ouvir outra coisa de um piloto oficial da marca.
Não, mas é a pura verdade. Estou perfeitamente convencido disso.
E não haja dúvidas de que és a pessoa certa para atestar essa qualidade. Nunca te fascinaram as motos de pista?
Não, não. É muita velocidade, alcatrão, não me puxa. Puxa-me mais a adrenalina dos saltos, as curvas na terra.
E as moto 4?
Também não me dizem muito. São muito perigosas, e por graça até dizemos que quem anda de moto 4 é quem não sabe andar de moto de duas rodas.
As pessoas de Ota reconhecem que tu representas com muita dignidade o nome da terra?
As pessoas sabem que eu faço motocross, mas não sabem que eu fui campeão ou que eu represento Ota a esse nível. Só dizem que eu sou aquele rapazinho das motos que só faz é barulho.
Então o Fundamental chegou em boa hora.
Sem dúvida! Este ano é o meu último de júnior, e também já corri no campeonato de senior, onde fui vice-campeão das dois e meio.
Bom, estou mesmo a ver que daqui por um ou dois anos venho a Ota mas é para entrevistar o campeão nacional absoluto de motocross. Estás no bom caminho.
Fui quinto classificado em termos absolutos, ou seja, com as quatro e meio à mistura, essa que é uma classe de elite. Fui vice-campeão das dois e meio porque fiquei em segundo, devido a ter furado na última corrida quando ia à frente. Fiquei em 21º. Nessa corrida competem os vinte melhores de cada classe, ou seja, das dois e meio e das quatro e meio.
Bom, agora é que não tenho quaisquer dúvidas de que estou a falar com o futuro campeão nacional absoluto de motocross. Já agora: nunca foste contactado por ninguém da Câmara Municipal, do sector de desporto?
Não, nada. Há uns anos contactei para obter um apoio para fazer a Masterkid, uma prova internacional realizada em França. Ia representar Portugal nas 75 cm3. Só me responderam passadas três semanas de a prova ter sido realizada.
Bem vindo a Alenquer, meu caro Pedro. Obrigado pela entrevista.
O prazer foi meu. Obrigado eu.

FONTEEntrevista: Nuno Cláudio
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